Fantasmas dançantes das noites de vento…

E este vento que se insinua pelas madrugadas insones não cessa de cantar

 

 

 


Suaves e diáfanos como o vento que os envolvem, eles perambulam pelas noites dos meus sonhos, revolvendo imagens, revolvendo sons, revolvendo memórias. Um vento que chega contando histórias, um vento que chega no embalo de melodias que só as cordas dos violinos que ele carrega podem solar.

 

 

E este vento que se insinua pelas madrugadas insones não cessa de cantar… E em seu canto triste evoca tempos em que viajávamos pelas auroras sem fim, no embalo de poemas que nossas mãos riscavam por folhas coloridas.

 

 

E no embalo deste vento, os meus fantasmas iniciam a sua dança, que nunca deixa de ser dança, que nunca deixa de ventar…

 

 

Ouço-os na noite… ouço-os na madrugada, que orvalhada se mostra, através do luar. Através de uma lua que se esconde, amiudadamente, entre as nuvens que o vento não cessa de fazer dançar. Seria apenas o vento brincando nas ramagens? Seriam estes estranhos sons apenas o vento que comigo vem brincar?

 

 

Suave a sua dança. Diáfana como o vento, que, mansamente, se entronizou pelas fímbrias de minha alma.

 

 

Foi então que, através das vidraças de meu sonho, eu senti árvores vergando. Levemente, os seus galhos dobram-se, envolvem-se em abraços e, em carícias, permutam as gotas do orvalho trazidas pelo sereno da madrugada.

 

 

Mas o vento que assobiava, mansamente, nos telhados e nas frestas das janelas, emprestou dos deuses do Olimpo um remendo de furor e, impregnado de açoites mais violentos, tenta arrancar-me do nevoeiro de meus sonhos.

 

 

Não há âncora, nem cordames, nem amarras que me prendam neste fundo, neste solo… porque os meus fantasmas não me soltam, porque os meus fantasmas para além das turbulentas nuvens me conduzem.

 

 

Não, os meus fantasmas não querem me mostrar o sol. Porque em torno do vento e pelo vento, ventam eles também.

 

 

 

São os mesmos fantasmas de sempre. Os mesmos fantasmas que sonham comigo um voo sem fim, através do infinito, imaginando levar-me ao encontro das ternuras de outrora.

 

 

Os meus fantasmas atravessam mil sóis e mil luas, para deitar-me em brancas nuvens onde apenas um leve vento terral ventasse sobre minh’alma, um vento de mar…

 

 

 

E os meus fantasmas sussurram poemas em meus ouvidos.

 

 

“Imagina um mar com ventos de terras … poderias conceber um mar de ventos ligeiros com cheiro de pradarias? Um vento que mal arrepia o quebrável espelho das águas?”

 

 

Então os meus fantasmas sonham os meus sonhos. Os meus fantasmas cantam os meus cânticos. Porque na roda dos ventos da madrugada, poemas de outrora os meus fantasmas, envoltos em diáfanas vestes, quase em surdina, declamam pra mim…

 

 

Mas existem outros fantasmas, que perambulam por meu sono e em turbulentos ventos se transformam, para enevoar a noite de meus sonhos.

 

 

E o furor que encobre a lua, que faz navegar nuvens negras pelo espaço, que verga as árvores do meu jardim, retorna com maior intensidade.

 

 

E os fantasmas que não conhecem poemas trazem ventos das charnecas para o meu sonho tumultuar.



 

 

E a madrugada que era calma, a madrugada que, suavemente, ventava nos telhados, assobiando canções de amor, transforma-se com tamanha fúria, que os meus encantos destrói.

 

 

E os meus fantasmas rugem com o vento que faz sangrar até pétalas de rosas. Rugem com o vento que assombra corujas que ensinavam os caminhos da noite. Em jatos disseminam-se no negrume, açoitando palmeiras envelhecidas que já não mais tangem as suas fímbrias como se fossem cordas de afinados violinos.

 

 

E os meus fantasmas riem-se de mim através das nuvens que os envolvem. Espalham-se no espaço. Dançam as mais mirabolantes danças infernais. Atirados pela fúria que os envolve, perambulam em todas as direções. Envolvem-me nesta dança, que parece atingir a estratosfera.

 

 

E através da transparência das vidraças eu vejo a luz da rua. Lá fora, mesmo com as folhas secas e os ramos que das árvores se desprendem, o clarão é intenso. Poças nas calçadas. Poças de água formadas nos desvãos das pedras. Poças onde se refletia a luz da lua, reflete-se agora, apenas a luz da rua.

 

 

Mas os ventos que se transformam em fantasmas, repentinamente, nem mais meros ventos são. E a dança dos meus fantasmas são espirais de vento. Espirais que dançam sobre as poças das águas das calçadas. Espirais que lançam as águas para o espaço. São fontes translúcidas. São fontes iluminadas pelos raios de luz que das lâmpadas da rua emanam. São fontes espiraladas em iridescentes cores que dançam a valsa das flores, que dançam as danças dos duendes, que dançam as danças do vento, que dançam, que dançam e que não param de dançar na fúria apoteótica dos minúsculos tornados que não cessam de girar.

 

 

E no meio deste vento, encurralado em meio às poças de água, os meus reluzentes fantasmas se enrodilham e em sua dança alucinada, envolvem-me também.

 

 

Porque os meus fantasmas imaginam que no rodopio desta dança, que não cessa de ser dança, dos escaninhos de minha mente a saudade se desvanecerá.

 

 

E o vento continua o seu caminho pelo espaço, pelos ares até os infinitos horizontes, num debulhar contínuo de árvores e de plantas, disseminando folhas, espalhando lágrimas que escorrem nas memórias dos tempos em que poemas falavam de ventos…e de amor…

 

 

Poemas que os meus fantasmas continuam a sussurrar em meus ouvidos. Poemas de um tempo de ternuras imensas que evoca tempos em que viajávamos pelas auroras sem fim, no embalo de poemas que nossas mãos riscavam por folhas coloridas.

 

 

 

Poemas…

 

 

“Poemas que cedem às investidas de ventos infernais…”

Quase sempre é madrugada (e as gaivotas ideais dormem na transparência dos ventos) quando, no teu rosto expressivo, os olhos se abrem para o cais das auroras.”

 

 

“…saudade pode ser isso? Será possível tamanha doçura num vendaval? Ali, onde os ventos se cruzam, uns olhos, morenos, bonitos, sobressaem … em estranha fixidez”.

 

 

 

“Ali, onde os ventos se cruzam, o teu corpo se espreguiça, erótico, sensual.”

 

 

“Dali, donde os ventos se cruzam, o teu poder se desprende e vem sangrar, como flecha, o inferno rubro que a minha pele envolve.”

 

 

“Poemas que nos envolvem para nos proteger de todos os ventos.”

 

 

E foi então que os meus fantasmas entenderam, que no rodeio dos ventos, na memória lacrada dos tempos, os sonhos permanecem na esperança de que, algum dia, em alguma estrela o vínculo entre dois espíritos pode perdurar pela eternidade.

 

 

Todas as citações entre aspas, em itálico, são trechos de poemas de Isis Maria Baukat

Deixe seu comentário: