Há 100 anos, prefeitura de Canoinhas era incendiada por causa de eleição

Prefeitura que foi incendiada. A foto é de 13 de novembro de 1913, dia da instalação da comarca/Acervo de Fernando Tokarski

Grupo que contestava resultado das urnas na eleição municipal duelou com grupo governista

 

 

 


O amanhecer de 8 de fevereiro de 1919 foi agitado na então cidade de Santa Cruz de Canoinhas. Os moradores do pequeno município saíram às ruas para ver o edifício de madeira onde funcionavam os serviços administrativos do poder Executivo arder em chamas. Não sobrou nada. Os primeiros documentos, que registraram os oito primeiros anos da história do Município, emancipado de Curitibanos em 1911, viraram cinzas. A primeira prefeitura ficava na esquinas entre as ruas Coronel Albuquerque e Wolff Filho, em um terreno que segue baldio ao lado do posto Guapo, atualmente.

 

 

Mais surpreendente do que o incêndio foi a guerra política que já vinha nervosa, acirrar ainda mais depois do incêndio que, acreditava-se, seria intencional.

 

 

O incêndio, suspeitou-se à época, foi efeito da primeira eleição do Município para compor o poder Executivo. Otávio Rauen era oposição ao governo. Severo de Almeida era o candidato do então prefeito Major Thomas Vieira, o primeiro da história da cidade.

 

 



O jornal A Tribuna, de 15 de fevereiro de 1919, registra despacho do juiz federal Henrique Lessa de 31 de janeiro de 1919 concedendo habeas corpus para que os eleitos no pleito assumissem os cargos, tanto o prefeito quanto os conselheiros municipais, hoje chamados de vereadores. O telegrama comunicando a decisão judicial é encaminhado a Severo, nominado como superintendente municipal. “Levo a vosso conhecimento que nesta data concedi a ordem de habeas corpus impetrado pelo dr Nereu Ramos em vosso favor e também de Manoel Thomas Vieira, Firmino Soares dos Santos, José Pavão e Epaminondas Ricardo da Silva, o primeiro superintendente e os últimos conselheiros municipais de Canoinhas para que possam sem coação de qualquer espécie entrar no edifício da Câmara Municipal e ali exercerem os seus cargos no quadriênio de 1919 a 1922 para os quais foram eleitos e reconhecidos. Convém evitarem discórdias e procederem toda a calma a fim de não darem trabalho ao presidente da República e desgostar ao meu distinto amigo governador Hercílio Luz que está atualmente preocupado com altos interesses do Estado”, anotou o juiz no telegrama.

 

 

Severo, ou coronel Severinho, era da região de Papanduva, então distrito de Canoinhas. Foi justamente de lá que teriam vindo votos a mais, o que aumentava a suspeita da oposição.

 

 

A decisão judicial, ao invés de acalmar, acirrou ainda mais a guerra política e oito dias depois a prefeitura amanhecia queimada.

 

 

Severo chegou a recorrer ao governador Hercilio Luz para resolver a pendenga, mas o governador teria dito que era melhor ele nem voltar a Canoinhas sob o risco de não voltar vivo, conta o historiador Fernando Tokarski. Ele acrescenta que até hoje não se sabe quem ganhou de quem nas urnas, sabe-se somente que a diferença foi mínima e que no final da história Otavio Rauen acabou assumindo a prefeitura, que passou a funcionar no Edifício Stoeberl, na rua Eugênio de Souza, assim como a Câmara de Vereadores e o fórum da cidade. Mais tarde, onde hoje está a Loja Avante, funcionou o primeiro colégio das irmãs franciscanas, fundadoras do Colégio Sagrado Coração de Jesus. “Imagina-se que o coronel Severinho se desgostou da situação e desistiu de seguir na disputa com o Otavio Rauen”, explica Tokarski.

 

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