Filosofia e Sociologia na mira: factoide anticomunista

Do ministro da Educação nada se espere além do veneno reacionário

 

 

Dr. Walter Marcos Knaesel Birkner*


 

 

 

Até este maio de 2019, o governo Bolsonaro está marcado pelo empenho à aprovação da reforma previdenciária e por factoides. O último foi o anúncio de corte às áreas de Filosofia e Sociologia. Factoides são estratégias ilusionistas de governos populistas para encobrir a inépcia. Mas, por trás da estratégia há uma determinação de fundo salvacionista e anacrônica de livrar o País do comunismo. Em pleno século XXI gastam-se valiosos tempo e recursos com ações retaliativas, revelando despreparo e infantilidade. Tudo poderia ser resolvido com espírito liberal-conservador, mas o alto comando civil do governo não sabe o que isso significa. Só e paradoxalmente os militares.

 

 

 

É verdade que governos populistas fabricam factoides, ainda que a imprensa irritadiça também o faça, mas esse governo dá mole. O anúncio de que a Filosofia e a Sociologia receberiam menos recursos e “quem quiser estudar filosofia e sociologia que pague do bolso” é um factoide governamental. As ciências humanas em geral já recebem menos recursos. Não é de agora, nem é um problema, já que governos em geral são mais sensíveis às pesquisas diretamente voltadas à produção. No Brasil, desde há muito e acertadamente a maior parte vai para as Ciências exatas e da terra. E acreditem, já há muito conhecimento sociológico ali.

 

 

 

Além disso, as universidades têm autonomia orçamentária, portanto, recursos pra cá e pra lá são decisão interna, me orienta um distinto amigo, ex-reitor. Reduções já acontecem há anos e provavelmente aumentarão porque a Sociedade foi convencida de que o ensino federal recebe muito e entrega pouco. Está aí uma importante discussão que a imprensa ignora, por que será? Ao que tudo indica, reduções retaliativas continuarão acontecendo, como no caso recente da UFBA, da UFF (palco de manifestações “antifascistas” nas eleições” – imagina contra quem…) e da UnB (que recebeu Haddad e Boulos recentemente e, bom… nem precisa dizer no que deu).

 

 

Fechar cursos é decisão autônoma das universidades. No máximo, o governo pode implicar com a criação de algum curso, o que é ruim do ponto de vista das liberdades, mas pode se justificar do ponto de vista das necessidades. No mais, governos têm seus atos de maldades. Podem reduzir verbas à pesquisa, mas isso não mata um bom sociólogo, nem um filósofo. Em geral, tanto professores quanto alunos se viram com pouco. E se algum tolo pensa em fechar curso de humanas, precisa dizer a verdade: são de baixa manutenção, seus alunos não são ricos, e fechar significa pagar professores no ócio, um insulto à uma Sociedade com 14 milhões de desempregados.

 

 

 

O que está por trás dessa bobagem é uma paranoica luta contra o “marxismo cultural”. Segundo Olavo de Carvalho, o autodidata que inspira a tigrada, essa foi a estratégia dos “comunistas” para a dominação pacífica. O veneno original estaria nos cursos de Filosofia e Sociologia, disseminando-se nas universidades, na imprensa e nas escolas (daí a teima com a “escola sem partido”). Não é uma falácia de origem, mas se isso é relevante, o antídoto está na pluralidade teórica do próprio organismo que expele o veneno. Um ministro da educação que disso não sabe só torna mais caricata a desorientação governamental, anima opositores e desanima os homens de boa vontade.

 

 

 

Não duvido da boa vontade, nem das intenções do governo, mas do seu juízo. Se, somente no Ministério da Educação demonstrasse algum, não teria se curvado às pressões de criacionistas terraplanistas e teria indicado ao ministério o nome de um homem sério e competente que lhe foi sugerido: Mozart Neves, engenheiro químico de formação, de currículo acadêmico respeitável, atualmente ligado ao Instituto Ayrton Senna. Mas, não: as toupeiras levam tudo ao subsolo. Com todo respeito aos credos, é improvável conciliar CT&I com terraplanismo, anti-darwinismo e combate ao comunismo em pleno século XXI.  O problema do governo não são as intenções, mas o entendimento sobre as coisas.

 

 

 

É possível entender as motivações de retaliação do neófito ministro que combate seus moinhos de vento. Já deve ter se encrencado nos poucos anos de docência universitária contra outro tipo de anti-darwinistas. Por razões de credo oposto, esses também insistem em frear o processo histórico. A coisa ficou feia em 2018 no clima das eleições presidenciais, escancarando uma animosidade que confronta áreas científicas ligadas às aspirações pelo desenvolvimento contra outras em que muitos combatem quase tudo relacionado a essa aspiração social. E isso tem a ver com vários sociólogos, mas não compõe o grande problema da ciência, nem da educação.

 

 



 

Os problemas da educação brasileira constituem lista extensa. Começam pela maneira desonrosa que professores são tratados e, acreditem, a questão salarial não é a principal. A desvalorização da profissão docente passa primeiramente pelo respeito perdido, pela sobrecarga, pelas doenças daí decorrentes que equiparam o grau de periculosidade da profissão a de profissões como a de policiais e bombeiros. É claro, passa pelas seríssimas dificuldades de aprendizagem, desde o português e a matemática, o que tem a ver com professores sem preparo. Nessa esteira, é de 70% a defasagem de professores de física e química no País. Não pode dar certo.

 

 

Isso poderia ajudar a entender a cabeça do mais recente ministro da Educação, antes do próximo. Mas é improvável que haja clareza no governo para combater o problema, quando ameaça com a redução de investimentos em Filosofia e Sociologia. Não dá certo aqui, nem no Japão, cujo modelo educacional serviu erroneamente de parâmetro. Desinformado, o presidente da República compra a ideia, confiando em quem nomeou. Não estaria errado em confiar. Erra ao confiar a pasta da Educação a um afoito e anacrônico anticomunista que não inspira respeito. Além da grosseria, o patético da sua galhofa é a o desconhecimento de causa, que Deus nos ajude.

 

 

É certo que o Japão já desprezou as humanidades, excluídas dos programas de pesquisas no Ato Básico de Ciência e Tecnologia, de 1995. Também é verdade que em 2015 o Ministério da Educação japonês solicitou reformulações às universidades nesses cursos, a fim de atender a interesses estratégicos do país. Bingo! É assim que se faz. Entretanto, o governo japonês reconheceu recentemente a importância das ciências humanas e sociais. Seu Plano de Desenvolvimento tecnológico fala agora em conectar conhecimentos interdisciplinares para os desafios do século XXI e aponta os próximos passos a partir de 2020:

 

 

 

“É importante estimular colaborações entre ciências humanas, sociais e naturais, porque a realização dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável poderia ser feita com interações de vários fatores, incluindo sociedade, economia, sistema, modo de vida e valores” – valores no sentido sociológico, que fique bem entendido. (O Globo: https://outline.com/NPfEq6 ).

 

 

Pronto, o que modestamente queria sugerir está agora ancorado, justamente nas palavras do Ministério da Educação do Japão, país em que o status de professor só está abaixo do imperador. Ao invés de perseguir e ameaçar docentes e pesquisadores dessas áreas, seria inteligente formular, com eles, estratégias de direcionamento de pesquisas. É plenamente possível incentivar determinados temas que, sociologicamente pesquisados, podem estar de acordo com os interesses estratégicos do desenvolvimento nacional. Se dialogasse, o governo brasileiro ficaria surpreso com o que existe além do “marxismo cultural” na Sociologia.

 

 

 

Pulsa na Sociologia brasileira uma abordagem conservadora. É decorrência natural do esgotamento de certas narrativas que se desgastam na dialética do conhecimento, como ocorre em todas as ciências. Não cabe aqui aprofundar, mas é certo que novas relações interdisciplinares entre Sociologia, Economia, Filosofia, Biologia, Física e CT&I estão em curso. O governo poderia estimulá-las, bastando fazer o que decidiu fazer o governo japonês que – me permitam a sátira – não teve a delicadeza de avisar o ministro brasileiro sobre a utilidade das humanidades ao desenvolvimento. Um militar formado na Escola Superior de Guerra sabe disso, o ministro da Educação não.

 

 

 

Pelo Facebook, o professor Paulo Odair Moreira me pergunta o que, afinal, seria essa Sociologia conservadora. Dias depois, a excepcional pedagoga Liliane Neppel faz a mesma pergunta de forma comentada e creio me aproximar de sua instigante opinião. Para uma Sociologia conservadora, destacaria dois pontos iniciais. Por um lado, debruçar-se sobre os fatores de produção e riqueza. Por outro lado, ultrapassar a narrativa do conflito de classes, demonstrando que sociedades progridem com diálogo, cooperação e confiança. O mesmo se poderá dizer dos governos e de suas relações com a Sociedade.

 

 

 

 

Reconhecer as vantagens da tolerância e do respeito ao curso histórico, sem a necessidade de recusar o presente em nome de utopias revolucionárias ou reacionárias. Essa é perspectiva liberal-conservadora que, é fato, a Sociologia brasileira e talvez a Filosofia ainda não reverberam. Mas está ali, nos seus fundamentos, como o antídoto ao veneno, ainda que a analogia seja imperfeita. Serve mais para analisar a composição do governo, paradoxalmente formado por civis reacionários e militares moderados. Do ministro da Educação nada se espere além do veneno reacionário. O antídoto só virá dos militares de formação liberal-conservadora, quando o caldo engrossar.

 

 

 

*Dr. Walter Marcos Knaesel Birkner é sociólogo e professor

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