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Confidências entre as luzes do Natal

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Toda a chácara e a mata no entorno era uma intensa planura suspensa coalhada de minúsculas luzes a piscar

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Em suas mãos a taça de espumante a refletir miríades de minúsculas luzes que entre os galhos dos arbustos iluminavam o jardim.

Pés descalços a sentir a carícia da relva umedecida pelas primeiras gotas de orvalho de uma noite morna. Sobre o corpo apenas a tênue túnica que o tépido vento fazia ondular ao ritmo de seus passos. Elevou a taça aos céus e com os deuses do além brindou pelas luzes, pelas cores, pelos sons, pela vida…

A casa toda respirava o ar do Natal. Mais alguns dias e aquele espaço estaria pulsando vida intensa. Já ouvia os risos felizes de todos os seus amados. Ouvia a algaravia dos pequenos a olhar para o pinheirinho enfeitado, para o presépio iluminado lembrando Belém.

Pinheirinho de Natal! Para ela sempre seria o pinheirinho de Natal. Árvore de Natal, palavra sem graça para definir a grandiosidade envolvente do pinheirinho de Natal de sua infância… de sua vida.

A casa toda incorporava a feliz sensação de um viver em outras galáxias, distante das vilanias terrenas. Em cada canto, em cada ângulo as lembranças de natais imorredouros. Colecionara lembranças natalinas de tantos lugares por onde andou. Carinhosamente guardava-as o ano inteiro. Como rosas vermelhas que desabrocham apenas na mágica época que antecede a vinda d’Ele, retira-os dos escaninhos e espalha-os, indiscriminadamente, pelas bancadas e paredes de seu amado tugúrio.

Há poucas horas finalizara a decoração de seu lar. Deixara-se tomar pelas emoções ao colocar cada coisa em seu lugar. Tudo brilhava, tudo reluzia. Já empacotara todos os presentes para todos os seus. Familiares e agregados. Colocara-os sob a árvore, feericamente iluminada. Bolas e fitas coloridas, duendes e anjos, os clássicos enfeites natalinos a pender em todos os ramos. Não era mais o pinheirinho natural que em outros tempos buscavam nas matas dos arredores. Mas era um artificial pinheirinho mágico com mais de três metros de altura e larga saia rodada na base. Incontáveis jogos de luzinhas a piscar intermitentemente faziam-na, a cada momento, lançar seu imaginário voo para esferas mais distantes.

Na sala soavam as clássicas melodias natalinas de todos os tempos. Deixara o velho toca-discos ligado. Seriam muitas horas de aleatórias orquestras e coros a entoar as mais diversas variações em torno dos tradicionais temas.

O sereno da noite não a molestava. Tornou a encher a taça de cristal com o seu Asti italiano preferido. Sentou-se na cadeira do jardim ao lado do jasmineiro que ostentava suas perfumadas flores.

Aquele aroma entrou em sua alma. Com ele e através dele os sonhos de outrora afloraram em sua mente. Mesclaram-se com realidades venturosas.

Sua imaginária nave espacial levava-a a mundos fantásticos. Olhos semicerrados. Era como se olhasse para dentro de si mesma. Parecia flanar acima das nuvens. Toda a chácara e a mata no entorno era uma intensa planura suspensa coalhada de minúsculas luzes a piscar.

O silêncio total dominava a noite que corria longe. A lua fazia seu trajeto noturno e de seu zênite sorria para o mundo. Algo fê-la abrir os olhos. Pensou que fossem os grilos da noite. Ou o piscar dos vagalumes que por ali concorriam com as luzinhas artificiais. Pensou em encher sua taça uma vez mais. Desistiu. Era hora e entrar em casa. Foi quando ouviu mais forte o ruído de um veículo a motor. A casa ficava a bem mais de um quilômetro da estrada rural mais próxima. Não houve tempo de recolher-se. Era um carro esporte, conversível, vermelho, de capota arriada. Já se encontrava quase rente à porta de entrada. Em pânico, retesou-se e ficou à espera. Mentalmente se deu conta de que assaltantes não apareceriam em um carrinho daqueles. Em sua mente surgiu a imagem de uma velha amiga amante daquele tipo de veículos.

— Mas não pode ser… Não pode ser ela. Não viria de tão longe num carrinho desses. E como teria me descoberto aqui!

Logo dele emerge a visitante noturna. Um vulto carregado de dor e cansaço joga-se em seus braços a soluçar.

Foi a noite mais longa de quantas tenha lembranças. A exaustão física pela longa viagem —desde o rio Ji-Paraná para além da Serra dos Parecis até a chácara da amiga onde acabara de chegar — parecia haver se dissipado milagrosamente após um banho e por conseguir, como se suas palavras descessem em cascata, falar da dor que a consumia.

— Sabe, amiga, fiz esta longa jornada pois sei que só sobre você poderei despejar meu infortúnio. Nesses tempos tumultuosos com mais ninguém poderei contar.

E então ela começou a contar o final de sua história. O começo a amiga já conhecia.

“Estávamos felizes trabalhando com os indígenas que habitam a região para além da Serra dos Parecis. Muito ensinamos e muito aprendemos.  Tínhamos a nossa própria morada. Nosso grupo atendia várias aldeias naquela imensidão de águas e mata. Pessoas de várias partes de nosso país e também do exterior. Médicos, dentistas, enfermeiros, professores, biólogos, historiadores, poetas, escritores. Enfim um grupo heterogêneo. Por vezes ficávamos até uma semana longe de nossa sede. Alguns a pesquisar aquela fauna e aquela flora tão diversificada e fabulosa. Outros, como eu, dedicando-se a melhorar a saúde daquele povo.

Contávamos com a colaboração de índios que conheciam palmo a palmo toda aquela região. Vivíamos felizes. Uma alegria imensa sair a campo. Uma alegria imensa regressar ao nosso lar. Lá ninguém nos olhava como se fôssemos uma aberração. Ficávamos de mão dadas à frente de todos. Não éramos as únicas. Vivíamos no paraíso.

Ela aprofundava-se no livro que estava a escrever. Não seria uma história de ficção. Seriam relatos verdadeiros da vida, dos costumes, do culto às entidades místicas dos povos da floresta, enfim tudo devidamente catalogado, gravado. Um profundo trabalho a que se dedicava com extrema dedicação.

Eu atendia os males físicos de toda aquela população ribeirinha. Tínhamos, posso dizer, até um pequeno hospital montado dentro de nosso barco. Não deixávamos ninguém sem atendimento. Era uma vida maravilhosa. Todo mundo fazia o que mais amava fazer na vida.

No retorno ao nosso tugúrio encantado era a nossa vida particular a mais doce das vidas. Alimentação era fácil e farta. Abundância das mais variadas frutas tropicais. Variação em peixes e até carne de caça recebíamos dos amigos índios.

Meus dias sempre findavam num cansaço físico extremo. As águas tépidas das cascatas, ao largo de nossa aldeia, aliviavam qualquer estafa. Sob os eflúvios aquosos, abraçadas, nossa mente sentia a frescura do amor.

Era lá que passaríamos o resto de nossas vidas. Era…

Há algum tempo já que eu notara nela um comportamento diferente. Não sorria de longe sempre que nos encontrávamos no final do dia. Não havia mais aquele brilho em seus olhos ao cruzar com os meus.

Dizia que estava a completar suas pesquisas. Na semana anterior findara a obra de sua vida. Passava as noites a revisar seu livro. Dizia que mandaria os originais para uma editora que mostrara interesse em publicá-lo.

Os insetos voadores imaginários começaram a corroer a minha mente. Esta mudança tivera seu início imediatamente após a chegada de novas pessoas com a finalidade de colaborem com o nosso grupo. Entre elas uma exuberante italiana da região de Palermo. Escritora, poetisa. Viera mais para inspirar-se na floresta do que realmente para exercer alguma atividade. Uma diva milionária muito linda em busca de aventuras. Foi o que pensei. Mas jamais eu pensaria que entraria fundo em nossas vidas.

Na última noite em que passamos juntas pressenti mais do senti que aquela seria a nossa última.

Ao perguntar-lhe se tudo estava bem, por alto respondeu-me que estava ansiosa a esperar a resposta definitiva da editora. Foram as últimas palavras que dela ouvi. Adormeci com ela a meu lado. Acordei com a solidão a rodear-me. Deve ter saído de mansinho, silenciosamente.

Na mesa da cozinha um lacônico bilhete de adeus. Onde escreveu algo mais ou menos igual ao velho “Foi bom enquanto durou”.

Imagino que no correr do dia já havia levado sua parca bagagem para algum local distante. Eu nada percebera quando, à noitinha, regressei ao nosso cantinho.

Tentei continuar meu trabalho. Não conseguia concentrar-me. Sabe, em nossa profissão é preciso que tenhamos todos os sentidos em alerta o tempo todo. Pois deles depende a vida de nossos semelhantes. Não podemos falhar. Todos entenderam o meu estado de alma. Solicitei um afastamento. Sem data de retorno. Arrumei minha pequena trouxa. Um barco levou-me até a pequena cidade onde deixara guardado o meu velho carrinho esporte. Demorei-me lá um pouco para que um mecânico o deixasse em condições para eu encetar esta longa viagem. E agora aqui estou. Você me aceita como sua ajudante na clínica por uns dias? Prometo chorar a cada dia menos. Mesmo porque a seu lado eu me sinto em casa.”

Amanhecera. As minúsculas luzinhas continuavam a piscar entre os ramos dos arbustos do jardim. O pinheirinho iluminado parecia abraçar, sorrindo, as duas amigas que cochilavam no sofá.

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