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Há 62 anos, temporal devastava a localidade de Rio dos Pardos, em Canoinhas

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Tragédia matou 14 pessoas no dia 13 de agosto de 1959

Nesta sexta-feira, 13, o JMais relembra a tragédia do Rio dos Pardos, ocorrida em agosto de 1959. O temporal que devastou a localidade do interior de Canoinhas deixou 14 mortos, sendo a segunda maior tragédia registrada em Canoinhas, menor apenas que a tragédia de Valinhos ocorrida em 1948.

ASSISTA A REPORTAGEM DO JMAIS GRAVADA EM 2019:

Temporal: Rio dos Pardos relembra tragédia que matou 14

(reportagem publicada no Jornal Correio do Norte em 14 de agosto de 2009, por ocasião dos 50 anos do temporal)

Antonia Nogatz Bai/Edinei Wassoaski/Arquivo

Os 89 anos de vida de Antonia Nogatz Bai não a fazem esquecer o que viu em 13 de agosto de 1959. “Parecia uns dez tratores que vinham moendo tudo”, conta. Ela se refere ao tufão que matou 14 pessoas naquela fatídica noite de vento abafado que causou destruição na vila canoinhense de Rio dos Pardos.

“Foi um dia normal”, segundo Antonia. À noite, quando todos se preparavam para dormir, de repente, veio uma chuva fraca. O vento aumentou a intensidade e destruiu tudo que encontrou pela frente. “Ouvi um ronco muito bravo por baixo da casa”, recorda. A casa onde Antonia mora até hoje com dois filhos, teve estragos, nada perto do que viu nas casas vizinhas. Por onde o tufão passou, só destruição. “Era para cair uma árvore por cima da minha casa, iríamos morrer todos nós, mas a árvore acabou indo parar debaixo da casa. Escapamos por pouco”, conta, citando quatro filhos e o marido, já falecido. Ao olhar a casa vizinha, uma família inteira havia sido dizimada. Um bar que ficou intacto foi usado para colocar os corpos até a chegada das autoridades.

Nos dias seguintes o medo batia a porta dos moradores na forma de vento. “Felizmente era um vento fraco, mas o medo de que acontecesse de novo era grande”, recorda.

A tragédia de Rio dos Pardos está mais em pauta do que nunca neste momento na localidade. Nos bares, nos armazéns e nas rodas de chimarrão se comenta a boca pequena que há a intenção de se demolir a antiga Igreja de Santa Bárbara, construída logo depois do tufão. A igreja é uma espécie de memorial aos mortos da tragédia. A demolição seria consequência da construção da nova igreja, que fica ao lado. “Ouvi uns piás falando que tem de destruir tudo com um trator de esteira”, conta Celso Bay, filho de Antonia.

No principal armazém da vila, a conversa é tida como boato. “Mas que falam, falam”, afirma o balconista.

Para Antonia, a possibilidade soa absurda. “Sou contra, não tem como ser a favor”, diz, lembrando que ela mesma participou da construção da igrejinha. Ela ressalta que depois da construção da igreja em memória dos mortos da tragédia, nunca mais a vila viu algo parecido. Os mais antigos acreditam que Santa Bárbara protege o lugar. A Santa é conhecida como “protetora contra os relâmpagos e tempestades.”

O dia em que o Papa se compadeceu de Canoinhas

Os primeiros feridos foram para a farmácia que Antonio Batista tinha na localidade.

A notícia chegou à cidade com os primeiros caminhões que traziam corpos e feridos para o Hospital Santa Cruz (HSC). A estrutura do HSC foi insuficiente para atender todos os feridos, que passavam de 40.

No dia 14, várias entidades sociais se mobilizaram para ajudar a reconstruir Rio dos Pardos e consolar as famílias que choravam seus mortos. A Câmara de Vereadores liberou 100 mil cruzeiros. As Pioneiras Sociais de SC doaram 50 mil cruzeiros. Uma Comissão de Auxílio aos Necessitados foi formada.

O governador de SC, Heriberto Hülse, mandou representantes aos funerais das vítimas e enviou 300 mil cruzeiros para a reconstrução das casas.

O tufão não se restringiu a Canoinhas. Passou por cidades como Porto União, Papanduva, Lages, Itapiranga e Lapa, mas provocando estragos menores. Até o Papa João 23 se pronunciou sobre a tragédia. “Augusto pontífice concede todo povo particularmente crianças doentes conforto Bênção Apostólica”, dizia o telegrama enviado pelo Papa ao Brasil. O Vaticano enviou doação de 50 mil cruzeiros para as vítimas. Canoinhas ficou com 25 mil e Lages com o restante.

Pedro Reinert: o sobrevivente

(reportagem publicada no Jornal Correio do Norte em 14 de agosto de 2009, por ocasião dos 50 anos do temporal)

Qualquer um que ouça a história de Pedro Jacob Reinert, hoje com 81 anos (à época desta entrevista com 76), vai achar que ele tem pouca sorte. Aos 4 anos ele caiu dentro de um chiqueiro e quebrou as pernas. Aos 9, com poucas sequelas do primeiro acidente, caiu da escada do Colégio das Irmãs Franciscanas de Canoinhas e voltou a quebrar as duas pernas. A sequela, desta vez, foi cruel. O dois fêmures se descolaram do esqueleto e se atravessaram, deixando as pernas de Pedro literalmente cruzadas. “Ele vai melhorar com o tempo”, diziam os médicos.

Até poderia, não fosse acometido por um terceiro desastre aos 26 anos. Foi jogado 112 metros distante de onde estava pelo mais temível tufão que já passou por estas terras. Pedro, no entanto, não se lamenta de forma alguma nem demonstra autodepreciação. Pelo contrário, se mostra otimista e repete citações religiosas. “Deus sabe o que faz, eu era muito impulsivo, nervoso, não sei onde iria parar se tivesse as pernas saudáveis”. A casa de Pedro, na distante localidade de Timbózinho da Pedra Branca, interior de Irineópolis, é repleta de imagens sacras. Uma bela estátua do Sagrado Coração de Jesus se destaca na estante. Bem por essa fé que até hoje Pedro se lembra das últimas palavras antes de ver tudo a sua volta virar pó e escombros quando o fatídico tufão desceu sobre Rio dos Pardos, localidade canoinhense distante 10 km de Timbózinho, onde morava seu irmão, João Urbano, com a família – mulher e cinco filhos. Pedro estava na casa de Urbano no momento do tufão, considerado a segunda maior tragédia climática da história de Canoinhas. A primeira tinha passado por Valinhos pouco mais de 11 anos antes, quando um tornado matou 23 pessoas da localidade canoinhense.

A tragédia do Rio dos Pardos começa com uma tarde quente de agosto, que destoava dos invernos rigorosos bem mais regulares que os de hoje.

Naquela quinta-feira, 13, Pedro vinha de ônibus de Canoinhas quando decidiu pernoitar na casa do irmão e seguir a pé até sua casa no Timbózinho no dia seguinte. A noite se anunciava com trovões ameaçadores. Por volta das 22 horas, os relâmpagos se intensificaram dando a chuva como certa. Ao invés da chuva, no entanto, veio um tufão. Pedro e o irmão viam a revista da Miss Brasil daquele ano à luz do lampião. Noêmia, esposa de Urbano dormia assim como a prole e uma sobrinha que passava a noite com os primos. Um dos meninos, de 6 anos levantou, foi até a cozinha e pediu que o pai o acompanhasse até a porta porque precisava fazer xixi. Nunca mais voltou para o quarto. Bastou um estouro e tudo virou gritos e escuridão. Pedro só teve tempo de se jogar debaixo de um fogão à lenha. “Senti tipo de um rebento, estralo de vidraça, só vi o telhado arrebentando em cima de mim, fiz o sinal da cruz e comecei a rezar o ato de contrição ‘Senhor meu Jesus Cristo, Deus homem verdadeiro, criador do Céu e da Terra… e apaguei”. Ao acordar, pouco depois, Pedro estava 112 metros adiante do local de onde foi projetado pelo vento. A medida exata é fruto da cisma do amigo Fábio Fuck (ex-prefeito de Canoinhas falecido em 2006 de quem Pedro foi secretário), que bolou um complicado método de medição da distância.


HORROR E DESTRUIÇÃO

Ao acordar, Pedro achou que estava sonhando. Ouvia muitos gritos. “Então vi um vulto vindo em minha direção. Pedi para ter cuidado para não pisar em mim”. A realidade foi tão chocante quanto o falso sonho. Ao lado de Pedro, o irmão Urbano dava os últimos gemidos. Ao vê-lo morrer, veio o lamento: “Meu Deus, porque não morreu eu, ele cheio de filhos para criar”. O vulto ganhou voz e atalhou a fala de Pedro. “Não diga isso, ele, a mulher e os filhos tão tudo morto”, disse o vizinho conhecido como Jordão, que havia se livrado da fúria do tufão porque estava em um boteco.

Com nenhuma outra família de Rio dos Pardos, o temporal foi tão cruel como com a família de Urbano. Do total de 14 mortos, seis eram de sua família. Apenas duas meninas – hoje uma mora em Curitiba e outra em Camboriu – sobreviveram. Segundo Pedro, elas foram jogadas mais longe ainda que ele. Da casa não sobrou nada.






Uma casa de verdade

(reportagem publicada no Jornal Correio do Norte em 14 de agosto de 2009, por ocasião dos 50 anos do tufão)

Ao chegar na casa de João Cândido Vieira, 89 anos (ele faleceu pouco depois desta entrevista), ele vai logo avisando. “Eu tinha uma casa de verdade, mas o tufão levou, aí construí esse rancho”. Na verdade, não foi só o tufão que tirou seu patrimônio. Um incêndio, depois do tufão consumiu a segunda casa que ele construiu no mesmo terreno onde hoje está o que ele chama de “rancho”.

Cândido ainda lamenta não ter sido ajudado pelo Governo, que reconstruiu boa parte das casas levadas pelo tufão.

Com um litro de cachaça debaixo do braço comprada na bodega da localidade, Cândido vinha para casa quando ouviu os primeiros roncos do tufão. Desconfiado, decidiu esperar mais um pouco no boteco. Acabou debaixo da mesa de bilhar, incrédulo olhando o vento arrancando sem cerimônia o telhado do bar. No meio do redemoinho, uma imagem surreal, digna de filmes de Tim Burton – um marreco grasnava na ciranda criada pelo vento.

Dez minutos depois (média de tempo que o fenômeno durou), Cândido corria temeroso para casa na expectativa dos efeitos do tufão em sua casa. No caminho gritos e pedidos de socorro. “Eu só dizia: ‘Tenho que ver os meninos e a muié”. Os sete filhos e a esposa de Cândido ganharam diferentes destinos sorteados pelo vento. Para reuni-los teve trabalho, mas por sorte, todos sobreviveram. “O mais novo foi parar com colchão e tudo mais ou menos uns 20 metros pra frente. Encontrei ele agarrado no colchão e com a testa partida”.

Pouco depois, uma tardia chuva silenciosa caiu sobre o distrito.

OS MORTOS

João Urbano Reinert

Noêmia Zimmer Reinert

Benito Luiz Reinert

Aurélio Reinert

João Assis Reinert

Carmelo Almir Reinert

Maria Terezinha Habitzrentr

Hilda Kischler

Laurina Kischler

Norma Kischler

José Rodrigues Martins

Clemente Martins

Rosely Paul

Maria Luiza Paul

Imagens da tragédia de 1959

Fotos: Acervo/Emílio Hauffe. As fotos pertenceram a Evaldo Vogt.