Como as vacinas contra covid foram feitas tão rapidamente?


Tânia Rêgo/Agência Brasil

O que isso significa para o avanço da Ciência?

 

 

Em meio à um novo surto de vídeos, áudios e comunidades digitais pregando “fake news” e muita desinformação sobre um tema tão importante, achei prudente trazer um resumo das informações publicadas na revista Nature dessa semana, para contribuir com um pouco de Ciência em meio à tanta “opinião”.

 

 

 

Em 2020, a vacina da Pfizer – BioNTech se tornou a primeira imunização totalmente testada a ser aprovada no prazo de menos de um ano. Antes da covid-19, a vacina contra caxumba na década de 1960 havia sido a vacina mais rápida já desenvolvida no mundo: levara quatro anos, desde a amostragem viral até a aprovação.

 

 

 

 

Mas, é importante o cidadão comum entender que o mundo só foi capaz de desenvolver vacinas covid-19 tão rapidamente devido a quatro questões principais:

 

 

 

 

  1. Anos de pesquisas anteriores sobre vírus relacionados;
  2. Existência de tecnologias para fabricação de formas mais rápidas para vacinas, em especial, as de uso de RNA mensageiro;
  3. Financiamentos enormes que permitiram às empresas realizar vários testes em paralelo;
  4. Órgãos reguladores agindo de forma coordenada e mais rapidamente do que o normal.

 

 

 

 

Além disso, a pesquisa que ajudou a desenvolver vacinas contra o novo coronavírus não começou em janeiro. Durante anos, os pesquisadores prestaram atenção aos coronavírus relacionados, que causam a SARS (síndrome respiratória aguda grave) e a MERS (síndrome respiratória do Oriente Médio), e alguns trabalharam em novos tipos de vacina – um esforço que agora tem valido a pena.

 

 

 

 

Os pesquisadores também tiveram “sorte” com o SARS-CoV-2 em muitos aspectos. O vírus não sofre muitas mutações ou não tem estratégias eficazes para frustrar o sistema imunológico humano, ao contrário do HIV, do herpes ou mesmo da gripe. O vírus do herpes, por exemplo, bloqueia ativamente a ligação de anticorpos, o que torna mais difícil encontrar um agente eficaz contra ele. E a rápida mutação dos vírus da gripe requer uma formulação de vacina diferente para cada temporada de gripe.

 

 

 

 

 

Além disso, a parte mais lenta do desenvolvimento da vacina não é encontrar tratamentos, mas testá-los. Isso geralmente leva anos. O teste humano, por exemplo, requer três fases que envolvem um número crescente de pessoas e custos proporcionalmente crescentes. As vacinas covid-19 passaram pelos mesmos testes, mas os bilhões de dólares investidos no processo possibilitaram que as empresas corressem riscos financeiros realizando alguns testes ao mesmo tempo!

 

 

 

 

Com grandes somas dadas às empresas de vacinas por financiadores públicos e filantropos privados, eles poderiam fazer testes pré-clínicos e de fase I, II e III, bem como fabricar, em paralelo, em vez de, sequencialmente. A ciência da vacina não teria produzido resultados tão rápidos sem este financiamento. Isso não aconteceu com nenhum outro patógeno até hoje. No caso da covid-19, o dinheiro só se materializou desta vez porque todos os países, inclusive os ricos, enfrentaram uma devastação econômica.

 

 

 

 

Outro ponto importante é que as grandes empresas farmacêuticas podem ter sido motivadas não apenas pelo desejo de interromper a pandemia, mas também pela oportunidade de os governos financiarem sua pesquisa e desenvolvimento. Dessa forma, todos se dedicaram ao extremo, pois nunca houve um pacote de estímulo governamental para as empresas farmacêuticas como neste caso.

 

 

 

 

 

No entanto, mesmo o dinheiro sendo fundamental, nada disso teria ocorrido tão rápido se já não fossem existentes infraestruturas nacionais e globais que atuam há quase duas décadas em prol do desenvolvimento de vacinas mais rápidas para vírus letais. Existe uma coordenação global de cientistas, universidades e empresas que atuam no combate à surtos como o Ebola e Zika. Em outras palavras, nenhuma quantia de dinheiro ajudará sem uma plataforma sólida de ciência básica para construir. O extraordinário sucesso das vacinas covid-19 é um bom exemplo do que a ciência pode fazer muito rapidamente, mas não aconteceu da noite para o dia.

 

 

 

 

Isso, por outro lado, não garante que outras doenças possam ter resultados tão promissores da mesma forma. Repetir esse sucesso rápido exigirá financiamento maciço semelhante para o desenvolvimento, o que provavelmente ocorrerá apenas se houver um senso comparável de urgência social e política.





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