Do encantamento à dor…


Leia a segunda parte da história de amor de Manuela

 

 

Manuela parecia viver em um mundo de encantamento. Sorria sem motivo. Deixava fluir de dentro de sua alma as mais românticas canções. Afundava em seu serviço com uma inusitada dedicação parecendo que o cansaço jamais a encontraria. Estava vivendo em outras galáxias. Vivendo um amor diferente, um amor-menino, um amor jamais imaginado.

 

Leia a primeira parte desta história

 

Correr ao correio em todas as manhãs tornou-se uma nova e deliciosa rotina. Levando as cartas que diariamente escrevia para o seu amado. Pescando na caixinha mágica os mais maravilhosos poemas de amor que ele lhe enviava.

 

 

Verdadeiros malabarismos Marco Vinicius fazia para, em alguns fins de semana, ir até a pequena cidade deles, na tentativa de se encontrarem. Chegou a trabalhar, à noite, como garçom, em bares e restaurantes, a fim de pagar a viagem.

 

 

Não faziam planos para o futuro. Viviam as horas felizes roubadas só para eles. Gostavam das mesmas músicas. Trocavam livros de autores incríveis. Inebriavam-se ao ver as esmaecidas luzes que se irradiavam dos últimos lampiões dependurados no alto de troncos de madeira na estradinha que começava muito além do burburinho da cidade. Inebriavam-se com os raios das luzes que se imiscuíam por entre os ramos das árvores envoltas no nevoeiro da madrugada.

 

 

Aos poucos Manuela foi descobrindo que aquele menino nascido e criado nas lonjuras da floresta, que aquele menino que em uma escola técnica fizera os seus primeiros estudos revelar-se-ia em um ser espiritualizado, poético, sensível, carinhoso…

 

 

Aos poucos o encantamento já não era mais apenas um encantamento. Manuela passava horas a imaginar o que seria dela quando tudo se desfizesse assim como se desfazem as bolhas de sabão. Iridescentes aos raios do sol, em um segundo o vento as leva e em seguida apenas o vazio… Porque muitas vidas ela já vivera. Não queria alimentar ilusões. Mas quando dava por si, castelos nas estrelas ela fazia… tendo ele a seu lado.

 

 

E, pensava, por tudo aquilo que ele lhe dizia, pelas palavras poéticas, pelas juras de um eterno viver com ela, sonharia ele também que a vida poderia ser bela para eles?

 

 

Os últimos meses do ano aflorando. Manuela foi a um congresso no Rio com uma amiga. E passou por Curitiba. Estampado na face dele a desilusão por não poder acompanhá-la. Exames finais na faculdade quase em andamento. Experiências laboratoriais a serem concluídas. Ele sabia. Definitivamente, não tinha como ir junto. Um último lanche, num barzinho na saída da cidade, antes que ela entrasse na grande rodovia foi o que restou deste meteórico encontro. Do terminal urbano onde ela o deixou para tomar um ônibus de volta ao centro da cidade, tentava ele alcançá-la com as mãos do adeus e com os mais brilhantes olhos, carregados das lágrimas que não conseguia conter.

 

 

Combinaram um encontro para o dia do retorno dela. Que seria num final de semana. Poderiam ficar juntos alguns dias.

 

 

Do Rio ela lhe enviava cartões carregados de saudade. E as cartas que ele escrevia não sabia para onde mandar. Guardava-as para depois ler para ela. Para que ela soubesse do seu sofrimento em não tê-la ao seu lado.

 

 

Em uma manhã de sol esplendente Manuela e a amiga deixaram a cidade maravilhosa. Viram, aos poucos, o sol emergindo, primeiro, nas turbulentas águas para além de Ipanema, depois na mansidão da Baia da Guanabara. E aquele nascer dourado as acompanhou na subida da serra, sumindo e aparecendo entre as escarpas montanhosas ou entre a luxuriante vegetação.

 

 

Fora uma viagem de sonho. Uma semana de muito aprendizado científico. Foram ao bar onde ao piano estava um já conhecido pianista, aquele carioca que uns meses antes estivera visitando a terra delas. Ao entrarem no pequeno recinto, o hino de sua cidade, no teclado, ele solou. Foram muitas noites conhecendo locais de festa, de luzes e de música onde ela, antes que tivesse começado este encantamento, teria se extasiado. Mas, à medida que os quilômetros pela rodovia avançavam, pensava ela,nada realmente, teve graça. Porque ele não estava lá.

 

 

Não havia entardecido ainda quando chegaram à capital das araucárias. Ela deixara a amiga em casa de uns parentes, na periferia, e rumou direto para a república de estudantes onde Marco Vinicius morava. No decorrer da viagem vinha sonhando com os momentos que juntos passariam naquele hotel à beira da praia, no litoral ali tão perto.

 

 

Um colega dele a atendeu à porta. Ele não se encontrava. Tinha viajado. Uma excursão da turma da faculdade. Quase todos haviam retornado no ônibus da escola. O amigo não soube dizer porque ele não viera junto.

 

 

Um mundo de sonhos desmoronado. Uma angústia apertou em seu peito. Sua imaginação já o vislumbrava nos braços de outra. Um ciúme antecipado a corroer-lhe a alma… Deixou com o colega um lacônico bilhete. Passaria aquela noite no apartamento de uma amiga e no dia seguinte voltaria para a sua cidade. Mas, numa esperança de que ele ainda aparecesse, acrescentou o endereço. E para a casa da amiga seguiu.

 

 

Entre um café e uns biscoitos, foi contando para a amiga de sua viagem, do congresso, do que sonhava fazer ainda pelo povo de sua terra natal. Nem sabia como pedir para passar aquela noite ali, pois percebera que o apartamento era pequeno e o quarto de hóspedes já se encontrava ocupado por um casal de amigos. Despedia-se já, imaginando pegar a estrada para a sua cidade naquela noite mesmo, quando a campainha toca.

 

 

Foi um pasmo geral. Era ele. Esbaforido. Tenso. Desesperado. Jogaram-se um nos braços do outro.

 

 

E rumaram para uma praia perdida ali no leste do estado. Para um hotel de um clube de praia do qual Manuela era associada.

 

 

Uma vez mais um estonteante plenilúnio os envolvia. Debaixo de uma palmeira sentavam-se e abraçados esperavam o momento em que o majestoso astro da noite emergisse nas águas do oceano.

 

 

Tomavam banho de mar, banho de lua, banho de sol, banho de amor…

 

 

Em uma manhã ela começou a sentir um mal estar enquanto vagavam pela linha da água. Tonta, mal enxergando o caminho,  lentamente, apoiada nos braços dele, retornou ao apartamento do hotel. Manuela até correu a tomar a medicação de que fazia uso quando estas crises mostravam seus pródromos. Mas de nada adiantou. Os vômitos já estavam incoercíveis. Ela mal conseguia falar tão intenso era o mal estar, tão intensa a dor de cabeça. Conseguiu, a muito custo, rabiscar o nome de umas medicações venosas. Pediu-lhe para ver se conseguia alguma enfermeira para vir aplicá-las.

 

 

Desesperado, sem entender o que estava acontecendo, Marco Vinicius correu a providenciar o socorro. Pediu a ele que a deixasse sozinha. Que voltasse para a praia. Que logo tudo estaria bem. Alguns instantes depois Manuela dormia. A princípio, debatendo-se muito ainda. Depois, placidamente.

 

 

Acorda, aos poucos. A tarde já quase findava. Mas no lusco fusco do quarto semiobscurecido pelas cortinas ela o vê. Sentado no chão. Recostado na parede frente a ela.

 

 

—Oi, já estás de volta? Aproveitaste a praia?

 

 

Ela não percebera que ele estava ainda com a mesma roupa da manhã.

 

 

—Estava esperando que melhorasses para irmos juntos…

 

Foi então que as cortinas de sua alma se abriram. Ele presenciara toda a sua agonia. Estava ali, sentado no chão, ao lado do leito, onde ela, por tantos minutos se debatera em cruciante agonia, como um protetor, um vigilante. As mais desencontradas emoções dentro de seu eu entrechocavam-se. Ele permanecera o tempo todo, mal acomodado, no chão, ao lado dela.

 

 

E de repente ela se viu. Descabelada. Desgrenhada. Com a face em frangalhos. Uma face que mesmo quando mais jovem estaria já em lastimável estado.

 

 

Ele apenas balbuciou:

 

 

—Eu sei que agora eu te amo mais que tudo nesta vida. Eu te vi sofrendo, e angustiado, sofri contigo… dormiste e eu acordado continuei a imaginar o tamanho de tua dor. Depois dormias placidamente e eu só ficava te olhando e olhando o teu sonho através das brumas do teu sono…

 

 

Se Manuela já estava apaixonada, daquele momento em diante foi o mais puro amor que por ele ela sentiu.

(Continua).

 

 

 





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