quarta-feira, 6

de

julho

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2022

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Jorge na Lapa depois do Cerco

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Foi árdua e lenta a recuperação da vida e da economia lapianas

Rumores da chegada dos Federalistas espalharam-se rapidamente entre as várias camadas da população. Soldados de um batalhão do exército sediado em Curitiba deslocaram-se até a região da Lapa com a finalidade de deter a já vitoriosa escalada dos Federalistas que intencionavam passar pelo Paraná, tomar a província de São Paulo e a seguir a capital federal.

Juntaram-se ao exército brasileiro a Polícia Militar do Paraná, a Guarda Nacional e um grande número de voluntários. Jorge que há tempos já era tenente recebeu a estrela de capitão. Antônio já se encontrava em campo desde as primeiras investidas dos Maragatos. Recebera a patente de Tenente. Tanto esteve na frente da batalha como depois ajudando a cuidar dos feridos.

Foi árdua e lenta a recuperação da vida e da economia lapianas. Foi árdua e lenta a recuperação da chácara de Antônio e Luiza Dittrich. Mas jamais esmoreceram. Como os demais lapianos sobreviventes reergueram as suas propriedades.

Mais crianças vieram trazer alegria e bulício à chácara. Tiveram catorze filhos. Quatro mulheres e dez homens.

Jorge era um exímio serralheiro. Continuou, depois do Cerco da Lapa a executar suas obras de arte em ferro fundido, emoldurando entradas de sítios e chácaras e de muitas residências também. Uma de suas mais magníficas obras foi o grande portal que enfeitava a entrada do cemitério da Lapa.

Quando a turbulência chegou nas terras lapianas amigos ficaram em lados opostos. Pior ainda eram os entreveros entre os que já tinham suas altercações antigas. Durante anos Jorge e um professor — monarquista e maragato — tinham suas desavenças. Afirmava-se na cidade que os dois eram grandes amigos até o dia em que um rabo de saia imiscui-se entre eles. Nunca mais se olharam e nem se sentaram mais para um papo e um chimarrão.

Fora uma guerra fratricida. Denunciavam-se vizinhos. Denunciavam-se antigos companheiros que juntos se sentaram nos bares da vida para prosear e beber uma taça de vinho.

E a degola oficializou-se. Entre os perseguidos para perder a cabeça em tão trágica situação encontrava-se o professor, já arqui-inimigo de Jorge.

Estava ele, numa tarde de chuva fina e gelada, despreocupadamente, montado em seu cavalo, indo a trote curto em direção à cidade. Quando estava quase saindo da pequena estrada que findava exatamente em sua propriedade vê, ao longe, um vulto a correr desabaladamente.

Reconheceu, de imediato, o professor. Estancou o animal. Olharam-se com firmeza. Com o mesmo rancor que há anos minava o interior de ambos. O professor, monarquista, maragato. Jorge, oficial do lado oposto dirigiu-se ao desesperado transeunte.

— O que está a fazer, seu desgraçado, a esta hora, num tempo desses, nessa estranha correria por estas bandas?

— Estou fugindo de um pelotão de pica-paus que querem o meu couro. Querem me degolar — e sem titubear, tudo o professor contou ao inimigo.

Jorge apeou do cavalo. Entregou-lhe as rédeas. E em voz enérgica ordenou-lhe:

— Vá, no maior tropel possível por esta mata em direção norte e somente quando você se sentir em um local seguro pode deixar o cavalo à solta. Ele encontrará o caminho de volta para casa. E tenha cuidado.

Jorge continuou a caminhar a pé, pela estrada, em direção à cidade da Lapa. Não demorou muito a encontrar o pelotão que perseguia o professor. Como era oficial e deles conhecido, de imediato bateram continência.

— Capitão Emple, por acaso o senhor viu um infeliz de um maragato correndo a pé por esta estrada?

— Nem sei mesmo se era uma pessoa, e nem se era um maragato— respondeu-lhes Jorge, sem titubear—, mas vi um monte de roupa molhada a correr por aí.

— Mas com certeza o senhor viu para que lado o infeliz seguiu?

— Claro, cabo Silvino. Foi coxeando para o sul, na direção do rio Negro.

Finda a revolução Jorge e o professor continuavam sem nem sequer se olhar. No fundo a mágoa antiga persistia. Coisa de irlandês, provavelmente. Porque ao ser indagado sobre os porquês desta mágoa tão antiga não ter fim, respondia sorrindo:

— Não vale a pena viver sem ter alguém na ponta da lança da memória, mesmo que seja para espezinhá-lo em pensamento.

Viu muita tristeza naqueles dias. Viu a degola de muitos conhecidos. Viu muitos companheiros tombarem a seu lado. Sob tiros de fuzis ou golpes de baionetas. Começou a tomar uns tragos de cachaça nas bodegas da vida quando estas dantescas visões à memória lhe assomavam. Montado em seu cavalo, aprontava algumas artes, causando pequenos distúrbios a pessoas mal resolvidas, em um tempo em que a cidade se aquietava e se encolhia aturdida, depois de tantos meses de guerra.

A bebida era o seu refúgio para minimizar as trágicas pinturas que visualizava em sua mente. Trágicas imagens que presenciara durante aqueles tétricos dias em que passara nos campos de batalha.

Cantarolava ou solava em sua harmônica de boca as canções celtas mais antigas enquanto seu cavalo o conduzia de volta para casa, o sobrado do Barreiro que ficava no caminho da velha estrada que levava a Rio Negro.

Mas os encarregados de manter a ordem começaram a implicar com suas costumeiras idas aos bares e de lá sair cantarolando. Segundo conta a lenda certa vez ele teve que assinar um termo de bom viver, diante do delegado e do juiz. Um termo de bom viver em que prometia e jurava nunca mais tomar um gole de bebida alcoólica.

Certo dia o juiz deparou-se com ele na mesa de um conhecido bar da cidade. Com uma garrafa de uma bebida espirituosa ao lado. E à sua frente um prato de farinha e uma colher.

A autoridade nem pestanejou. Foi direto à mesa de Jorge. Sentou-se à sua frente e em ríspido tom começou a ladainha.

— Senhor Jorge! O que o senhor está a fazer? Devo lembrá-lo de sua promessa, escrita de próprio punho, assinada e com aval de testemunhas de que jamais tomaria sequer um gole de bebida alcoólica! E agora eu o encontro aqui tendo à sua frente uma garrafa de cachaça? O que tem a dizer em sua defesa? Ou já devo chamar os policiais para conduzi-lo ao xadrez?

— Senhor juiz, com todo o respeito —calmamente respondeu Jorge—, por acaso Vossa Excelência está vendo algum copo aqui nesta mesa? Vossa Excelência viu algum copo ser levado à minha boca? Estou comendo, num prato fundo, um mingau frio de cachaça com farinha. E de colher!

A promessa, o juramento era para nunca mais beber.

Por seus feitos, sua luta e seus atos de bravura, Jorge, filho de Liam e Sinead Emple, tem seu nome gravado, ao lado de tantos outros, no Panteão dos Heróis da Lapa. Um herói lapiano, nascido nas terras onde viveram os Celtas, a Irlanda.

Alguns fatos tiveram por fonte o livro Retratos, de Aline Dittrich Zappa, Editora Juruá, Curitiba, 2003.  

Continua