Coringa é de direita ou de esquerda?

Polarização do discurso político no Brasil tem alimentado a polêmica

 

DÚVIDA


Acima de tudo, Coringa (em cartaz no CineMax Canoinhas) é cinema de ótima qualidade. Roteiro, direção, interpretação já antológica de Joaquin Phoenix, caracterização, enfim, dá pra cravar como um dos melhores filmes do ano. Era difícil imaginar que depois de Heath Ledger alguém conseguiria superar a construção do sombrio personagem. Pois Phoenix consegue. Palmas para ele.

 

 

 

Passadas algumas semanas de estreia do filme, muita coisa foi escrita sobre ele. Sem muito material para detoná-lo, o que muita gente gosta de fazer, começou-se um exercício que virou modinha no Brasil nos últimos anos: afinal, Coringa seria um produto da direita ou da esquerda. Vixi, assunto espinhoso, mas devo confessar que não parei de pensar nos rumos que o Brasil vem tomando ao ver o filme.

 

 

 

Pensava nisso quando li a Folha de S.Paulo desta quarta. Gregório Duvivier (declaradamente de esquerda) escreveu sobre o filme exatamente sob este prisma. “Queria pedir que ninguém visse o filme do Coringa, essa propaganda esquerdista que culpa os ricos pela miséria e trata a psicopatia como uma doença social”, ironiza o colunista para tascar, logo em seguida, a versão do “proíba-se” para um esquerdista: “Queria pedir que ninguém visse o filme do Coringa, essa obra fascista que faz apologia ao armamento da população e encarna ódio da classe média que, não conseguindo ascender socialmente, adere à violência gratuita”.

 

 

 

Genial. Os dois lados do polarisadíssimo Brasil concordam em discordar. Você, vendo o filme, pode concordar com um dos lados ou bancar o isentão, como sugere Duvivier.

 

 

 

 

Antes de ver Coringa, no entanto, saiba que o filme mostra de fato um personagem desajustado, feio, depressivo e sinistro, que esconde seu semblante carregado atrás de uma maquiagem de palhaço. Arthur Fleck trabalha para uma empresa que aluga a atuação de palhaços para as mais variadas tarefas, que vão de festas infantis a segurar placas em frente a lojas a fim de chamar a freguesia.

 

 

Arthur fantasia com uma vida melhor, uma namorada, a ascensão profissional, dinheiro o suficiente para poder jantar fora de vez em quando. A realidade é bem mais dura. Ele apanha da vida literalmente, sofre com descobertas que mostram que nem sua origem é menos deprimente, é despedido e, então, resolve dar seu grito de “f***-se o mundo”. 

 

 

 

O radicalismo com que, mesmo sem a intenção, Arthur acaba enfrentando o sistema, desperta uma revolução. Estão aí o Chile e a Bolívia para provar que o gatilho da convulsão social está sempre pronto a disparar. Na fictícia Gothan esse gatilho é um misterioso palhaço que comete um crime como reação a um mundo injusto que o trata como lixo.

 

 

 

Nasce um anti-herói cheio de razão ou um psicopata sanguinário e narcisista?

 

 

 

Na contramão da irônica sugestão de Duvivier, sugiro que vejam o filme e tirem suas próprias conclusões.

 




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