Entre novelas e crônicas, os escritos de Enéas

O escritor Eneas Athanazio/Divulgação

Homenagem de escritor emociona a colunista

 

 

Há dois anos eu recebia em minha casa os primeiros exemplares de “O MeuLugar”, a minha primeira obra impressa em um livro. Na capa a foto da estação de trem de Marcílio Dias, a foto do local onde vim ao mundo. Uma bela imagem captada pelas lentas de minha amiga Fátima Santos e tão bem diagramada por Edinei Wassoaski, o editor de nosso JMais.


 

 

O livro ultrapassou as pontes sobre os rios que nos separam do litoral e foi então que o meu amigo Carlinhos Pereira manda-me um recado e um endereço. O recado para enviar um exemplar ao escritor Enéas Athanazio, colunista literário do jornal Página 3, de Balneário Camboriu.

 

 

Com o receio de que o eminente escritor apenas o olhasse de relance, e nenhum valor lhe desse, atendi ao pedido do amigo Carlinhos e enviei o livro para Enéas. Não muitos dias se passaram e eis que leio, em sua coluna, no “Página 3”, um artigo intitulado “Em Busca do Tempo Vivido”, um comentário sobre “O Meu Lugar”. Avidamente o leio. Tensa. Imaginando o que um renomado escritor teria a dizer sobre o primeiro livro publicado por uma ilustre desconhecida moradora do Planalto Norte de nosso estado.

 

 

Surpresa ainda me encontro com o que li. Enéas gostou de meus escritos. E tece inúmeras linhas sobre o que para ele significaram as histórias por mim contadas.

 

 

Mas as surpresas não cessaram apenas naquela crônica, naquele comentário. Do ilustre colunista recebi, há alguns dias, uma esmerada publicação editada em Blumenau. Em quase 200 páginas diversos escritores contam histórias de pessoas e coisas, de fatos e causos passados pelo encantado vale do Itajaí, em uma revista chamada “Blumenau em cadernos”.

 

 

Abro-a, curiosa. Algo me chama a atenção. Um marcador de páginas, que, sutilmente, estaria a me indicar uma seção especial, a seção denominada “Autores Catarinenses”.

 

 

Lágrimas de emoção invadem-me. Tomando conta de uma página inteira, a capa de “O Meu Lugar”. Ao virá-la, outra foto da estação de Marcílio Dias, com a mesma garota que ilustra a capa de meu livro e a legenda: “Imagem ilustrativa do livro “O meu lugar”, de Adair Dittrich. Fonte: marciliodiasdistritoblogspot.com”.

 

 

 

E a tudo coroando, a crônica “Em busca do tempo vivido”, que sobre o meu livro, Enéas escreveu.

 

 

Eu conheci o Enéas no tempo em que, aqui em Canoinhas, exercendo o cargo de promotor público de nossa Comarca, ele viveu. Já era um escritor conhecido. Publicávamos textos seus na Página Literária de nosso jornal “Barriga Verde”. Depois ele continua a percorrer as comarcas de nosso estado até se aposentar. Hoje vive em Balneário Camboriú e nos mais diversos locais deste mundo de tantos deuses.

 

 

É colunista não apenas do jornal “Página 3” da cidade que escolheu para viver e de “Blumenau em cadernos”. Escreve também para o site “Coojornal –Revista Rio Total”.

 

 

Entre contos e novelas, artigos e colunas cresce assustadoramente o acervo de obras já escritas por ele. Até onde eu sei são 62 livros e 14 opúsculos publicados. Pertence a inúmeras entidades culturais, entre as nacionais e as de vários estados, nelas tendo exercido funções ou na diretoria ou como delegado. Prêmios, muitos prêmios já lhe foram outorgados.



 

 

É um exímio pesquisador de assuntos que muito influenciaram a nossa vivência atual. Infiltra-se na obra de Monteiro Lobato onde o encontro em rixas com um conhecido mandante de inúmeros crimes que deixaram coberto de sangue o nosso território, aquele que em troca de construir uma ferrovia apossou-se das terras onde os nossos nativos há séculos viviam e plantavam seu milho e cuidavam de sua criação. Aquele que dizia trazer desenvolvimento e progresso para nossa região não hesitou em tomar à força milhares de propriedades que se situam no entorno de nossos rios. Imiscuiu-se, Enéas, na obra que Lobato acabou por escrever sobre Farqhuar.

 

 

Termina ele este opúsculo, citando a fabulosa “Lumber que teria serrado cerca de um bilhão de árvores, sugando toda a sua riqueza sem deixar nada em troca.” …. “Nem um educandário, nem um hospital. Até mesmo a estrada de ferro, causadora de tudo, está desativada. E a região amarga a triste condição de ser a mais pobre do estado.”

 

 

Enéas, em seus escritos, deixa transparecer as raízes que nortearam sua vida. Deixa sobrenadar a sua vivência na promotoria que humana e magistralmente sempre exerceu.

 

 

Assim eu o vejo em “Indiologia Militante” publicado neste ano. Começa esta obra citando o Major Policarpo Quaresma, personagem de Lima Barreto. Policarpo Quaresma afirmava que nossa “língua nacional deveria ser o tupi e não o português importado da Europa.”

 

 

Esta obra é um libelo de amor e de defesa à causa indígena, os verdadeiros donos do solo em que pisamos e vivemos.

 

 

Fala-nos da tristeza ancestral dos espoliados, dos bugreiros que a multidões de nativos dizimaram sob um mero pretexto que intitulavam de “civilizatório” … Fala-nos do “Manifesto Nheçuano”, dos bugreiros de hoje e do mito do vazio. Fala-nos do “Cacique Nheçu, da região fronteiriça do Rio Grande do Sul, até há pouco demonizado pela história oficial.”

 

 

Em “O Perto e o Longe” ele nos conta coisas velhas e novas também sobre o que foi a nossa “Guerra dos Fanáticos”. E afirma que “… a história é estudada para evitar erros do passado. Se a história se repete como farsa, os erros podem se repetir indefinidamente”. E completa, afirmando que o “Contestado não serviu de lição.” “Vejo com apreensão que se ampliou o latifúndio em detrimento das pequenas propriedades, engolindo-as, e que a região é manipulada por poucos e grandes grupos empresariais.”

 

 

E do longe ele nos fala do soberbo Rio São Francisco, de Fernando de Noronha, sobre uma viagem de trem de Belo Horizonte a Vitória, sobre a capital do Meio do Mundo.

 

 

E, claro, como não poderia deixar de ser, algo sobre Hemingway. Enéas tem uma profunda ligação por aquele escritor que foi o grande mestre internacional da ficção.

 

 

Eis um pouco sobre o pouco que de Enéas eu li. Acompanho-o sempre, a fim de umas tintas a mais de cultura adquirir, lendo as colunas que ele escreve no jornal “Página 3”.

 

 

Obrigada, Enéas, por, em “Blumenau em Cadernos” colocar-me na seção de “Autores Catarinenses”. Uma honra jamais imaginada por mim.

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