A década de 70 no Restaurante Pinguim

Escritora volta a lembrar as histórias do lendário restaurante                                                                   

Lenita Fuck*

 

No restaurante Pinguim cansaço não tinha espaço, se tivesse que fazer mais 30 sucos de laranjas, mais 60 mistos quentes, mais 15 bananas split fazia-se, porque o cinema terminou, a excursão chegou e o pessoal estava com fome…

 


 

A impaciência era eliminada entre os clientes e o pessoal do restaurante, porque valia muito a pena esperar e ser bem atendido, errar pela pressa em uma receita seria um desrespeito aos propósitos da casa que visava o melhor, a excelência para seus clientes…

 

 

O “fel” de cada dia era deixado do lado de fora, o cliente era tratado com respeito, porque mais do que cliente, era amigo da família, era como se um membro da família tivesse chegado, pois sabíamos que ele era o sustento do esforço… O amor que unia essa grande família era o alimento diário, era o alicerce dos projetos, dos feitios, dos preparados…

 

 

Enquanto um fazia o chimarrão, outro cuidava do brasido[1]– da carne vermelha – do cheiro da cebola e da gordura do bacon caídos nas brasas de bracatinga aumentando a vontade de saborear aquele churrasco…

 

 

Ao som do cantor Lobo pensavam nos amores, nas tarefas inatingíveis, era um lugar romântico, para sonhar, para amar, para namorar e saborear as delícias da casa…

 

 

Das copas de 70 com Brasil e Itália, sendo o Brasil vencedor por 4 X 1; em 74 na Alemanha e em 78 na Argentina, os clientes tinham direito à assistir os jogos por televisão preto e branco nas mesas M1, M2 e M3, com Bombril na ponta da antena… muitos se juntavam, rezavam, se abraçavam e ali nascia a amizade, mas nunca nenhuma rivalidade…Era o lugar com sentimento patriota, de rapazes felizes e de moças companheiras…

 

 

Foi em 70 que chegou à nossa região o primeiro gravador de videocassete e o Pinguim colocou a disposição de todos um som ambiente, de qualidade e aproveitou a promoção da casa ‘Erlita’ comprando a fita dos Beatles ‘LET IT BE’…

 

 

Já em 1971, as cervejas em latas começam a fazer parte do estoque, e assim a gosto do cliente descobriu-se ‘a loira gelada’, ‘a morena encorpada’ e solta mais uma ‘trincando’…

 

 

Também em 1971, enquanto na frente uma equipe trabalhava a outra descansava assistindo em preto e branco a Buzina do Chacrinha, Clube dos Artistas e Programa Sílvio Santos, Balança Mas Não Cai e Faça o Humor Não Faça Guerra,  também podiam assistir o Jornal Hoje – estreado naquele ano.

 

 

Um dos maiores sucessos internacionais foi a música Have You Ever Seen the Rain, do grupo Creedence Clearwater Revival e o Adelmo, meu irmão, correu na casa Erlita para comprar o disco para tocarmos durante a saída dos matinês nos domingos. Já o grupo Led Zeppelin lançou a sua música mais famosa: Stairway to Heaven, valeu comprar o LP pequeno, o qual foi música de vários casais da época. Música um pouco triste, mas que contrabalança com o sorvete da Kibon, com o lanche X Salada, com a salada de frutas com nata…

 

 

Além desses sucessos houve ainda ‘Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos’ de Roberto Carlos, ‘Amada Amante’ e ‘Detalhes’…

 

 

Os discos de Roberto Carlos eram muito caros, mas mesmo assim foi feita a coleção em compromisso com os clientes, então quando o Pinguim foi vendido, deixaram-se muitos discos para os clientes continuarem a escutar…

 

 

Em 1972, com o sucesso da novela Selva de Pedra a música de Cristiano e Simone foi à música neste ano mais tocada – ROCK AND ROLL LULLABY – B.J. THOMAS, muitos casais começaram a namorar, noivaram e casaram tendo essa música como referência. No Pinguim para os noivados, fazia-se ponche, ou servia-se champanhe e algo para acompanhar – muitos no reservado do Pinguim, uns com família, outros sós, somente o casal… Tudo era muito romântico…

 

 

Lembrando de outros acontecimentos de 1972 que influenciaram o pessoal e os clientes da época do restaurante Pinguim: – Calças jeans e alguns tênis.

 

 

Entre os automóveis que nas ruas Canoinhenses circulavam estavam a Veraneio (montada pela General Motors), o Volks SP (um esportivo da Volkswagen), o Corcel GT (Ford), o Galaxie (Ford) e o Opala Cupê SS (General Motors).

 

 

O principal lançamento foi a Volkswagen Brasília… E como não lembrar do Corcel marrom que fazia manobras radicais em frente ao Pinguim e que o “militar Sapo” ficava a “cata”, ambos eram nossos queridos clientes.

 

 

A TV exibia séries norte-americanas como Família Dó Ré Mi, Batman, Daniel Boone e Terra de Gigantes. Séries mais antigas como I Love Lucy e O Gordo e o Magro eram constantemente represadas e então as conversas eram em torno desses seriados, algumas roupas copiadas e quando tinha um capítulo “final” a televisão voltava para frente do restaurante, assim muitos podiam comer e assistir; Michael Jackson fez sucesso mundial como às músicas “Ben”e “Gotto Be There”, e essas músicas passaram a ser tocadas diariamente no Pinguim.

 

 

Em 1973 passava no cinema de Canoinhas O Poderoso Chefão, que levou ao Pinguim uma “multidão”, faltaram mesas e as pessoas chegaram a sentar no muro da casa da frente e nas escadarias dos correios… Observação: um dos membros da casa ou auxiliar da casa ficava na janela olhando para a praça, quando via que muita gente já estava nas escadas, rumo ao Restaurante ele gritava e todos começavam a fazer rapidamente os lanches, as vitaminas, os frapês… alimentos e bebidas que poderiam ser adiantadas uns 5 minutos…

 

 

Assistíamos Seriados norte-americanos como Daniel Boone, a Noviça Voadora, Kung Fu, Havaí 5 – 0 e Daktari neste ano de 73.

 

 

A série brasileira Shazam & Xerife, com Paulo José e Flávio Migliaccio, fez sucesso entre as crianças e essa era minha vez, do meu irmão Roberto, meu irmão Álvaro assistirem, enquanto minha mãe colocava a batata da maionese para cozinhar, escolhia o feijão e determinava as tarefas para a janta daquele dia.

 

 



As novelas assistidas pelos brasileiros em 1 973 foram Mulheres de Areia (um dos maiores sucessos da extinta TV Tupi), O Semideus, Os Ossos do Barão, Carinhoso, Cavalo de Aço e O Bem-Amado, enquanto essas novelas passavam minhas irmãs e mais 3 ajudantes faziam as encomendas diárias: as 500 empadinhas, os 6 empadões, os 4 bolos e até hoje não sei de onde encontravam tanta força de vontade, capricho e profissionalismo, pois eram comidas muito gostosas e sempre em grandes quantidades, pois não havia outro lugar para fazer, comidas apreciadas por todos de Canoinhas.

 

 

No ano de 74, em 1 de fevereiro, todos pararam para assistir na televisão posta na M1 (Mesa 1) o incêndio no Edifício Joelma, na cidade de São Paulo, deixando 191 mortes e 300 feridos, tragédia que parou o movimento e todos que estavam neste dia no Restaurante Pinguim comeram em silêncio e a música foi desligada.

 

 

Outro fato que aconteceu para mexer com os clientes foi em 6 de outubro: Emerson Fittipaldi conquista o segundo título mundial de Fórmula 1 após conseguir a quarta colocação no Grande Prêmio dos Estados Unidos, a televisão foi colocada ao público nas mesas M1 e M2.

 

 

Entre outras e neste ano o Pinguim passou a ter uma turma fã do Benito di Paula, que cantavam suas músicas e apreciavam uma “gostosa cerveja” até as 2 da madrugada, na R7 (Reservado mesa 7), que saudade!!!

 

 

Em 1975 o Restaurante investe em músicas: A banda australiana AC/DC lança seu primeiro álbum, O guitarrista Eric Clapton lança o seu terceiro álbum solo, intitulado There’s One in Every Crowd, O grupo ABBA lança o álbum ABBA com sucessos como “Mamma Mia!” e “SOS”, já Elvis Presley lança seu álbum de country pop intitulado Today.

 

 

A banda de Paul McCartney, o Wings, lança seu quarto álbum, chamado Venus and Mars, Bee Gees lança sua volta nas paradas de sucessos com o álbum de disco music Main Course, com as músicas “Jive Talkin’”, “Nights On Broadway” e “Wind Of Change”.

 

 

O Pink Floyd lança o álbum Wish You Were Here, considerado por muitos como um dos melhores álbuns da banda e da história do rock progressivo. As mais escutadas da época eram os Bee Gees.

 

 

Em 1976 muitos deixaram de ir ao cinema, pois estavam com uma novidade em casa- surgiu um aparelho “revolucionário”, que permitiu que as pessoas alugassem o filme que quisessem para assistir em casa: o vídeo-cassete, então os lanches, guloseimas e bebidas ou eram vendidas a tarde ou em altas horas da noite… Na época as comidas não eram tão caras, podendo um cidadão almoçar, fazer lanche a tarde e jantar, não havia reclamações quanto ao preço e quanto a qualidade…

 

 

Foi em 1 976 que a Rede Globo levou ao ar a novela A Escrava Isaura e todos assistiam juntamente com a família Fuck no horário das 18 horas; também passava mais tarde as novelas Pecado Capital e Saramandaia.

 

 

O Restaurante Pinguim ficou mais feliz com O grupo sueco ABBA que lançou outro clássico da música internacional: Arrival e Raul Seixas lança neste ano ‘Há 10 Mil Anos Atrás.

 

 

A Rede Globo lança nesta época o programa humorístico Planeta dos Homens… Esses programas influenciaram a vida na época, pois era sobre isso que se falava, as vestes eram copiadas no dia a dia.

 

 

Em 1977 os ‘seriados’ de TV norte-americanos eram exibidos com frequência pela Globo: As Panteras, A Ilha da Fantasia, Planeta dos Macacos, S.W.A.T., Mulher Maravilha e O Incrível Hulk.

 

 

Por falar em novelas, as produções exibidas pela TV Globo em 1.977 foram Locomotivas, Dona Xepa, Espelho Mágico, O Astro (1ª versão), Sem Lenço Sem Documento, À Sombra dos Laranjais e Nina. Havia quatro horários de novela, o último era o das 10h.

 

 

Os brasileiros lotaram as salas de cinema para assistir Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia e Os Trapalhões nas Minas do Rei Salomão, dois filmes brasileiros. Mas foram os norte-americanos Orca, a Baleia Assassina e King Kong que mais sucesso fizeram. A grande estreia dos cinemas foi o primeiro filme da trilogia Star Wars, ou Guerra nas Estrelas.

 

 

Fumar em festas e ambientes sociais como bares e restaurantes era bastante comum. Ninguém ligava para as baforadas alheias. O cigarro chegou a ser associado às pessoas de alto poder aquisitivo e bom gosto. Nas propagandas, pipocavam slogans como O Importante é Ter Charme, O Suave Sabor Internacional, Um Estilo de Vida e Um Raro Prazer. Marcas de cigarro com nomes estrangeiros – Shelton, Hilton, Carlton, Charm, St. Moritz, PallMall e Du Maurier – podiam ser encontradas no Restaurante Pinguim, um detalhe importantíssimo que o estoque era colocado em dia pelo cunhado Moacir ou pela cunhada Mara que ia no Pinguim para conquistar o Adelmo, mais importante ainda é que ela levava sempre bolo para a sogra e para mim, sua cunhada.

 

 

Um dos maiores modismos daquele ano foi a boneca em miniatura que vinha em caixas pequenas, do tamanho de caixas de fósforo. Também foi lançado nessa mesma época o boneco barbudo Falcon, uma sensação entre os garotos. O Falcon era uma espécie de soldado mercenário, que gerou uma imensa linha de produtos com a marca Estrela.

 

 

No ano em que apostou em séries nacionais, TV trouxe a realidade da mulher descasada na série Malu Mulher, estrelada por Regina Duarte. Temas que eram assunto proibido na virada dos anos 70 para 80 ganhavam cores fortes e eram discutidos, as vezes com a tesoura da censura.

 

 

Já em 1979 surgem os slogans “Dá mais vida” e “Abra um sorriso”, associando a marca à felicidade e bons momentos e assim a família Silvino, Verena, Maria Elisa, Eunice, Laurita, Sueli, Virgínia, Adelmo, Martinho, Roberto, Lenita, Álvaro se despendem da Rua Paula Pereira 430 e passam a residir a casa na Rua Barão do Rio Branco 1072, ensinamentos se alastraram, amizades fortificaram-se e a saudade bateu… Bateu muito forte e ficou até hoje um grande aprendizado… Não importa que tipo de provações “tivemos” no Pinguim , mas com ele aprendemos muito, que devemos ser humildes, mas ter vaidade conosco. Aprendemos a ter gratidão a sermos pessoas desprendidas, espirituais e de bom caráter como nossos pais… e disso tudo ficou saudades… Saudades é um sentimento que, quando não cabe no coração, escorre pelos olhos… Escorre muito pelos olhos…

 

 

Deixou saudades e até hoje lições como deixar a massa da bolacha de Natal crescer com bicarbonato, na ação de deixar a “massa podre” com 1/2 de gordura vegetal e 1/2 de margarina, tornando deliciosas empadinhas, no feitio dos Capeletti com recheio com queijo parmesão, na sopa de “Aspargos”, no enfeite com carambolas no arroz à Grega, no cuque, com o uso da noz-moscada na orelha de gato e chuchu com leite, da torta “Marta Rocha”, do bolo “Prestígio”, no fazer o “ponto fio” para cobrir bolachas, na torta “do céu”, no “amor em pedaços”, no “Pão-de-ló”, no “Bolo Felpudo”, no “sorvetão com bolacha champanhe”, no “Ponche de frutas” da cerola virada com 1/4 de copo de pinga, do Strogonoff com alcatra em cubinhos, são ensinamentos que se observa que tudo o que se fazia era de qualidade e lá estavam elas, minha mãe e minhas irmãs mais velhas do que eu. Acordavam às 06h 30min da manhã para iniciar o dia de trabalho que só acabaria às 23 horas para elas… É a elas que eu dedico todo esse texto e aos clientes especiais que tornaram nossas vidas com mais sentido, com mais nostalgia e mais sabor… Obrigada a todos… Beijos no coração.

 

 

[1] Termo utilizado no interior de Santa Catarina e do Paraná, ambos no sul do Brasil e que significam a brasa da churrasqueira.

 

*Lenita Fuck é escritora de Canoinhas

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