segunda-feira, 27

de

setembro

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2021

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Entre o amor e a ciência

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Uma vez por semana o pai de Mariana ia até Canoinhas, a sede do município

 

 

 

Pensa-se que os gênios que movem e moveram a humanidade nasceram e cresceram em cidades onde grassa a arte, a cultura e a ciência. Uma generalizada ideia tão absurda quanto a de se imaginar a nossa terra como uma mera superfície plana estendida abaixo do firmamento.

 

 

 

Mariana nasceu e viveu sua infância em uma propriedade rural, distante do vilarejo onde cursou os primeiros anos escolares e mais distante ainda da mais próxima cidade onde, tempos mais tarde frequentou o ginásio.

 

 

 

As grandes propriedades eram raras na região. A maioria vivia e sobrevivia às custas de pequenos sítios onde cultivavam o que a terra desse. Onde criavam seu gado e suas aves. Assim vivia a família de Mariana.

 

 

 

 

Era um aprazível local, a mais de mil metros de altitude, cercado de mata nativa onde imperavam as majestosas araucárias. Um pequeno regato cruzava-o de sul a norte. Havia até um pequeno lago, em uma reentrância do terreno. Peixes ali também eram fartos.

 

 

 

 

Uma vez por semana o pai de Mariana ia até Canoinhas, a sede do município. Levava uma caminhonete abarrotada do que era produzido em sua lavoura e ainda queijos, disputados queijos que fabricavam com esmero. E mais os ovos, que no correr dos dias iam sendo colhidos da vasta criação de galinhas de variadas espécies.

 

 

 

Dava uma volta pelos bancos a fim de quitar suas duplicatas e depositar o que sobrasse da féria do dia. A mulher lhe entregava, na saída de casa, uma esmiuçada lista de utensílios e mantimentos que ele comprava religiosamente.

 

 

 

Quando retornava, Mariana, ainda pequenina, nos seus 3 ou 4 anos, corria para ajudar no desembarque das novidades. Havia sempre algo em especial que a embevecia. Eram os jornais e revistas que o pai trazia da cidade.

 

 

 

 

Dos olhos do jornal, que a cobria por inteiro, por dias, não se desgrudava. Em uma pequena lousa*, que os irmãos mais velhos tinham usado em seus tempos de escola, ela copiava, com aqueles lápis feitos da mesma ardósia, as letras garrafais das manchetes.

 

 

 

No dia em que sua avó — que já tinha sido professora — foi visitar a família, Mariana correu a mostrar-lhe a lousa onde havia escrito uma receita de bolo, receita inventada por ela. A avó era famosa pelos bolos deliciosos e artísticos que fazia.

 

 

 

 

—Uma boa receita! O bolo deverá sair bem saboroso. Mas me diga uma coisa, Marianinha, onde você aprendeu a escrever?

 

 

 

 

A resposta veio rápida.

 

 

 

—Cos tempo, vó!

 

 

 

Ela sempre ouvia dos mais velhos que tudo se aprendia com o tempo. Então… foi esta sua rápida e simples explicação.

 

 

 

 

Chegou, finalmente, o dia em que completou a idade mínima para ser matriculada na escola. Mariana não aguentava esperar a hora do recreio. Irritava-se e ninguém atinava o porquê. Já sabia ler, escrever e fazer todas aquelas continhas. Não suportava ver a lentidão dos demais coleguinhas a rastejarem seus lápis pelos cadernos e ouvi-los a gaguejar quando liam as lições em suas cartilhas.

 

 

 

 

A professora procurou os pais de Mariana. Pediu-lhes que levassem a menina para estudar na cidade, onde melhor ela desenvolveria suas aptidões. Mas eles não entenderam. Só aceitaram a ideia quando, no Natal, reuniram-se todos na casa da avó. Que lhes explicou serem pais de uma criança diferente, especial, que parecia já ter vindo pronta para este mundo.

 

 

 

 

 

Aos oito anos foi morar na cidade. Pequenina ainda, ficou na casa de uma comadre de sua avó, uma velinha muito querida, que já era viúva e morava sozinha. A escola onde Mariana foi matriculada era um pouco distante da casa de dona Ema, mas ela já estava acostumada a percorrer grandes distâncias no mato onde residia.

 

 

 

 

O clima não foi muito diferente daquele a que estava acostumada. Como eram muitos os alunos, ficavam divididos em diversas classes, de acordo com as notas do ano anterior. Mas como Mariana vinha de uma escolinha do interior, colocaram-na em uma turma com crianças com déficit de aprendizagem. Foi um horror consumado. Ela brincava durante a aula inteira com seus gnomos imaginários que ela ia desenhando no caderno. A professora percebeu que ela estava ali apenas fazendo figuração. E apesar disto as melhores notas eram dela.

 

 

 

 

Logo o erro foi percebido e sanado. Passaram-na para uma classe de alunos especiais. Mas especiais em sentido oposto. Na sala onde estavam os melhores. E ainda ali era tudo muito sonso para ela.

 

 

 

 

Mestras surpresas com a genialidade de Mariana moveram céus e terras e com apenas 9 anos ela já começava a cursar o ginásio. Passou a estudar no alto da colina, quase ao lado da casa onde morava.

 

 

 

 

Um garoto, filho dos proprietários de uma vasta gleba vizinha do sítio dos pais de Mariana encontrava-se com ela no ônibus, em todos os fins de semana em que iam para casa no interior no alto das serras do Tamanduá. Ele fizera o curso de Prático Agrícola, como aluno interno, na Escola Agrícola distante uns oito quilômetros da cidade. Ele não tirava os olhos de cima daquela sisuda menina de meigos olhos azuis. Era, talvez, uns três anos mais velho que ela. Muito alto já para a sua idade. Chamava a atenção de todas as meninas, quando passava, com seus colegas, pelas ruas da cidade. Mas para Mariana era apenas um conhecido das bandas do Tamanduá.

 

 

 

 

Conversavam muito enquanto durava a viagem até o ponto em que tinham de desembarcar. Por insistência dela— e talvez, para continuar a vê-la, nem que fosse dentro do ônibus, nos fins de semana—, concluiu o curso de Técnico Agrícola.

 

 

 

Guilherme tinha uma vida afortunada. A fazenda era imensa. Rebanho de gado a perder de vista. Em sua cabeça não precisava estudar. Já sabia tudo. Aprendera com seu pai, seus tios e com seu velho avô tudo o que precisava saber para ir cuidando da propriedade.

 

 

 

 

Enquanto ele continuava no já Colégio Agrícola, Mariana concluíra o então científico no alto da colina, bem pertinho da casa onde morava e quase ao lado dos trilhos do trem.

 

 

 

 

E era naquele trenzinho que Guilherme se dirigia para o seu colégio agrícola, em Marcílio Dias. E ela, a esse tempo, nem sabia nem como e nem porquê ficava, ansiosa, na janela de seu quarto, no sótão da casa, a espera de vê-lo a acenar e lhe dar um adeus.

 

 

 

 

“Céus! O que estou a pensar! Eu tenho uma vida pela frente. Meus planos não incluem Guilherme em minha vida. Ele jamais se desgrudará de sua gleba, de seu chão. E eu já estou com minha vida traçada em outras esferas, bem longe daqui…”

 

 

 

 

Não era em todos os fins de semana que Guilherme tinha folga total. O Colégio Agrícola não era uma mera escola de ensinamentos teóricos. Havia todo um serviço de campo a ser feito. Nas plantações, no amaino do gado, da criação de suínos, na produção de queijos. E havia escala de plantões. No máximo uma folga nas tardes de domingo, após o almoço. E Guilherme treinava para maratonas naqueles dias. Engolia o almoço ou fazia de conta que almoçava, arrumava-se todo empolgado e fazia, em breve espaço de tempo, os oito quilômetros que o separavam de Mariana.

 

 

 

 

Passavam a tarde no cinema. Que não era longe. Mais se deixavam ficar em enlevos, a se olharem no escuro, de mãos dadas, do que assistiam aos filmes.

 

 

 

 

Eram múltiplas as escolhas que se estendiam à frente de Mariana em um curso superior. O estímulo de seus professores, que dia a dia, mais encantados ficavam com a sua genialidade, foi a mola propulsora para o caminho a seguir.

 

 

 

 

Mudou-se para Florianópolis onde, por um mês, fez um cursinho intensivo. Prestou o concurso do vestibular de Farmácia, na Universidade Federal de Santa Catarina. Seguiu as orientações de sua professora de biologia, Regina do Céu, para quem um dia ela confessou que precisava descobrir um medicamento para acabar com os vírus.

 

 

 

 

—Sabe, Dona Regina, se não aparecer alguma coisa que acabe com os vírus, os vírus irão acabar com o mundo. E também preciso descobrir algum meio de acabar com a degeneração das células cerebrais. É tão triste ver pessoas que foram geniais se tornarem chacota de jovens porque a memória delas vai se deteriorando.

 

 

 

 

O professor Pedro, que lecionava química e dona Avany, o gênio da matemática, juntamente com dona Regina, ministraram-lhe aulas extras antes que o curso findasse e que ela seguisse para as Ilha encantada em busca de seus sonhos.

 

 

 

 

Claro que passou no vestibular. Nem se precisa dizer que foi em primeiro lugar.

 

 

 

Retornou para passar as festas de fim de ano com os seus. E com Guilherme. Envolveram-se num abraço tão intenso, quando se encontraram que lhe parecia que o mundo logo se acabaria.

 

 

 

Andaram por aquelas serras, ao sol do verão. Banharam-se nas águas frias dos regatos que corriam pela serra. Fizeram piqueniques sob as sombras das araucárias.

 

 

 

 

Guilherme não se conformava com a próxima separação. Temia perdê-la quando mais avançados estudos ela fizesse. E ela prometia amá-lo para sempre.

 

 

 

Uma tempestade, destas que aparecem de súbito, em pleno verão, surpreendeu-os a muitos quilômetros longe da sede da fazenda de Guilherme. Tinham cavalgado a manhã inteira. Dessedentavam-se com a límpida água de um regato ao lado. Com o ribombar dos trovões e o intenso relampaguear a cruzar um plúmbeo céu os cavalos puseram-se em disparada.

 

 

 

 

Sempre havia alguma cabana pelas adjacências. Era costume deixá-las em condições de uso caso alguém precisasse de um abrigo ou de um pernoite. Debaixo de um aguaceiro intenso, Guilherme encontrou uma delas. Entraram. Logo acendeu o fogo na grande lareira. Apesar de ser verão estavam tremendo de frio. Precisavam secar suas roupas. Cobriram-se com as mantas que se encontravam sobre os sofás forrados de couro. Na despensa encontraram um vinho. Com ele brindaram sua grande aventura.

 

 

 

Deitaram-se sobre os tapetes defronte ao fogo. Abraçados e em enlevo total fizeram todas as juras de amor que só corações apaixonados entendem.

 

 

 

O sol lá fora brilhava intensamente quando acordaram na manhã seguinte. A um assovio de Guilherme os cavalos vieram ao encontro deles.

 

 

 

Já era fevereiro e o pai de Mariana levou-a até a rodoviária de Canoinhas onde ela tomou, sozinha, o ônibus noturno, em direção à Ilha da Magia. Porque as aulas na faculdade começariam no dia seguinte.

 

 

 

*Lousa: “Lâmina de ardósia enquadrada em madeira para se escrever ou desenhar com ponteiras da mesma pedra. (Dicionário Aurélio)