segunda-feira, 27

de

setembro

de

2021

ACESSE NO 

Em busca do assassino

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Caso algum imprevisto acontecesse seriam dizimados sem que descobrissem o assassino

 

 

 

Na noite da tragédia os jovens rastreadores haviam pernoitado às margens do Rio Negro. Pensaram em dividir-se em dois grupos e cada um seguiria um sentido do rio. Avaliaram os perigos e as consequências de se separarem. Caso algum imprevisto acontecesse seriam dizimados sem que descobrissem o assassino. Cabisbaixos, retornaram para a taba.

 

 

 

Confabularam com os anciões e resolveram formar dois grupos distintos, cada um com maior número de integrantes e infiltraram-se pela mata afora, beirando o rio. Passaram por aldeias de brancos. Nenhuma informação, no entanto, conseguiram. Ou porque as pessoas deles se afastavam e nem conversar queriam. Ou porque nada entendiam do que diziam.

 

 

 

Finalmente, quando duas luas já se haviam passado, um velho, bêbado e alquebrado, que mendigava à porta de uma bodega, nos arredores da Lapa, deu-lhes algum vestígio de informação.

 

 

 

— Em troca de um copo de pinga e de um naco de carne eu les conto o que andei vendo e ouvindo daqui deste meu canto.

 

 

 

Entregaram dois níqueis ao bodegueiro que encheu uma cabaça de cachaça. Portavam com eles carne de um veado que haviam abatido e assado na véspera.

 

 

 

Feliz com o banquete à sua frente o velho mendigo voltou a ser gente. E contou tudo o que viu e ouviu, ali de fora, assim, meio se fingindo de bêbado e como se dormisse profundamente.

 

 

 

— Sabem, vosmicês, que eu ando por este mundo de Deus sem saber de onde vim e nem pra onde eu vou. Mas muita coisa eu já vi. Mas nunca vi um tropero, jovem e robusto, andar, manquejando, com duas botas de cano alto. Perguntei prele se tava com calo nos pé ou se tinha caído e se quebrado.

 

 

 

 

Sorveu mais um golaço na cabaça de pinga e mastigou, com os dois únicos caninos que lhe restavam na arcada superior, mais um naco da saborosa carne de veado.

 

 

 

— Sabem vosmicês que eu nunca na vida comi uma carne tão boa e tão bem assada como esta. Mas, continuando, o tal rapaiz, jovem e robusto, escarrou em minha cara, achando que eu estava debochando dele. Aquilo me ferveu o sangue. Mas o que é que eu podia fazer? Limpei meu rosto com a manga do casaco e fiquei a escutá o que ele falava co bodeguero. Pelo jeitão dele falá percebi que misturava palavras de índio com as nossa. Entendi que ele procurava trabalho. E o bodeguero mandou ele procurá os tropero que acampava nos arredó. Nem adianta vosmicê corrê atrais agora. Isto aconteceu já faiz um tempão. Uns par de meis. Mas podem se informá co pessoal que fica naquele armazém lá da beira da estrada que corre pro norte e pro sul. É bem capaiz que ele continue indo e vindo cas tropa.

 

 

 

 

Os rapazes nem perguntaram mais nada. Correram até os arredores da cidade. Mas tropa alguma encontraram. Nem nas cercanias, nem na beira do rio. Apenas rastos de cavalos e mulas e de carroções que se dirigiam em todas as direções. Analisaram o terreno com olhos de lince e concluíram que jamais alcançariam os tropeiros que por ali haviam acampado.

 

 

 

Tentaram obter algumas informações a mais com o dono do armazém. O homem continuou enrolando o palheiro que fazia, lambeu as pontas, levou-o à boca, acendeu-o com o isqueiro, aspirou, tragou, soltou a fumaça com um suspiro de felicidade e só então lhes respondeu bem descansadamente.

 

 

 

— Os tropero sempre acampa por aqui. A peonada é munta. Alguns vem pegá umas cuia de farinha e umas vorta de linguiça, fumo em corda e otras necessidade. Só os grandão é que se sentam aí nas mesas pra mor de comê um sortido de fejão com farinha e carne.

 

 

 

Ofereceu a cuia de chimarrão. Que os índios sorveram com prazer enquanto o bodegueiro continuava a falar.

 

 

 

Munto dificir dizê quando as tropa tão de vorta. Das veiz dura dois meis, outras veiz, treis.

 

 

 

Agradeceram as informações e, cabisbaixos, cansados, frustrados, uma vez mais, iniciaram a longa jornada de retorno à sua taba.

 

 

 

 

 

Sami, após consumar sua triste vingança, utilizou as mais variadas técnicas — que desde criança aprendera com os mais velhos de sua tribo —, a fim de apagar todo e qualquer vestígio de sua presença, de sua passagem. Onde o rio era mais raso, continuava por ele, com seu cavalo. Comia o que podia comer cru, para que o fogo e a fumaça não dessem sinais de sua localização.

 

 

 

Foi ao encontro da comitiva — que voltava de Sorocaba, com destino ao sul, tangendo suas mulas carregadas das mercadorias tão esperadas.

 

 

 

Em meio a tantos outros peões de pele acobreada como ele, quase despercebido passava. Era muito bom no manejo do rifle e com maior facilidade, com um único tiro, trazia a melhor caça para ser assada nas refeições da peonada.

 

 

 

Uma tristeza imensa era sua eterna companheira. Não tinha certeza se conseguira tirar a vida daquele bastardo, filho do forasteiro que lhe roubara sua amada Anahi.

 

 

 

Precisava esperar muitas luas ainda até que pudesse chegar o mais próximo possível de sua taba e saber como ela estaria. Saber se o forasteiro já tinha sumido da vida dela. Saber se sua vida ainda teria um vislumbre de paz e de alegria com ela a cavalgar a seu lado pelas campinas.

 

 

 

 

Para isto precisava deixar que seus cabelos voltassem a crescer. Começou a andar sem camisa e sem as botas para que sua pele tornasse a apresentar a cor que tinha antes de se cobrir com roupas como os brancos. Em uma das vezes em que a comitiva passava nas cercanias de seu antigo lar, julgando que já tivesse cancelado todos os vestígios que o tornassem um índio travestido de branco, encetou a viagem, que seria, por enquanto, apenas de averiguações. Trocou seu cavalo por um mais selvagem, ainda sem ferraduras. E, em pelo, nele cavalgou, por dias, até chegar nas margens do Rio Negro.

 

 

 

 

Certa noite, de mansinho, aproximou-se da oca que seria de sua família. Ficou à espreita, do lado de fora. Até ver passar por perto um de seus antigos companheiros. Surpreendeu-o pelas costas, tratando de logo, com uma das mãos, fechar a boca do apavorado índio. Chegou bem perto de seus ouvidos para, sussurradamente, dizer quem era.

 

 

 

— Não se assuste, companheiro. Sou seu amigo, Sami. Estou voltando depois de me desiludir da vida de aventureiro por onde andei.

 

 

 

O amigo abraçou-o, saudoso, e foi com ele para dentro da oca. A mãe de Sami, chorando, tomou-o em seus braços. O cacique, continuou em pé, sisudo, sem nada dizer.

 

 

 

Sami sentiu que algo diferente havia acontecido durante esta sua longa ausência e que não agradava nada a seu pai.

 

 

 

A mãe foi logo lhe preparar um mingau quente de farinha de mandioca e requentar um naco de carne que sobrara da última refeição que a família fizera.

 

 

 

O pai, sério, continuava a fitá-lo. Comeu, agradeceu pela refeição. Há tempos não comia algo tão bom como a comida que sua mãe sempre preparava para ele.

 

 

 

Queria saber como estavam todos. Os da família. Os amigos. Os demais integrantes da tribo. A mãe foi dando as notícias, enquanto ele contava suas aventuras, omitindo, no entanto, que estivera trabalhando todo aquele tempo, ao lado dos brancos. Contou das matas do sul por onde andou. Dos campos sem fim e das coxilhas. Das serras que subira. Dos grotões que adentrara.

 

 

 

O sono chegou e todos se deitaram nas esteiras, em redor do fogo, para dormir.

 

 

Cedinho, na manhã seguinte, o cacique chamou-o para conversarem do lado de fora, longe dos demais.

 

 

 

— Filho, você pode contar quantas histórias quiser sobre sua vida neste tempo todo de ausência, mas eu conheço a verdade, porque eu te conheço.

 

 

 

Sami começou a chorar, como nos tempos em que era um pequeno curumim ao ser chamado a atenção pelo cacique. Quando pediu ao pai que fosse com ele até a taba do outro lado do rio, nem que fosse apenas para ver Anahi de longe, o cacique teve um ímpeto de gritar bem alto. Conteve-se, no entanto. A conversa era sigilosa. Apenas entre os dois.

 

 

 

— Você a matou naquela noite, Sami! Você a matou, incendiou a oca do cacique Cauê e a matou. Eu sei que foi você. Fingindo-se de branco. Com calçado de branco. Com um cavalo ferrado e com arreios como os que os brancos usam. Apesar de toda a tragédia e de chorar com nossos irmãos da taba do outro lado do rio, senti orgulho de você meu filho, por ter conseguido encobrir todos os rastos, por ter feito que tudo parecesse obra dos brancos. Mas nunca aceitei você ter matado Anahi.

 

 

 

Sami entrou em pânico e chorou convulsivamente. Tampando a boca, para não ser ouvido, correu para dentro da mata, agarrou-se a um grosso tronco de uma araucária, clamando a Tupã que o levasse.

 

 

 

A mãe ouviu seus lamentos e foi atrás dele. Consolava-o como só uma mãe sabe consolar. Mas ela imaginara que o cacique apenas lhe contara que Anahi estava morta. Ele nunca comentou, nestes anos todos, com ninguém, o que se passava em sua alma. Sofria, sozinho, a tristeza de imaginar ser seu filho um assassino.

 

 

 

 

Quando Sami parou de se lamentar contaram-lhe que o curumim havia sido salvo. Novo desespero apossou-se de sua alma. Não podia, na frente de sua mãe e dos demais integrantes da tribo, que a esta hora já estavam em seu entorno, jurar que ainda mataria o pequeno bastardo. Não poderia denunciar ao mundo o que havia feito.

 

 

 

Foram poucos os dias em que permaneceu na taba com os seus. O pai aconselhou-o a fazer uma longa viagem pelas planícies das campinas do sul. Encontrar uma índia mais linda que Anahi e trazê-la para vir morar junto deles e criar uma família.

 

 

 

Foi assim, mais cabisbaixo e abatido do que no dia em que à sua taba retornou, que Sami montou em seu cavalo e partiu ao encontro da comitiva que tangia o gado vindo do sul em rumo de Sorocaba.

 

 

 

 

Cortou seu cabelo, vestiu-se com o gibão, a camisa, e os calções, ajustou a longa bota em seus pés e pernas, ferrou o cavalo e foi ao encontro dos amigos que fizera nas andanças de norte a sul, durante tanto tempo.

 

 

 

 

A comitiva sempre passava ao largo de muitas povoações. Mas escolhiam sempre uma que já fosse mais bem abastecida, não apenas de alimentos, como de botecos onde pudessem se divertir, tocar suas violas e bandoneons, cantar, dançar e, talvez, encontrar uma bela dona com quem dormir.

 

 

 

 

Nestas suas primeiras jornadas, logo após sua volta, Sami ficava encorujado dentro de sua barraca, acompanhado apenas de uma garrafa de aguardente. Sabia que não poderia beber muito senão no dia seguinte não conseguiria acompanhar a tropa.

 

 

 

 

Mas esta sua solidão andava lhe castigando a mente. Os goles que tomava já estavam ficando pouco para fazê-lo dormir e esquecer Anahi e o que fizera com ela. Aquela noite não lhe saía da memória. O que dera errado? Sua intenção era matar apenas aquele bastardo, rebento do forasteiro. Ao cismar com o que acontecera dava socos em sua cabeça.

 

 

 

Lembrava-se tão bem de seus cuidados para não ser descoberto. Aguardara, nas cercanias da taba, pelo dia em que Anahi entrasse em trabalho de parto. Escutaria seus gemidos quando começasse a sentir as dores. E o inconfundível choro de um recém-nascido. Era só chegar pelos fundos da oca. Colocar fogo nas ramagens secas que a circundavam e entrar atirando. Lembra-se bem que as labaredas cresceram mais rapidamente do que imaginara e que a fumaça o cegara, momentaneamente. Atirou, sem ver, na direção de onde vinham os vagidos da criança. O fogo fazia as sombras e os vultos dançarem. E sumiu, como um relâmpago, na maior velocidade possível, para que os homens e as mulheres, distantes nas roças e nas matas, chegassem a tempo de perceber sua presença e alcançá-lo.

 

 

 

 

Não parara um momento sequer, naquela noite, até encostar-se nas paredes daquele galinheiro, onde dormiu. Não ficou sabendo e jamais imaginaria em que se transforma uma mãe ao ver sua cria em perigo.

 

 

 

*Mais um trecho de um livro em elaboração.