Da adversidade, cidade alemã criou incubadora que hoje hospeda 90 empresas

Comitiva no Banco Municipal de Essen/Fotos: Edinei Wassoaski/JMais

Comitiva da Facisc visitou nesta quarta-feira, 26, também, o Banco Municipal de Essen

 

 

BANCO MUNICIPAL

Senti a mudança de cinco horas do fuso horário mais do que pretendia hoje pela manhã. Perdi a hora. Acordei com um dos colegas da missão da Facisc, Rodrigo Busana, batendo na porta. Sem tempo para café da manhã para mim, partimos para o Banco Municipal de Essen. Sim, aqui eles têm um banco que começou pela prefeitura. Isso em 1.841.

 

Chegada no Banco Municipal de Essen

 

Pra minha sorte, em todos os lugares que vamos somos muito bem recepcionados, sempre com direito a mimos que vão de brindes a cafés com maravilhas da culinária local. Aliás, devo aos leitores uma coluna sobre a comida alemã. Tem tudo o que o estereótipo permite – joelho de porco, bife de porco, muita batata e pimenta – mas seria injusto resumir o que se come aqui a isso. O cardápio é bem mais amplo, mas o que gostaria de frisar é o sabor dos alimentos. Aqui come-se uma salada de frutas que aparenta ser igual a qualquer outra que você comeu na sua vida, porém, o sabor não é comparável a nenhuma outra que já comi. É o sabor, o tempero ou algum outro segredo que ainda não desvendei que faz tudo parecer tão gostoso aqui.

 

Comitiva na sala de reuniões do Banco Municipal

No Banco Municipal nossas cabeças começaram a fervilhar logo ao percebermos que, embora nascido da prefeitura de Essen, o banco dá muito lucro. Logo pensei que em 2005 o então prefeito Leoberto Weinert (MDB) vendeu por R$ 1 milhão a folha do funcionalismo de Canoinhas para o Bradesco. Esse contrato de cinco anos foi renovado outras duas vezes. Em 2015, R$ 2,5 milhões foram pagos pela carteira para o Município. Um bom dinheiro, não? Certamente, agora o nobre leitor deve estar pensando o óbvio: Se o banco compra uma carteira de clientes por R$ 2,5 milhões, quanto deve lucrar com o negócio?

Sala de atendimento do Banco Municipal

 

Pensei nisso porque conversando com outros membros da missão e pensando nessa negociação de folha de pagamento não encontrei nenhum motivo para Canoinhas, por exemplo, ter seu Banco Municipal. Os argumentos de estranhamento podem ser muitos: Não dá, imagina o prefeito indicando apadrinhados para cuidar de crédito pessoal, ninguém vai querer depositar dinheiro no banco, etc…

 

Sala de reuniões do Banco Municipal de Essen

Pode ser, mas que, salvo haja algum impedimento legal, seria uma boa ideia, seria. Bancos são os únicos negócios no Brasil que com crise ou sem, sempre estão lucrando, e muito. O Banco Municipal poderia começar tornando compulsórias as contas salário dos servidores públicos municipais. Repare que mesmo com a portabilidade bancária, o Bradesco pagou mais que o dobro do contrato original com a prefeitura de Canoinhas.

Prefeito de São Lourenço do Oeste, Rafael Caleffi, entrega pasta da Facisc ao nosso anfitrião no Banco Municipal

 

Neste banco, prefeito e vereadores têm poder de decisão. Quem melhor que o prefeito e os vereadores para atender os interesses da população? Para esta pergunta o brasileiro ri. Já os alemães respondem: ninguém.

 

 

 

INCUBADORA

Na década passada a Universidade do Contestado (UnC) Canoinhas fundou uma incubadora mista para estimular novos negócios. O local construído no campus Marcílio Dias não prosperou por falta de interessados.

 

Comitiva na incubadora de Essen

Três Barras tentou o mesmo. Ao contrário da incubadora da UnC, onde o empresário pagava uma taxa de utilização, lá não se pagava nada. Com pouca procura o local acabou virando a atual sede da Câmara de Vereadores.

 

Parte da incubadora de Essen

Os dois exemplos de fracasso são um triste contraste ao que vimos aqui em Essen. Como já escrevi em colunas anteriores, Essen precisou se reinventar no fim dos anos 1980 por causa do fim da exploração do carvão. O Consenso de Essen, algo que o programa DEL, que vem sendo implementado pela Facisc, tenta fazer em regiões deprimidas economicamente de Santa Catarina, definiu entre tantas alternativas a criação de uma incubadora.

 

Comitiva na incubadora de Essen

A ideia foi implementada em um complexo carvoeiro. Os prédios escuros onde antes se beneficiava o carvão hoje têm cores e cenários bem diferentes com uma gama de 90 empresas em fase inicial que tentam ganhar musculatura com o apoio de um comitê de gestores que ajuda a impulsionar os negócios. Os prédios foram todos reformados e adequados para receber os novos investimentos. A incubadora é uma empresa como qualquer outra. O Município já empatou dinheiro ali, mas hoje a Sociedade Anônima por onde já passaram 400 empresas em 20 anos tem vários acionistas e funciona com as próprias pernas. Os clientes pagam aluguel pelos espaços, mas com satisfação. Há gente na fila por um espaço e obras de ampliação já começaram. O lucro é reinvestido na incubadora. “Como a empresa vai se sustentar se o dinheiro só sai? “, pergunta Stefan Kaul, executivo da incubadora sem entender direito como daria certo um modelo de incubadora como o de Três Barras.

 

Incubadora tem até empresa de treinamento cirúrgico para novos médicos

Visitamos três das empresas atualmente incubadas no local. Uma delas treina médicos recém-formados em cirurgias. Há cadáveres doados em vida por quem se colocou a disposição da Medicina no pós-morte para que esses profissionais treinem. Outra empresa trabalha na área mecânica e a terceira, na criação de camarões. Todas de sucesso. “Não vai ser água e luz barata que vai levar uma empresa ao sucesso”, frisa, no entanto, nosso guia e tradutor, Andreas Dohel. Tem muito mais que isso na incubadora de Essen.

 

 

De fato. Isso começa pela seriedade e pelo planejamento com que os alemães parecem tratar tudo que se propõem a fazer. Acima de tudo há um pensamento coletivo que não sei se é reflexo de duas guerras em um século, da cultura, da educação familiar, escolar ou uma somatória de tudo isso.

Empresário hospedado na incubadora mostra como cria camarões

Ulrich Meyer, nosso sábio guia aqui em Essen, disse algo no almoço de ontem traduzido pelo colega Valmor que me marcou: “O problema de vocês brasileiros é que a minha ideia é sempre a melhor”. Como haver consenso?

Presidente da Acic Canoinhas, Reinaldo de Lima Jr, entrega lembrança ao executivo da incubadora, Stefan Kaul

Uma das coisas que se colocou como prioridade no Consenso de Essen é que não se aprova nada na ausência de algum membro. Afinal, consenso é a concordância de todos os envolvidos no processo. Mais uma bela lição.

 

 

 

STARLIGHT EXPRESS

Assistimos para fechar o dia de ontem à montagem alemã da peça da Broadway Starlight Express. O musical de Andrew Lloyd Webber  já saiu de cartaz nos Estados Unidos, mas aqui na Alemanha está em cartaz desde 1988. Só não tem sessões às segundas. A de ontem, como várias, segundo me contou Andreas, que já viu mais de 20 vezes o espetáculo, estava lotada.

Divulgação

 

Na história, toda contada com os artistas sobre patins, o trem de uma criança magicamente ganha vida e os vários motores competem para se tornar o “motor mais rápido do mundo”. Rusty, o trem a vapor, tem pouca chance. Perde, sofre, mas movido por uma motivação estelar luta contra candidatos aparentemente com mais chances. Curioso como na versão alemã (desconheço, mas duvido que na versão americana seja assim), o antagonista é um americano, todo topetudo, arrogante e metido a galã. O espetáculo tem mais de 30 anos aqui na Alemanha, mas impossível não pensar na caricatura da América de Donald Trump.

 

 

Os alemães mais uma vez nos surpreenderam. O espetáculo é impecável em todos os aspectos. Até nos bancos da plateia, impecavelmente limpos no encerramento do show.

 

 

O dia hoje foi quente, mas nem tanto quanto ontem. Amanhã há previsão de pequena queda na temperatura. Último dia cheio aqui em Essen. No sábado voltamos para o Brasil.




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