Como se fazia um jornal


Pela memória minha divagam imagens de um tempo que muito tempo decorria entre os meus rabiscos e a chegada da edição

 

 

 

 

O meu pensamento, em forma de palavras que vão tomando forma, viaja agora rápido pelo espaço e, em instantes, o mundo as lê. Quase inacreditável a velocidade de tempo decorrido entre o que está em minha mente e a chegada às mentes de quem por estas linhas o olhar percorre.

 

 

E assim pela memória minha divagam imagens de um tempo que muito tempo decorria entre os meus rabiscos e a chegada da edição (que era apenas a impressa) do jornal aos olhos dos leitores.

 

 

 

Divagações do agora, desenterradas em maravilhosa noite passada entre estudantes de jornalismo da UNIUV, para onde o amigo Edinei, editor deste nosso fantástico JMais, me levou. E onde, para olhares e ouvidos ávidos, interrrogantes e interessados fui relembrando, explicando e contando e tentando mostrar o caminho que se fazia para colocar um jornal nas bancas antes desta extraordinária era da informática.

 

 

 

A busca pela matéria, a corrida pelo ineditismo, a ânsia de, em primeira mão, divulgar a tragédia ou a comemoração, o triunfo ou a derrota, a novidade ou a transformação, quem no momento está ou é mais quem, este eterno o que, como, quem, quando, onde, continua igual. A diferença está na maneira e no tempo em que os acontecimentos chegam aos leitores.

 

 

 

Falo do tempo em que eu estudava em Curitiba e escrevia para o jornal “O Dia”, um diário daquela capital que há tempo deixou de circular.

 

 

 

As imagens eram captadas in loco pelas modernas máquinas fotográficas de então, as famosas Rolley-Flex. E os fotógrafos carregavam em seus coletes providos de imensos bolsos, rolos e rolos de filmes de alta densidade para, dentre dezenas de imagens, escolher a de melhor ângulo que iria ilustrar uma reportagem, uma história, uma crônica.

 

 

 

 

E o laboratório para revelar os filmes e fazer as cópias era parte do contexto da editora do jornal. As fotos escolhidas eram encaminhadas a outro setor, a clicheria, onde as imagens eram fixadas em metal, os clichês. Que eram encaminhados para as impressoras acompanhando as páginas datilografadas pelos repórteres e redatores.

 

 

 

A redação do jornal era um local enfumaçado e barulhento. Fumaça dos cigarros (porque quase todo mundo fumava naquela época) e fumaça que emanava dos cérebros que ali queimavam neurônios no afã de bem escrever. E o ruído era o ruído gerado pelo bater das teclas das máquinas de datilografia, das nossas velhas e enormes Remingtons que, amorosamente chamávamos de canhões. Mas não era o estrondo dos canhões o que ali se ouvia.

 

 

 

 

Se algum desavisado lá pela redação aparecesse, jogar-se-ia no solo arrependido já por não estar portando um colete à prova de balas. Porque o ruído de nossa sala de redação, assim como o ruído de todas as salas de redação de todos os jornais do mundo era semelhante ao ruído de uma rajada de balas disparada pelas metralhadoras do bando de Al Capone em ferrenho ajuste de contas com gangues inimigas.

 

 

 

Garrafas térmicas de café preto circulavam no meio daquele ir e vir sem cessar. A azáfama maior era sempre no período noturno e na madrugada adentro. E toda redação de jornal que se prezasse teria que ter na esquina um bar para anuviar o pensamento do povo que escrevia, do povo que fotografava, do povo que respirava o tóxico ar da oficina.

 

 

 

 

As tardes eram mais calmas. Era o período em que os colunistas mais afortunados e abonados apenas entregavam a matéria que redigiam em seus próprios territórios ou em que outros, como eu, escrevinhávamos as nossas.

 

 

 

As notícias do país e do mundo chegavam por telex enviadas por agências especializadas como a France-Press, United-Press e outras e com as palavras captadas e impressas em estreitas tiras de papel.

 

 

 

 

E laudas e mais laudas datilografadas amontoavam-se na mesa do chefe de redação que ia dando o seu aval. Que anotava nas margens o tamanho das letras, a largura e a altura que deveriam ter as colunas. E a largura era dada em uma medida peculiar, o cícero. E assim as linhas datilografadas seguiam para a oficina. E se transformavam em linhas de chumbo nas grandes máquinas linotipo.

 

 

 

Linotipo, a máquina que veio substituir o trabalho manual de catar letra por letra com a finalidade de formar uma página de jornal. Enormes máquinas que trabalhavam sem cessar transformando chumbo derretido em placas com letras de vários formatos e tamanhos. Enormes máquinas que revolucionaram o modo de se fazer um jornal. Enormes máquinas que a descrição de seu mecanismo aqui e agora, além de ser longa, tornar-se-ia enfadonha até. E os interessados a encontrarão facilmente na internet.

 

 

 

 

 

As colunas formadas pelas linhas de chumbo carregadas de palavras eram então, junto com os clichês, distribuídas pelas grades do jornal a ser impresso em um desenho executado em primorosa elaboração. Era a diagramação. E os gráficos, seguindo este roteiro, este desenho, iam preenchendo estas grades que, depois de passarem pela impressora, comporiam as páginas do nosso diário.

 

 

 

 

 

As impressoras de meu tempo já eram rotativas que imprimiam todas as páginas que já iam se amontoando na correta forma de jornal. Que já seriam embalados em fardos e encaminhados para as bancas, para as livrarias, para os domicílios dos assinantes ou para os correios que as levariam para os mais longínquos locais, as mais longínquas cidades.

 

 

 

 

Muitos anos depois eu passei a escrever no jornal “Barriga Verde” de nossa terra. Mas esta já é uma outra história.

 

 

*Publicado originalmente em maio de 2015





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