Direito à cidadania ou falência da educação?


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Pobres e coitados deixam para trás um grande cemitério de excelentes profissionais

 

 

Dr. Wellington Lima Amorim*

 

 

A Educação no Brasil até meados da década de 1980 sempre foi privilégio da elite brasileira. As estatísticas demonstram que era uma parcela muito pequena da população que conseguiam atingir tais objetivos. A partir da década de 1990, o governo federal decidiu abrir mão de sua responsabilidade quanto ao ensino superior. Manteve precariamente as Universidades Federais e permitiu que o Ministério da Educação autorizasse a abertura de cursos em Faculdades e Centros Universitários em várias partes do País. Desta forma empresas mal-intencionadas, mas munidas de uma retórica humanitária, vêm confundindo e entrelaçando cada vez mais a pesquisa e o ensino superior em uma teia mercadológica que está afundando definitivamente a Educação. Existem duas características principais que determinam estas empresas: a) O escalável b) O quantificável. A visão do escalável pode ser encontrada no discurso destas empresas da seguinte forma: Primeiro, em suas propagandas, fala-se das recompensas que podem ser conseguidas em curto prazo após o estudante possuir o diploma de Bacharelado, ou seja, prometem aquilo que não podem garantir.

 

 

 

 

 

Não estou dizendo que o estudante de graduação após a conclusão do seu curso não possa conseguir seu espaço no mercado de trabalho, o que estou afirmando é que não temos tal garantia a priori. Se pensarmos desta forma, a Educação superior acaba se tornando uma mercadoria que todos procuram sem ter a garantia de que conseguirão o que estas empresas disfarçadas de Centros Universitários prometem: a tão almejada ascensão social. O segundo fator que pode ser observado é a prostituição do conhecimento que vem crescendo vertiginosamente, sendo estas empresas educacionais, grandes cafetões do ensino. Estas estimulam um capitalismo predatório, e incentivam aqueles que deveriam ser companheiros de equipe a se tornarem inimigos ávidos para extinguir o outro, na busca incansável por uma maior visibilidade e alcançar os altos graus da hierarquia social. Pobres e coitados deixam para trás um grande cemitério de excelentes profissionais que vai sendo formado semestre após semestre, profissionais que são eliminados, um verdadeiro genocídio.

 

 

 

Para ilustrar esta temática indico o belíssimo livro Cisne Negro, de Nassim Nicholas Taleb, que dá um excelente exemplo da perversidade que ele chama de evidência silenciosa: “Presuma que você seja capaz de encontrar uma grande e variada população de ratos: gordos, magros, doentes, fortes, bem proporcionados… com esses milhares de ratos, você constrói um grupo experimental heterogêneo que representa bem a população geral de ratos. Você leva os ratos a um laboratório e colocamos todos em um grande tanque. Sujeitamos os ratos a níveis cada vez mais altos de radiação. Em todos os níveis de radiação os que são naturalmente os mais fortes sobreviveram; os mortos serão excluídos da amostragem. Teremos progressivamente uma coleção cada vez mais fortes de ratos. Observe o seguinte fato central: cada rato, incluindo os mais fortes, estará mais fraco depois da radiação do que era antes”.

 

 

 

Este exemplo ilustra o que estas empresas que se dizem educacionais fazem. Elas submetem os seus funcionários a um alto nível de stress, e não se dão conta que mesmo aqueles que eram os mais fortes no início estarão seriamente comprometidos no final do processo. Um dos dispositivos de poder que utilizam é avaliação institucional. Taleb afirma: “Não existe uma medida absoluta do que é bom ou ruim. O que importa não é o que você está dizendo para as pessoas e sim como está dizendo”.

 

 

 

 

Taleb nos conta o seguinte case: “Nero quando trabalhava como operador para um banco de investimento precisou encarar o típico formulário de avaliação de empregados. O formulário deveria acompanhar o ‘desempenho’, supostamente para controlar empregados preguiçosos. Nero considerou a avaliação absurda porque ela não só não julgava a qualidade do desempenho do operador, como também o encorajava a entrar no jogo trabalhando em função de lucros a curto prazo às custas de possíveis explosões – como bancos que fazem empréstimos tolos que tem uma pequena probabilidade de explodir porque o gerente de empréstimos está pensando na próxima avaliação quadrimestral. Assim, um dia no começo da carreira Nero ele se sentou e ouviu muito calmamente a avaliação de seu ‘supervisor’.

 

 

 

 

Quando Nero recebeu seu formulário de avaliação, rasgou-o em pedacinhos diante dele. Fez isso muito lentamente acentuando o contraste entre a natureza do ato e a tranquilidade com que rasgava o papel. O patrão observou, branco de medo e com os olhos esbugalhados. Nero concentrou-se não-dramático e em câmera lenta, sentindo-se elevado tanto pela sensação de estar defendendo o que acreditava quanto pela estética da execução. A combinação de elegância e dignidade era revigorante. Ele sabia que ou seria despedido ou que o deixariam em paz”. Fica a reflexão: Quem de nós será o herói trágico e que irá agir da mesma maneira?

 

 

 

 

*Dr. Wellington Lima Amorim é professor

 





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