Divagando em torno de um céu cinzento…


Vagueia pelos corredores da alma enquanto perambula em busca de algo que nem sabe o que é

 

Sempre foi assim em sua vida. Sempre que as nuvens cobrem o azul e a águas nelas contidas desabam sobre a calçada, sobre a grama, sobre a rua, um misto de saudade e angústia invadem seu espírito. E então sua alma chora. Um choro sentido, um choro sem lágrimas, um choro sem soluços, um choro que a envolve por inteiro.

 

 

 

Anda atônita pela casa, revolve armários e pensamentos. Tenta ouvir melodias alegres na vã tentativa de um mero sorriso mesmo que triste. Procura-as pelas faixas e canais numa ânsia e avidez tão grandes quanto a sua vontade de fugir de suas memórias.

 

 

 

Vagueia pelos corredores da alma enquanto perambula em busca de algo que nem sabe o que é. Sente o amargor da bile em sua boca. A imagem de um deserto ela vislumbra em seu âmago. Nem a mais cristalina água da fonte que jorra das pedras que ficam além das árvores do bosque onde mora sacia esta sede que teima em queimá-la sem parar… sem parar…

 

 

Na casa vazia o suave murmúrio da chuva a descer do telhado, a correr na calçada, a escorrer pela grama, a descer pelas sarjetas da rua.

 

 

Sempre foi assim em sua vida. Sempre que as nuvens cobrem o azul. Sempre que o chumbo encobre toda a abóboda. Sempre que o cinza se perde nos horizontes.

 

 

E na memória as cinzas atordoam pensamentos… Ela não quer remexer nos mortos arquivos do passado. Porque sabe que as lágrimas que lá encontrará enterradas, junto à saudade de um tempo que foi bom, molharão suas vestes muito mais que as águas da chuva que cai.

 

 

 

Teimou ouvir, uma vez mais, melodias álacres para que os doridos murmúrios da alma voassem para o espaço em busca das aves que do tenebroso tempo se esquivaram também.

 

 

 

Mas tudo parecia conspirar para que ela não conseguisse sair da espiral de tormentas que a sua alma envolvia. Porque até mesmo dentro da coleção de sambas, canções do tempo das fossas se imiscuíram.

 

 

Passeou pelas baladas de Joan Baez, pelos fados de Amália Rodrigues, fez uma trilha em torno de tantos que cantaram e contaram as histórias das veias abertas da América Latina. Entre tantos solfejou as angústias de Violeta Parra e todas as suas dores. E a voz, por vezes gutural, por vezes, contralto, de Mercedes Sosa levou-a a reviver momentos felizes passados ao lado de seu amor, quando, de mãos, a viram e a ouviram no Teatro Guaíra.

 

 

 

Depois percorreu com sua voz as ruas todas que daquele teatro levam até o Largo da Ordem. Onde, em um aconchegante barzinho, tomaram um vinho português ao som do piano de um dos Pereira. Onde ouviram uma das mais lindas melodias de Antônio Marcos, o depressivo compositor que cedo foi dedilhar harpas com os anjos.

 

 

Quando deu por si, sorria! Sorria com as lembranças felizes. Águas rolaram de seus olhos enquanto as águas do céu rolavam pelos telhados.

 

 

 

E foi então que todas as músicas que embalaram as horas passadas com seu amor ela quis ouvir. E retirou dos escaninhos as lembranças escritas do tempo em que perambulavam pelos mais fantásticos mundos.

 

 

 

Ao som das baladas de Chopin atapetou a sala com aquelas finas folhas coloridas. Finas folhas carregadas de poemas. E de saudade. E lendo-as foi, uma a uma. E revivendo uma vida em que viveu. Frases lá jogadas a esmo dizendo de tempos de ternuras sem fim disseminadas em milhões de palavras poéticas que só um espírito que veio para espargir maravilhosos momentos em uma tão curta trajetória pela terra poderia escrever.

 

 

Ela deve ter passado a noite a ler aquelas cartas-poemas. Porque eram muitos pacotes enterrados há tanto tempo. Que ela se negava arrancar de um túmulo secreto onde, junto às suas memórias, por muitos anos permanecera.

 

 

 

Desde então, quando o céu de plúmbeas nuvens se cobre e as águas do espaço sem fim desabam sem parar, ela já não anda mais a esmo pela casa em busca de algo que não sabe o que é.

 

 

Abre os arquivos da alma de onde retira os poemas de amor que encharcam de lágrimas seus olhos e de uma saudade alegre o seu viver.

 

 

E no rasto desta história, como o choro pingado que o garçom derrama na taça, eu deixo este pedaço de um poema de Isis Maria:

 

 

 

“           … um dia eu te falei de uns olhos ternos, pretensamente meus, um dia. Falei de um quarto caiado a poemas, de uma rua com calçadas esburacadas, a rua da sarjeta alta e encardida, que lembra um banco de praça, onde muitas vezes me sentei para contar estrelas. 

 

 

 

… outro dia eu te falei de um sonho, onde havia um mundo; e neste mundo, seres; e nesses seres, a pureza; e nessa pureza, um abraço total. 

 

 

 

 … uma noite (há tanto tempo), depois de um incontido desabafo, choraste… nessa noite, te falei de risos, para que as tuas lágrimas secassem, mas as tuas lágrimas, de repente, me pareceram menos desamparo que o meu sorriso triste.” 

 





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