Depois do êxtase o abismo…

Leia a última parte da história de Manuela

 

Aqueles dias de encantamento passados com seu amor junto ao mar nadavam como peixinhos dourados pelos olhos da alma de Manuela em todos os momentos em que de seu trabalho ela conseguia se desligar. Os amigos notavam aquele olhar brilhante, aquele quase permanente sorriso em seus lábios.

 


Leia a primeira parte desta história

Leia a segunda parte desta história

 

 

Mas junto ao seu êxtase incontido ela enxergava um distante horizonte real… Relances de um sonho impossível perpassavam repentinamente pelas cortinas obscuras de sua mente. Uma bandeira que na distância tremulava alertava-lhe das correntes contrárias que, certamente, adernariam o barco que a sua fantasiosa imaginação tentava levar por desconhecidos mares.

 

 

Marco Vinicius sonhava embrenhar-se nos sertões de um oeste quase norte destes perdidos brasis. Dizia-lhe que lá a terra era propícia, que lá naqueles confins vislumbrava-se o futuro. Incentiva-a, embora bem subliminarmente, que ela também naquele território ainda não desbravado encontraria a razão maior de seu viver, de sua profissão. Que juntos construiriam um mundo novo. Levariam esperanças a tantos seres esquecidos.

 

 

Manuela firmara-se, às custas de muita luta, na posição a que chegara em sua pequena cidade. Amedrontava-a o desconhecido. Já perpassara tantos. Superara a tantos. Teria coragem e tempo na vida para um novo desafio? Longe dos seus? Longe do ninho amigo que com tanto sofrimento e trabalho construíra?

 

 

Ela, enfim, decidira que, enquanto durasse o enlevo, o encantamento, iria vivê-lo. Intensamente. A incógnita do amanhã continuaria sendo a incógnita do amanhã. E continuou feliz em seus afazeres antevendo os momentos de felicidade que junto dele ainda viveria.

 

 

Sabia que estava ficando mais difícil, a cada dia, dele se separar. Sabia que ele já era parte de seu eu. Que o dia do rompimento, quando chegasse iria desmoroná-la. Mas havia tempo. Mais um ano ainda até que ele concluísse a sua graduação. Depois viria ainda a especialidade que ele planejava com muito cuidado. Deixar que o tempo se encarregasse…

 

 

E assim, envolta nesta luta interna que seu eu concreto travava com seu eu abstrato que o garoto, em férias, foi procurá-la. Em momentos roubados no intervalo de seus afazeres eles se encontravam. Rodopiaram por todas as estradas da região. Visitaram capelas e grutas nunca antes vislumbradas por eles.

 

 

Passeavam de barco pelo rio que ficava tão próximo. Acamparam com amigos nas barrancas. Deliciaram-se com peixe assado nas brasas. Extasiavam-se com o som das cordas de um violão bem solado que um colega sempre carregava a tiracolo.

 

 

Marco Vinicius deveria retornar à capital das araucárias. Inscrevera-se para um estágio de férias e precisava ir até a faculdade a fim de pegar uns documentos.

 

 

Manuela iria viajar, ainda antes do Natal, para a capital mineira onde participaria de mais um congresso de sua especialidade. Combinaram um encontro em Curitiba na véspera de sua viagem.

 

 

Ela foi encontrá-lo nas dependências da faculdade. No estacionamento ele veio ao encontro dela. Manuela notou sua postura diferente. Encurvado. Não sorriu ao vê-la. Não lhe deu o beijo de costume. Entrou rapidamente no carro.

 

 

Convidou-a para fazerem um lanche numa nova confeitaria que recentemente fora inaugurada na cidade. Onde deliciosos confeitos italianos eram servidos com um ímpar café expresso.

 

 

Sentaram-se a um canto. O espaço não era grande. Muitas mesas vazias ainda àquela hora.

 

 

E então, meio gaguejando, meio indeciso, meio encabulado, meio sem graça ele tomou as mãos dela e disse que tinha uma história para contar. Esperava que ela o entendesse. Que para chegar a este ponto noites em claro ele passara tentando encontrar as palavras certas para que ela não ficasse magoada.



 

 

Com o coração acelerado Manuela, em silêncio, sem nada entender, apenas ouvia. Mil pensamentos vieram à tona. Ele retornara a um antigo amor mal resolvido? Pediu-lhe que deixasse os redemoinhos de lado e expelisse logo para fora o que de tão trágico tinha para lhe contar.

 

 

Marco Vinicius então desabafou. Que era algo trágico. Sim. Perguntou-lhe se ela se lembrava que da última vez em que na terra deles ele estivera ele tinha ido de carona com um colega. Com um colega de república que na casa dele ficara hospedado.

 

 

A casa da família dele era muito simples. Por fora paredes de alvenaria. As divisões internas em madeira. Paredes simples. O que se falava em um dos quartos ouvia-se perfeitamente no outro.

 

 

Mas, entusiasmado, como a pedir apoio ao amigo pelo amor que estava vivendo com Manuela, detalhes do relacionamento deles ele lhe contou.

 

 

Entreteve-se nas passagens dos dias e noites passados na praia distante. Disse-lhe que era um amor cultuado há anos. Que tinha uma adoração por ela desde a adolescência. Que esperaria agora apenas se formar e levá-la com ele lá para aquelas terras que ficam para além da Serra dos Parecis.

 

 

E mais, muito mais para o amigo ele contou. Segredos e confissões que se fazem apenas para os grandes amigos.

 

 

Na madrugada já estavam os dois a tomar o café para logo pegarem a estrada. Deveriam seguir direto para a faculdade para não perderem a primeira aula da segunda-feira.

 

 

Mal haviam colocado o primeiro gole de café na boca quando, na cozinha, irrompe, com toda a pompa, a irmã mais velha de Marco Vinicius. A irmã que há anos tinha sido amiga de Manuela. A irmã que há um longo tempo com Manuela já não falava mais.

 

 

A irmã mais velha que a sagrada mesada todos os meses lhe enviava. Para pagar o tugúrio onde morava. Para pagar as refeições do restaurante universitário. Para a compra de seus livros e de suas apostilas. Para as despesas de seu dia a dia.

 

 

Sem mais delongas, sem preâmbulos e sem introitos e sem se importar com a presença do amigo ali ao lado ela lhe dá o veredicto final:

 

 

— Ou rompes com ela já ou acabam-se os estudos. Escolha agora. Se continuares com ela terás que criar porcos e plantar milho para viver.

 

 

Ele ainda disse a Manuela que daria um jeito. Que trabalharia como garçom todas as noites a fim de se manter no último ano da faculdade. Mas Manuela sabia que isto seria impossível. Como prestar atenção nas aulas após noites quase indormidas. Como estudar?

 

 

Manuela ouviu quieta e em pânico todas as lamentações de seu amor. Coração disparando, nos doces nem tocou.

 

 

Viu lágrimas nos olhos dele. E com lágrimas ela foi para o aeroporto e só parou de chorar quando teve início o congresso na Capital das Alterosas.

 




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