Francisco e o Lobo em Gubbio e os aromas e o jazz de Perugia


Cidade de Gubbio

Andar por aquela cidade é mergulhar no tempo antigo mais antigo que em meus estudos de história geral

 

 

 

Foi um dos mais belos trajetos o que fizemos entre San Marino e Perugia. Os Apeninos sempre ao nosso lado. Com suas escarpas e seus cumes. Sempre em verde o caminho. Sempre em meio à mata, absorvendo a natureza. Às vezes, no alto da cordilheira apenas rochedos nus.

 

 

 

Atravessamos pontes, muitas pontes, ou sobre córregos ou sobre penhascos. Pequenas vilas com os vermelhos telhados de seu casario pontilhavam ao longe, em meio ao verde dos bosques.

 

 

 

Sempre a famosa, indiscutível e necessária parada técnica de todas as empresas de turismo. Sempre a escolha recai sobre um local importante, um local que tem histórias a contar. E foi assim que eu conheci Gubbio, uma encantadora cidade medieval distante de San Marino um pouco mais de cem quilômetros pela autoestrada que tomamos.

 

 

 

Andar por aquela cidade é mergulhar no tempo antigo mais antigo que em meus estudos de história geral eu tivesse tido notícia. Construções austeras, lúgubres até, executadas com pedras extraídas da montanha vizinha.Com janelas, sim, mas finas e longas.

 

 

 

Ruas estreitas, mais caminhos que ruas a se estender colinas acima.

 

 

 

Dizem que há épocas do ano em que Gubbio é um colorido e um burburinho só. Com um sem fim de atividades culturais. De jogos. De disputas. De estudantes a andar de um lado para outro. Mas estávamos no chamado Ferragosto da Itália. E todo mundo a correr para as praias, para conhecer outras cidades. Para descansar no mês que se seguia ao grande trabalho das colheitas. Ao mês do repouso. Então estas cidades estavam mesmo apinhadas de turistas.

 

 

Igreja de São Francisco

Claro que para o interior das muralhas o ônibus não poderia atravessar. Foi pouco o tempo em que em Gubbio permanecemos. Mas foi o tempo suficiente para conhecermos a Igreja de São Francisco. Porque o povo desta cidade considera que o miraculoso e magnânimo Francisco, que era de Assis, também de Gubbio deveria ser. Porque por lá muito ele andou.

 

 

Nos fundos da praça que fica ao lado da igreja a famosa estátua dele com o lobo em seu colo. Algo que me fez estremecer até o fundo de mim mesma.

 

 

 

Uma linda história. Que muitos dizem ser apenas uma lenda. Mas para quem conhece o mais recôndito da vida de São Francisco, uma lenda não é.

 

 

 

A Igreja é uma construção muito antiga, como antigas são quase todas as construções da parte histórica de Gubbio. Um interior escuro, como escuros era o interior de todas as igrejas daqueles tempos. Mas dentro dela se sente um infindável bem-estar.

 

 

 

 

Em um dos altares laterais era celebrado um casamento. Cerimônia simples, com pessoas simples. Sem atavios e sem vestidos nupciais. Em silêncio e devoção pedindo a bênção matrimonial. Pedindo a Francisco que os ajudasse e protegesse pela vida que dois agora pautariam unidos.

 

 

 

Como se fosse um passe de mágica, em segundos naquela soturna escuridão eu não mais me encontrava. Seriam os focos de luz que das velas ao fundo a tudo transformavam num estranho festival? Seria o meu eu que por outras galáxias navegava?

 

 

 

Retornei de minha viagem sideral pelo toque das mãos de meus amigos em meu ombro, para dizer-me que chegada era a hora de outros locais irmos visitar. Porque a nossa permanência em Gubbio era curta, muito curta.

 

 

 

E foi quase a correr que conseguimos vislumbrar, mesmo que por poucos minutos, os vestígios do que teria sido, em importância, o segundo maior Teatro do Império Romano. Impressionante o valor que se dava à arte teatral. Uma magnífica arte, tão esquecida nos tempos atuais.

 

 

 

Mas Gubbio não vive apenas de sua arquitetura medieval. Prédios e residências modernas vislumbram-se além.

 

Monte Ingino, no Natal

 

Ao lado da cidade, já em plena rodovia um monte chama a atenção. É o Monte Ingino, cuja altura chega a 750 metros, tendo por largura 450 metros. Ele em si, nada é mais que um dos montes da cordilheira dos Apeninos. Mas ele fica ao lado de Gubbio. E em todos os dezembros transforma-se na maior árvore de Natal do mundo. Luzes são colocadas, em forma de galhos de árvore, desde o sopé até o cume. Dizem ser um espetáculo magnífico. Que apenas em imagens eu pude admirar. Imaginem aquele espetáculo! Um monte iluminado em pleno Natal.

 

 

 

 

E assim a tarde veraneira de agosto foi se estendendo enquanto rodávamos entre as escarpas dos Apeninos. A rodovia serpenteava entre vales e rochedos. Pinheiros e ciprestes estendem-se de lado a lado e meio a alguns trechos povoados, em meio a plantações. Onde o amarelo dos girassóis faz a paisagem mudar de cor.

 

 

Perugia

 

Entardecia já quando vislumbramos Perugia ao longe. No ar um inconfundível aroma. Seria o famoso chocolate que pelo espaço fluía?

 

 

 

Acidentado como tinha sido todo o caminho percorrido, assim também me parecia a cidade. Colinas e mais colinas entremeadas de vales. Uma altitude que varia desde um pouco mais de cem metros a elevações que ultrapassam os novecentos metros acima do nível do mar.

 

 

 

Passamos por avenidas arborizadas, por ruas de intenso movimento. Chegamos em pleno crepúsculo em nosso hotel.

 

 

 

Já na entrada, a grande e inusitada mensagem de boas-vindas aos que chegam. “Vinho, Jazz, Chocolate! Nossas grandes paixões”.

 

 

 

Em toda a frente do prédio imagens, como se silhuetas apenas fossem, de músicos com seus instrumentos de sopro, de cordas e de percussão, parecendo que em plena sessão de jazz se encontram. Imagens estáticas, mas como se em movimento estivessem.

 

 

Ao fundo, em todas as áreas comuns, o som do jazz de todos os tempos, ora em banjo, ora em piano, ora em clarinete ou e pistões…

 

 

 

Toda a decoração interna com velhos discos em vinil, em todas as polegadas que no passado conhecemos.

 

 

 

Avisou-nos o nosso guia que um buffet simplificado e a bom preço estaria ao nosso dispor em um dos restaurantes. Estava eu ao lado de meus amigos paulistas. Uma jovem colega, dermatologista em São Paulo, acompanhada de seus pais e de um avô que para a Itália fora para realizar a viagem dos seus sonhos. Entreolhamo-nos. Não! E fomos em busca de algo melhor.

 

 

 

E foi assim que conhecemos o magnífico restaurante de nosso hotel. Para lá chegar, quase uma viagem em meio à música. Passávamos por assoalhos com imagens de teclados de pianos e entre cordas de contrabaixos…

 

 

 

Ao lado de uma adega com uma infindável coleção dos mais afamados vinhos. Em meio a estantes de chocolates em suas mais coloridas e famosas embalagens como aquela do famoso “Bacci Pergugina”, um bombom que mistura chocolate com avelãs.

 

 

 

Toda esta caminhada pelo subsolo. Que atravessa a rua. E eis-nos, enfim em outra construção, dentro de um restaurante ímpar.

 

 

 

Um disco de vinil de doze polegadas, servindo como base para um vaso de flores era a decoração central da mesa. Coroando o vaso, outro menor, que seria do tempo de 45 rpm com um grande buraco redondo no centro. Tudo em torno da música de jazz…

 

 

 

Difícil escolher a melhor massa. Desta vez um aerado e macio nhoque com molho de puro e rubro tomate. Meus amigos preferiram ravióli com molho com lascas de trufas. E foi com um fino Monticello d’Abruzzio que brindamos à nossa amizade.

 

 

 

 

Foram amigos leais que a meu lado estiveram em todas as horas do dia desde o instante em que nos conhecemos. Eu havia levado alguns exemplares de meus livros na viagem. E presenteá-lo com eles, foi a minha maneira de lhes dizer o meu Obrigada!

 

 

 





Deixe seu comentário: