Educação, modernidade e reforma do ensino no Brasil

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A relação existente entre a Educação e a Filosofia pode ser considerada eminentemente moderna

 

 

Wellington Lima Amorim*


 

A Educação brasileira tem o maior orçamento da nação. Perde apenas para o Ministério da Saúde. No entanto, os índices de produtividade dos professores, bem como o resultado de suas ações são risíveis, quando comparados com a Europa e a América do Norte. Logo, urge uma reforma profunda no ensino, não somente do superior, mas do médio e fundamental. É importante compreender que a Modernidade pode ser descrita como um período histórico marcado pela emergência das Ciências Naturais, pela Revolução Francesa no século XVIII e Industrial no século XIX. A Modernidade também pode ser caracterizada como o período em que o Homem se tornou o centro do universo da verdade e da racionalidade. Poderíamos afirmar ainda que estamos na Modernidade.

 

 

Por outro lado, alguns autores apontam a emergência de uma nova condição, a pós-moderna. Por sua vez, a relação existente entre a Educação e a Filosofia pode ser considerada eminentemente moderna, quando se concebe os saberes disciplinares como um instrumento de controle que se efetiva através da constituição de um território do saber. Esse mecanismo disciplinar conforma uma organização espaço-temporal e de delimitação de saberes, tendo como elemento unificador a hierarquia. Para entender o conceito de disciplina enquanto eixo de saber é necessário compreender a oposição entre o generalista e o especialista. De maneira simplificada, esta oposição é uma cruel dicotomia que se coloca contemporaneamente. O generalista poder-se-ia dizer que é possuidor de um saber transversal ou panorâmico. Por sua vez, o especialista é aquele que possui um saber aprofundado sobre um determinado assunto. O generalista sabe de tudo um pouco. O especialista sabe de tudo sobre uma única coisa.

 

 

Quando a Universidade foi criada no século XIII, ela transmitia o que se chamava de artes liberais, procurando dar conta dos estudos humanísticos da cultura grega. No entanto, quando atinge seu apogeu, nos séculos XVIII e XIX, o método científico está em voga, símbolo do conhecimento burguês, substituindo o modelo de ciência grega, e caminhando lado a lado com a ideia de progresso. Neste momento são criadas as Universidades de Berlim, iniciando-se o processo de fragmentação e compartimentação em especialidades fechadas, nasce o especialista moderno, que terá em suas mãos uma única ferramenta de estudo, que passa a ser denominada disciplina. Esta possui como função ser bastante definida e estabelecida, formando círculos de comunicação entre os especialistas. Repartem o infinito, ou melhor, o território do saber, criando propriedades privadas, minifúndios, minipoderes.

 



 

Se por um lado, aprofunda o conhecimento, por outro se abdica a tarefa árdua de síntese, e de visão do todo, que é deixada definitivamente de lado. A disciplina tem como função reduzir tudo ao cálculo matemático e probabilístico e ao que pode ser medido. A disciplina constitui o método científico por excelência, que busca ter o conhecimento verdadeiro, claro, distinto e evidente sobre o real. A Modernidade busca respostas e fórmulas para uma melhor organização de seus problemas através da disciplinaridade. Na verdade, todo o ensino moderno está calcado numa organização disciplinar, que implica uma hierarquização do conhecimento e dos sujeitos, uma destinação de espaços para os sujeitos, uma distribuição do tempo escolar, entre outros elementos. Isto ocorre porque as disciplinas delimitam um campo de saber a ser ensinado, e se valem das mais diversas formas e estratégias para sua eficácia.

 

 

Foi nesse contexto que as escolas do início do século passado se organizaram, e foram ofertadas a todos os sujeitos sociais. Inúmeras instituições de ensino acabaram incorporando em sua forma de desenvolvimento tais práticas, e criaram seus currículos baseando-se nos pressupostos tradicionais de ensino, onde os saberes – ou os modos de compreender e ter acesso ao mundo – eram separados e organizados de tal modo para que se pudesse quantificar a aprendizagem de cada aluno, separadamente, e em cada disciplina. Por sua vez, a pós-modernidade tem como representante o generalista que é possuidor de um saber interdisciplinar. O saber interdisciplinar é um conhecimento que tem a pretensão à totalidade, à verdade e à qualidade do conhecimento. É responsável por conectar o saber em suas diversas partes, separadas pelo saber disciplinar que tem por base o preceito cartesiano de dividir o máximo possível para se ter o aprofundamento necessário de cada peça desse grande mosaico que é a realidade, mas não abdica da capacidade de religação de todo o conhecimento. Acredita-se assim que a pós-modernidade consiste no retorno da concepção clássica de Paidéia grega, onde a Sophia é a sua principal protagonista.

 

 

Cabe indagar: a reforma do ensino no Brasil resgata este ideal humanístico de Educação ou apenas se serve para o disciplinamento e aparelhamento de corpos e mentes? O que o governo atual oferece como planejamento reformista que possa ser efetivado? Para além da retórica moralista que exige o canto fervoroso do Hino nacional?

 

 

*Dr. Wellington Lima Amorim é professor

 

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