Já podemos relaxar as medidas de cuidado em relação ao coronavírus?


Ricardo Wolffenbüttel/Secom

O cansaço por ficar tanto tempo em casa tem feito muita gente afrouxar os cuidados em relação novo coronavírus

 

 

Entramos no oitavo mês de pandemia no Brasil e de quando iniciaram as recomendações de distanciamento social com uma série de medidas de restrições que variaram por estados e municípios. O cansaço por ficar tanto tempo em casa tem feito muita gente afrouxar os cuidados em relação novo coronavírus. Mas será que já podemos relaxar?

 

 

 

Material produzido pelo Instituto Federal de SC (IFSC) que o JMais reproduz abaixo expõe fala da enfermeira epidemiologista e professora do curso técnico em Enfermagem do Câmpus Florianópolis do IFSC Vanessa Jardim e também da psicóloga e chefe do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Andrea Valéria Steil. Acompanhe.

 

 

 

O pior já passou?

Para avaliar a situação em cada localidade, é preciso acompanhar a chamada curva da doença, ou seja, analisar se os casos de infectados estão crescendo ou não. Segundo a enfermeira epidemiologista Vanessa Jardim, focando apenas no pico da curva, pode-se dizer que o pior já passou. “Olhando a curva, ela apresenta queda, porém, o número de casos registrados por dia e consequentes óbitos tem se mantido em platô há algumas semanas”, explica. Os especialistas explicam o platô quando há uma estabilização nos números.

 

 

 

A professora do IFSC destaca a importância de as pessoas acompanharem o boletim epidemiológico do coronavírus do seu estado e do seu município, especialmente quem acha que a pandemia já acabou. “A pandemia já tem sido apontada por especialistas com o termo sindemia, porque sugere a sinergia de diversos fatores para determinar desfechos e os determinantes sociais – como as desigualdades e os fenômenos culturais – afetam em muito a situação do país e de Santa Catarina em relação à infecção pelo coronavírus”, informa.

 

 

 

Vanessa adverte ainda que a curva se comporta de acordo com a transmissão do vírus. “Se houver relaxamento de todas as medidas, a tendência dos números é voltar a subir”, alerta.

 

 

 

 

Embora cada município tenha suas medidas de combate ao coronavírus indicando o que pode ou não ser feito, a professora do IFSC destaca que, no Brasil, nunca houve clareza de quais medidas exatas deveriam ser tomadas pela população. “A gente não teve de fato uma estrutura de fechamento, de lockdown, de confinamento e continua muito divergente”, afirma Vanessa.

 

 

 

Para a professora, a progressiva abertura de ambientes em que não haja uma ventilação adequada pode trazer um previsível aumento dos casos da doença. “Seria importante que houvesse uma estratégia de comunicação federal que apresentasse razões pelas quais as pessoas deveriam manter os cuidados básicos do uso da máscara e de higiene pessoal, bem como a possibilidade de acesso aos insumos básicos para adesão às estratégias de prevenção não-farmacológicas”, defende.

 

 

 

 

 

 

É preciso pensar no outro

Sem clareza do poder público, as pessoas passaram a decidir sobre relaxar ou não as medidas de maneira individual. No entanto, segundo Vanessa, quando estamos em uma pandemia de uma doença infecto-contagiosa, não existe medida ou decisão individual. “Tudo aquilo que eu fizer afeta a sociedade, afeta os que estão a minha volta e, consequentemente, os que estão a volta deles”, explica. “Decisões individuais relacionadas a medidas de isolamento são sempre decisões sociais”, enfatiza.

 

 

 

Para a chefe do Departamento de Psicologia da UFSC, Andrea Steil, é preciso que as pessoas desenvolvam a empatia e compreendam que a qualidade de vida também depende do coletivo. “Quanto mais pessoas empáticas existirem, mais haverá pressão social para que todos sejam empáticos, criando um círculo virtuoso em direção ao distanciamento social e ao combate à pandemia”, afirma.

 

 

 

 

 

 

 

Ainda é arriscado flexibilizar as medidas de distanciamento social?

Enquanto houver a circulação do vírus e não houver imunidade, nenhuma ação é isenta de riscos. “É importante que a população siga as regras locais relacionadas ao distanciamento social e as medidas de higiene e de proteção, que já deveriam ser hábitos incorporados”, enfatiza a professora do IFSC.

 

 

 

 

O maior risco está na tendência de aproximação física entre as pessoas e de aglomeração. “Não há testes que garantam a ausência do vírus nos indivíduos assintomáticos ou pré-sintomáticos”, alerta Vanessa.

 

 

 

 

-> Entenda a diferença entre doentes assintomáticos, pré-sintomáticos e sintomáticos

 

 

 

 

Sobre a necessidade ou não de higienizar as compras de supermercado ou lavar as roupas toda vez que se sai de casa, a epidemiologista compartilha da opinião do médico e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) que, em um vídeo, comentou da importância de concentrar as energias em cuidados essenciais como o uso de máscara, a higienização das mãos e a distância mínima entre as pessoas. Assista aqui.

 

 

 

 

 

Fatores a serem considerados na hora de decidir flexibilizar ou não

A manutenção do distanciamento social não significa que não possamos ver familiares e amigos, mas precisamos respeitar os protocolos de segurança e considerar os riscos. Para a enfermeira epidemiologista do IFSC, estar consciente dos riscos é o primeiro passo para tomar a decisão do que fazer e de quanto fazer, uma vez que não há ausência de riscos. O que pode ser feito, segundo ela, é adotarmos medidas para minimizar esses riscos, como manter o distanciamento mínimo entre as pessoas que não moram na mesma casa, utilizar máscaras corretamente, fazer a higienização frequente das mãos e procurar manter-se em espaços bem ventilados, preferencialmente, ao ar livre.

 

 

 

 

Outro ponto que precisa ser considerado são os fatores de risco para o agravamento da doença. Se você possui um desses fatores, mora ou convive com quem tenha, precisa levar isso em conta ao decidir sobre possíveis encontros e atividades.

 

 

 

-> Conheça os fatores de risco para a Covid-19

 

 

 

 

 

Quais atividades apresentam menos risco?

Para quem precisa de um momento de respiro, é possível pensar em saídas em que os riscos sejam menores. A opção de lazer mais viável são as atividades feitas ao ar livre, com poucas pessoas.

 

 

 

 

Com o verão chegando, a praia poderia ser um local seguro nos municípios que já permitem a permanência das pessoas nesses lugares. No entanto, o problema, segundo Vanessa, é a tendência à aglomeração. “A praia em si, é segura, porém, a tendência à aglomeração, consumo em bares e restaurantes, isso sim representa um risco de transmissão e contaminação”, alerta.

 

 

 

Da mesma forma, piscinas também são ambientes seguros, uma vez que não há proliferação do vírus na água. A questão é manter o distanciamento e não haver reunião de grupos de pessoas fora do núcleo familiar (que não morem na mesma casa).

 

 

 

 

Um estudo de pesquisadores da Universidade de Oxford e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, publicado no periódico de saúde The BMJ, elaborou uma tabela para ajudar a avaliar o risco de infecção cada vez que você vai a um evento social. Fatores como o uso de máscaras, o tempo de contato com outras pessoas, a ventilação do local, a quantidade de pessoas e até o que elas estão fazendo — falar, cantar, gritar ou permanecer em silêncio – fazem com que os riscos sejam maiores ou menores.

 

 

 

 

Conviver com quem já teve Covid-19 é menos arriscado?

Segundo Vanessa, analisando de forma lógica, é menos arriscado considerando que quem já teve a doença apresenta anticorpos que dão uma garantia de pelo menos 90 dias para que não se contamine novamente, podendo essa imunidade durar mais ou menos – ainda não há uma certeza. No entanto, a professora lembra que, do ponto de vista epidemiológico, quem já teve Covid-19 pode ainda ser transmissor indireto.

 

 

 

 

Assista neste vídeo a enfermeira e professora do curso técnico de Enfermagem do Câmpus Florianópolis do IFSC Ângela Kirchner explicando sobre a necessidade de haver preocupação mesmo no caso de quem já teve a covid-19:

 

 

 

E se eu me reunir sempre com as mesmas pessoas?

Alguns especialistas têm comentado sobre formar “contact clustering”, que seria conviver sempre com essas mesmas pessoas em um pequeno grupo, diminuindo os riscos. “A proposta é interessante e o conceito de cluster ou agrupamento de semelhantes é utilizado para estudo da transmissibilidade e comportamento das doenças infecciosas, porém, dificilmente há de se garantir o convívio único em um cluster”, comenta Vanessa. A dificuldade em restringir os membros desse grupo a um único contexto ocorre, pois algumas pessoas terão que sair para trabalhar e por outras razões – como ir ao supermercado ou a um médico, por exemplo.

 

 

 

Para a professora do IFSC, esta estratégia deve ser pensada como uma medida de proteção e não de afrouxamento. “O incentivo ao contact cluster se refere a, por exemplo, pessoas de serviços essenciais que convivem juntos ou profissionais da saúde de um mesmo setor que, neste caso, são incentivados a manter o contato intra grupo e distanciamento dos núcleos familiares”, exemplifica.

 

 

 

 

A política de redução de danos é um caminho?

O vírus não será extinto mesmo depois que tivermos uma vacina para proteger a população. Conviver com a doença será uma realidade sempre presente. No entanto, isso não significa ignorar as medidas de cuidados que podemos ter para evitar a proliferação do vírus.

 

 

 

A estratégia do Japão de conviver com o vírus não é uma unanimidade. Para a enfermeira epidemiologista do IFSC, neste caso, é preciso levar em consideração questões culturais, sociais e até geográficas. “Todos nós teremos que aprender a conviver com a pandemia nesse conceito de redução de danos, de diminuir os riscos de contaminação, mas, ainda assim, os danos num país como o Brasil serão sempre maiores por causa das desigualdades sociais que temos”, afirma Vanessa.

 

 

 

 

 

A dificuldade em manter o distanciamento social

Um estudo publicado na Revista de Administração Pública em agosto deste ano, feito por pesquisadores da UFSC e da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), investigou os fatores que predizem a intenção da pessoa permanecer em distanciamento social no Brasil.  A coleta de dados foi feita de 31 de março a 6 de abril com pessoas com mais de 18 anos e que podiam escolher permanecer em distanciamento social.

 

 

 

 

Na época, em uma escala de 1 a 7, a média da intenção de permanecer em distanciamento social foi de 6,16 – o que sugere que a amostra concentrou participantes que se consideram altamente inclinados à adoção da medida. Entre os fatores que influenciaram na intenção de permanecer em distanciamento social, o preditor que mais impactou foi a pressão social exercida sobre as pessoas pelos seus pares. “Quanto mais a pessoa percebe que as pessoas importantes para ela pensam que ela deveria permanecer em distanciamento social, mais disposição esta pessoa apresentará para adotar e manter o distanciamento social durante a pandemia”, explica a chefe do Departamento de Psicologia da UFSC Andrea Valéria Steil, que foi uma das autoras do estudo.

 

 

 

 

Os resultados desta pesquisa são úteis para a elaboração de estratégias que promovam a permanência em distanciamento social. “Dado que sabemos o que as pessoas levam em consideração na sua decisão de se manter em distanciamento social, podemos desenvolver estratégias e comunicações persuasivas, com bases científicas, para este fim”, destaca Andrea.

 

 

 

 

As evidências desta pesquisa demonstram que é fundamental que se identifiquem quais são as pessoas influenciadoras para as pessoas como, por exemplo, líderes vinculados à ciência ou líderes religiosos, políticos, comunitários e digitais. “A partir desta identificação, seria importante garantir que todos esses líderes, em uníssono, disseminassem a necessidade de manutenção de distanciamento social e não apenas falassem sobre a importância do distanciamento, como também praticassem”, explica a professora da UFSC.

 

 

 

 

 

 

Como tornar o distanciamento social menos sofrido?

Segundo Andrea, as pessoas vinculam a necessidade de manutenção de uma rotina construída ao longo da vida com a sua saúde mental. Essa rotina envolve, em muitos casos, sair para trabalhar, ir à academia, encontrar os amigos em restaurantes ou bares com uma determinada frequência, levar as crianças para a escola, ir ao cinema, entre outras atividades. No entanto, no momento em que precisamos estar em distanciamento social, essa rotina precisa de fato mudar. “A questão é como mudamos a rotina e como organizamos o nosso pensamento com relação ao que a mudança de rotina significa para cada um de nós”, afirma.

 

 

 

A mudança na forma que percebemos o distanciamento social tem um impacto grande sobre nosso sentimento com relação a ele e sobre a nossa decisão de permanecer nessa situação. Como exemplo, a professora da UFSC sugere mudar o pensamento para “estou em casa segura” ao invés de “estou trancada em casa” ou “não vou abraçar minha família (que mora em outra residência e tem interações com outras pessoas) agora para poder abraçá-la depois” ao invés de “ninguém decide por mim se eu abraço ou não a minha família”.

 

 

 

Essa mudança de pensamento ajuda, pois a forma como cada pessoa enxerga os benefícios do distanciamento social determina a decisão sobre permanecer ou não em distanciamento. “Atualmente, desenvolver crenças positivas com relação ao distanciamento social é um sinal de cuidado pessoal e empatia para com as demais pessoas, especialmente com as mais vulneráveis”, destaca a professora.

 

 

 

 

 

É preciso continuar se cuidando

Embora o risco de contágio vá se tornando mais reduzido em alguns lugares, a convivência com o vírus é uma perspectiva a longo prazo. “O relaxamento das medidas pode iniciar um novo ciclo como temos visto na Europa”, destaca Vanessa.

 

 

 

Em uma live da Organização Mundial de Saúde (OMS) realizada no mês de outubro, o diretor de Emergências da entidade, Mike Ryan, enfatizou a necessidade de continuarmos com os cuidados para evitar a transmissão do vírus, uma vez que isso nos dá tempo para aprender mais sobre a doença e pode preservar a vida de quem tem mais chance de ter complicações caso contraia a Covid-19. “Se deixarmos todo mundo sair, vamos pagar um preço alto, teremos danos colaterais e eu não aceito que as pessoas mais velhas sejam sacrificadas desta forma porque isso não é correto e não é quem nós somos enquanto sociedade”, afirmou.

 

 

 

 

Para a professora Andrea, não há justificativa para o relaxamento do distanciamento social. “A vida é mais importante do que uma satisfação passageira”, afirma. Segundo ela, é possível restabelecer contato com pessoas importantes para nós sem relaxarmos as regras de distanciamento social e é possível manter o distanciamento físico e a conexão social e afetiva ao mesmo tempo. “A forma será diferente, exigirá adaptações, mas é possível”, conclui.

 

 

 

 

A professora da UFSC destaca ainda que manter o distanciamento social é uma questão de valorizar a nossa vida e a vida das demais pessoas, especialmente das mais vulneráveis. “Não há como combater a disseminação do vírus na população sem algum tipo de renúncia pessoal e coletiva”, afirma. “Isso inevitavelmente impactará em nossos sentimentos e emoções, mas o momento nos exige um pensamento empático e solidário”, enfatiza.

 

 

 

 

 

 

A epidemiologista do IFSC, por sua vez, ressalta que a vacina não deve ser considerada como a única solução, mas sim parte da estratégia nacional de enfrentamento à pandemia. “Independentemente do grau de proteção que a vacina irá conferir à população, certamente ainda serão necessárias medidas de proteção individual e coletiva”, conclui Vanessa.





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