domingo, 28

de

novembro

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2021

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Entre o amor e a ciência (III)

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Guardou as cinzas em uma caixinha de madeira. Completou a celebração no dia seguinte, jogando-as no mar…

 

 

Mal o mês de janeiro apontava no horizonte, Mariana já embarcava em um avião com destino ao Rio de Janeiro. Guilherme levou-a até o aeroporto de Curitiba. Palavras já não importavam. Já não tinham sentido. Suas mãos pareciam aderidas por uma força descomunal. O último abraço, o último beijo, demorado, aflito, à frente do portão de embarque. Lágrimas nos olhos de ambos. E a promessa de moverem o mundo, para que logo pudessem se encontrar.

 

 

Ela já havia providenciado um cantinho para morar lá no chamado Fundão mesmo. Bem perto do local onde desenvolveria seus estudos. Longe das tentações da buliçosa Arpoador, a praia dos sonhos de uma época sem par.

 

 

Sua bagagem, como sempre, era pouca. Suas roupas, seus livros, seus mimos. O apartamento, bem pequeno. O mínimo possível para dormir e estudar. Parecia-se com um armário aderido a um minúsculo banheiro. O importante era ter o tempo todo direcionado aos seus estudos, às suas pesquisas.

 

 

A sala que lhe coube na Universidade localizava-se no subsolo. Logo conheceu a equipe que trabalharia com ela. Que a auxiliaria em todos os dias. Desde os que a ajudariam a coletar e preparar o material e as cobaias, até os que faziam a limpeza. Com eles conviveria pelos próximos quatro anos.

 

 

Já entre os demais mestres pesquisadores a recepção não foi tão calorosa. Vinha ela de uma província do sul. Alguém que poderia competir com eles no acesso à alguma das tão almejadas docências da Universidade. Algo que nem passava, àquela época, por sua mente. Ela queria mesmo era se aprofundar, entrar no âmago, no interstício de algumas plantas medicinais, em uma tentativa, para que os habitantes da terra viessem a ter uma melhor perspectiva de vida quando seus neurônios começassem a patinar.

 

 

 

Não havia folga em seu trabalho. Nem horário para findar as tarefas. Lidava com seres vivos e em inúmeras ocasiões, por horas infindáveis, teria de permanecer no laboratório, à espera de uma reação.

 

 

Ela sabia que, muitas vezes, teria de começar tudo do zero. Ou devido a alguma intercorrência, um erro, mesmo que milimétrico, de dosagem, ou por razões ainda desconhecidas perder o animalzinho em estudo.

 

 

As cartas de Guilherme acumulavam-se na gaveta de sua cômoda-escrivaninha-armário, sem que ela as abrisse. Chegava em casa extenuada e só queria um banho e estirar-se em sua estreita e solitária cama.

 

 

— Amanhã, antes de sair, eu as abro e as leio.

 

 

Mas ela sempre acordava em cima da hora. Era o tempo exato de arrumar-se e correr até o refeitório da Universidade para sorver, às pressas, uma xícara de café e devorar um pãozinho com manteiga. Ali mesmo ela fazia as demais refeições do dia.

 

 

Na hora do jantar, em uma sexta-feira, senta-se a seu lado um sorridente médico nordestino, que fazia doutorado em microbiologia. Ele era do Piauí e sentia também os dissimulados arranhões psicológicos.

 

 

— O que você vai fazer, Mariana, neste fim de semana tão radioso, nesta cidade maravilhosa?

 

 

— O que tenho feito desde que aqui cheguei. Na parte da manhã venho ao laboratório alimentar e cuidar dos bichinhos, pois são dias de folga de nossos colegas da limpeza. Arrumo o minúsculo cantinho onde moro. À tarde vou a algum cinema. E depois volto para casa para colocar meus estudos em dia.

 

 

 

— Que tal sair um pouco desta rotina? É só passar os olhos na sessão de entretenimento dos jornais e ver as peças de teatro que estão apresentando.

 

 

— Ah! Mas apenas nas sessões noturnas estão as melhores. E veja você. Eu moro aqui, no Fundão. Não há como atravessar a cidade naquelas horas tardias.

 

 

 

— Mas que tal irmos juntos? Eu não moro longe da Universidade. O Teatro Vila Lobos está apresentando, finalmente, após anos de censura, a peça “Rasga Coração”, de Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha, protagonizada pelo excelente ator Raul Cortez. Vamos?

 

 

— Sendo assim até terei coragem de enfrentar este longo caminho dentro de um ônibus.

 

 

— Então amanhã iremos te buscar.

 

 

— Iremos?

 

 

— Nós não iremos de ônibus. Um amigo meu tem um carrinho no qual caberemos nós quatro. Você, ele, a namorada dele e eu. — E foi completando — Temos que sair meio cedo a fim de pegarmos a primeira sessão das dezenove horas e assim podermos, depois, dar uma esticada em algum barzinho de Ipanema.

 

 

Finalmente, depois de tantos meses, um fim de semana diferente na vida de Mariana. Apesar de ter ficado com o coração realmente rasgado, enquanto assistia à peça de Vianinha, engolia o desespero em seco. Lembrava-se do irmão de uma amiga que havia sido preso e torturado nos porões da ditadura e quase não conseguia se conter. Mas não era apenas ela. Quando acederam-se as luzes, ao final, os aplausos estonteantes em homenagem aos artistas, autor e diretor, não conseguiram encobrir o choro incontido da maioria das pessoas na plateia.

 

 

Deixaram o teatro e foram em busca de um local onde pudessem espairecer, comer uma pizza e tomar um chope gelado ao som de um bom violão. Ipanema estava cheia de locais assim. Acomodaram-se em um bem aconchegante bar na rua que já era chamada Vinicius de Morais.

 

 

A amizade continuava. Alencar, o nordestino do Piauí, nascera e fora criado em uma vila perto da capital, Teresina. Lutou muito para conseguir fazer este doutorado, onde tentava sobressair-se com suas pesquisas em cima dos vírus que tantas dores causam ao mundo.

 

 

— Eu ainda serei o descobridor de uma vacina que protegerá a humanidade contra todos os vírus. — Alardeava ele no entusiasmo de sua juventude.

 

 

Almoçavam e jantavam na cantina da universidade em todos os dias úteis e nos demais procuravam restaurantes, perto de onde moravam e que servissem refeições compatíveis com seus bolsos.

 

 

Passavam muitos domingos, juntos, na praia. A devoção de Alencar por Mariana era algo que não escapava aos olhos dos colegas de trabalho. Uma Universidade, como aquela em que Mariana desenvolvia sua tese de doutorado, era uma verdadeira cidade. Mas o núcleo onde ambos circulavam parecia ser uma ínfima ilha. Com milhares de olhos a contemplá-los.

 

 

Ninguém acreditava que eram apenas amigos. Nem Alencar. Mariana, sim. Por algum tempo. Meses se passaram e um dia, ao voltarem, já bem tarde, para casa, quando deram por si já estavam abraçados e um apaixonado beijo selou o início de um novo amor na vida dela.

 

 

Certa manhã de sábado, enquanto vasculhava suas gavetas, encontra as cartas não lidas que Guilherme lhe escrevera há tanto tempo já. Cartas que ficaram até meio amarelecidas. Há mais de dois anos ali enterradas. Os estudos e pesquisas em que ela mergulhava não lhe mostravam o tempo decorrido. Nem para passar as festas de fim de ano com os seus ela conseguia. Jamais deixaria de lado os seus preás e os seus ratinhos.

 

 

Nas primeiras cartas ele lhe falava de saudade, da falta que ela fazia. Depois as reclamações por não receber respostas. Palavras de indignação em outras. Desespero e até ameaça de pôr fim à vida, escrevera ele em uma que seria quase uma das últimas. Por fim, aquela em que dizia a ela que iria se casar. Que não amava a mulher que seria sua esposa. Mas que um novo ser já estava a caminho e ele teria de cumprir com sua obrigação de cavalheiro. E mais. Culpava Mariana por todo este desenlace.

 

 

Sem alternativa, queimou todas as cartas, como se fosse uma celebração de um culto transcendental onde as labaredas extinguiriam todo um passado de um amor impossível. De um amor que fora lindo. Fora. Até o dia em que não poderia mais ser. Guardou as cinzas em uma caixinha de madeira. Completou a celebração no dia seguinte, jogando-as no mar…

 

 

Ela não imaginava mais voltar para sua terra, pois não conseguia desvencilhar-se de seus estudos. Dentro de um ano findaria seu doutorado. Aprofundava-se, a cada dia mais, em sua tese. Não poderia fracassar. E para ela, não conseguir a nota máxima, seria uma nódoa em seu brilhante currículo.

 

 

Sorriu ao receber uma carta de uma grande amiga de infância. Intimava-a a ir em seu casamento. Ainda na adolescência, comprometeram-se, em juramento solene, que quando se casassem, uma seria madrinha da outra. E a amiga cobrava-lhe o cumprimento de tão solene promessa.

 

 

 

A solenidade seria na igreja da vila perto do local onde Mariana vivera com seus pais. A festa, em um pavilhão ao lado. Tudo à moda do interior. Com muita carne assada, muitos bolos, muitos cuques, muitos foguetes e uma banda de música.

 

 

Mariana comprou o presente combinado com a amiga há quase dez anos. Sabia onde encontrar roupas da moda a preços irrisórios, diretamente, com as costureiras dos bairros distantes. Ateliers que confeccionavam as peças estilosas e atuais, vendidas, por preços exorbitantes, nas finas butiques da zona sul. E assim, em sua carioquicc adquirida ao sol de Ipanema e uma enorme bagagem, embarcou para o sul.

 

 

A recepção na rodoviária de Canoinhas foi grande. Seus pais choravam de saudade e alegria. Não cessavam de abraçá-la. Na casa deles outra festa, com alguns amigos e outros parentes, em torno de uma farta mesa. Matou a saudade de um leitãozinho à pururuca. Da maionese de sua mãe. Do vinho que um compadre de seu pai produzia.

 

 

Passou horas na varanda a olhar para o alto das serras e a relembrar aquelas cavalgadas malucas com Guilherme. Imagens da cabana com a lareira acesa. Os pelegos de lã de carneiro onde se aconchegavam em noites de luar.

 

 

Seu coração entrou em tumulto. Queria apagar as imagens e não conseguia. Jurou para si mesma que logo após findar a cerimônia religiosa do casamento de Rose, sua amiga, iria embora dali.

 

 

(Continua)