Clave científica: a harmonia dos interesses humanos


Com as transformações sociais ao longo da história emerge um novo cenário no meio acadêmico

 

 

Ingrid Trapp*

Reginaldo Antonio Marques dos Santos**

 

“O que é ciência afinal?” é o título do livro escrito pelo filósofo britânico-australiano Alan Francis Chalmers publicado no Brasil em fins do século XX. Embora pareça simples, a pergunta que intitula a obra é fruto de intensos estudos e reflexões que levam a uma infinidade de questionamentos, dentre eles: a ciência pode ser comparada à religião? Há uma hierarquia dentre as disciplinas que compõe os quadros de estudos no meio científico? Admitir verdades científicas significa negar outras? A ciência é fruto de interesses humanos? O que é ciência afinal?

 

 

 

 

A abordagem disciplinar foi se consolidando isoladamente até fundamentar seus “alicerces”, ou seja, as bases da sua estrutura conceitual dentro de cada campo individualmente e no âmbito da pesquisa se concretizando em uma abordagem multidisciplinar. Com as transformações sociais ao longo da história e o avanço do conhecimento científico emerge um novo cenário no meio acadêmico, a necessidade de abordagens interdisciplinares para buscar respostas aos paradigmas da modernidade. As disciplinas em uma abordagem interdisciplinar podem ser comparadas a uma condição orgânica, onde os elementos se relacionam e/ou se complementam coexistindo no mundo material. Dentro desta prerrogativa a pesquisa se torna mais consistente em um ornamento simétrico de conceitos nômades, ou seja, que transitam em várias esferas do saber. A pesquisa em uma abordagem interdisciplinar, portanto, pode ser “pensada” ou comparada com uma orquestra. Nesta abordagem, o músico (pesquisador) não precisa saber “tocar” todos os instrumentos (disciplinas), mas especializar-se no seu instrumento (especialização na área de conhecimento) e dentro de uma escala simétrica interagir com os demais músicos e instrumentos (áreas distintas), para compor dentro de uma sincronia através do ornamento organizado pelo maestro (orientador ou orientação) um resultado satisfatório e harmonioso.

 

 

 

 

Considerando tais questões musicais podemos pensar a ciência (também) a partir dos riscos de vínculo aos próprios sentimentos, emoções. Ao elaborar uma playlist, por exemplo, tendemos a escolher as músicas adequadas para o momento, de acordo com o nosso gosto pessoal, modo de ser e estar no mundo. A música para a balada, para a festa infantil, para um momento de oração, etc. Todavia, se houver um instrumento desafinado na orquestra, se executar uma música de balada no culto religioso, se utilizar o próprio gosto de forma amplamente aceita em determinado evento sem conhecimento prévio, são situações que os resultados podem não chegar de forma satisfatória. Assim como o resultado do trabalho musical da orquestra ou do sucesso de nossas escolhas para as determinadas situações, no campo científico o pesquisador precisa de amplo diálogo com as mais diversas fontes para alcançar bons resultados.

 

 

 

Neste momento, observando o olhar do governo atual sobre a ciência, esta vem sendo condicionada aos momentos e aos interesses da mesma forma. Seja para fazer pensar algo sobre um assunto, para deixar de financiar pesquisas sob alegações obscuras, para separar as áreas do conhecimento científico como se houvesse primazia de algumas sobre as demais, ou, utilizar partes que interessam de determinada pesquisa científica. Nesta direção, principalmente em tempos sombrios como o que vivemos, o alerta consiste em não comparar ciência e religião (verdades reveladas pela fé, pela crença), pois, a ciência não possui uma verdade absoluta e sim uma parte que pode (e deve) ser amplamente questionada. Embora, (hoje) seja uma das características dos estudos a divisão do que chamamos disciplinas, por outro lado, há uma relação de interdependência que pode ser explorada e trazer bons frutos ao trabalho científico de forma holística. A análise científica não conclui verdades absolutas, visto que muitas vezes o trabalho do cientista consiste em reescrever ou reexplicar algo já apresentado pela própria ciência e que no futuro poderá ser novamente escrito ou questionado. Não obstante, é preciso cautela em relação ao uso da ciência frente aos interesses humanos. Vale mencionar que os campos de concentração da Alemanha nazista não seriam possíveis sem racionalidade científica. Talvez não se possa responder com precisão a pergunta de Chalmers sobre o que é ciência, mas, estar atentos ao que ela não é pode ser um bom exercício neste momento em que fazemos novamente uma grande aposta na ciência para salvar vidas humanas.

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CHALMERS, A. F. O que é ciência afinal? 1 ed, São Paulo: Brasiliense, 1993.

 

MELLO, Adilson da Silva; DOMINGOS, Bianca Siqueira Martins; INCROCCI, Lígia. O processo de construção de uma pesquisa interdisciplinar: simetria e conceitos nômades. Revista Brasileira de Gestão e Desenvolvimento Regional, [S.l.], v. 10, n. 3, set. 2014. ISSN 1809-239X. Disponível em: <https://www.rbgdr.net/revista/index.php/rbgdr/article/view/1470>. Acesso em: 12 jun. 2020.

 

 

 

 

*Ingrid Trapp é professora de Sociologia da Secretaria de Estado de Educação de Santa Catarina (SED). Mestranda em Desenvolvimento Regional pela Universidade do Contestado (UNC). E-mail: [email protected]

 

 

**Reginaldo Antonio Marques dos Santos é professor de Sociologia da Secretaria de Estado de Educação de Santa Catarina (SED). Pós-graduando em Educação e Diversidade pelo Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC). E-mail: [email protected]





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