Cláudia Cardinale na Ilha de Paquetá

Cláudia, ao lado do diretor do filme Franco Rossi, fugindo dos fãs e curiosos em Paquetá/Arquivo pessoal

Adair Dittrich conta sobre o dia em que encontrou a musa do cinema italiano

 

No primeiro domingo do mês de outubro, do ano que se seguia ao do golpe que se transformaria em ditadura militar, ansiosa embarquei com destino ao Rio de Janeiro. Era dia de eleições gerais. Sim, em 1965 ainda tivemos eleições, embora não para a presidência da nação, claro!

 


 

 

No ano anterior eu já começara meus estágios em Anestesiologia na Santa Casa de Misericórdia de Santos. Já participara de jornadas e cursos desta minha então nova especialidade aqui pelas bandas do sul. Já conhecia alguns dos luminares de nossa ciência médica. Mas eu iria participar de algo inédito. Iria participar de um congresso de minha especialidade. Não apenas um Congresso Brasileiro. Também um Congresso da Federação dos Povos de Língua Portuguesa. No Rio de Janeiro.

 

 

De carro até Curitiba. Deixar o meu precioso Gordini estacionado em casa de algum amigo e seguir para o aeroporto. No Santos Dumont, no Rio, aguardava-me o nosso eterno amigo Adir Vilela de Andrade e sua plêiade de filhos. E para a Praça da Bandeira, onde moravam, hospedada por muitos dias eu fiquei.

 

 

Sessão solene de abertura naquela mesma noite. Em pleno Copacabana Palace Hotel. Local que a tudo então sediava. Uma palestra magistral. Orquestra Sinfônica. Depois a recepção com finas bebidas e deliciosos canapés.

 

 

Manhã seguinte madrugar para não perder um minuto da programação científica. O trânsito fluía bem melhor que nos dias de hoje, mas, mesmo assim, era hora de muitos veículos a voar de um lado para o outro. Um trecho na Kombi familiar de seu Adir e depois pelo coletivo até Copacabana.

 

 

Intervalo do almoço dividido em alguns dias entre compras e a memorável piscina do famoso hotel. Em outros em almoços dignos de banquetes em casa de alguns decanos da especialidade.

 

 

Todas as noites algum evento social. Ou do próprio congresso ou jantar especial pelas coberturas dos edifícios à beira-mar.

 

 

Em um desses jantares conheci um grupo de colegas portugueses. Conversas animadas pela noite afora. Claro que conversas entre médicos anestesiologistas versam sempre em torno de casos que dentro do centro cirúrgico se passam. Sempre sobre as dúvidas, sobre o eterno tema “o que fazer” e “o como fazer”.

 

 

Dia seguinte uma pausa na programação científica. Enquanto alguns abnegados participariam da Assembleia Anual de Delegados, a grande maioria faria um belo passeio de barco. Rumo à Ilha de Paquetá.

 

 

Iríamos numa embarcação da Marinha. Da Marinha do Brasil. Quando estávamos reunidos no pier destinado ao embarque ficamos sabendo que a travessia até Paquetá seria realizada em uma das barcas comuns que faziam aquele trajeto diariamente. Ordens superiores. A Marinha do Brasil em prontidão! Afinal, apenas alguns dias eram passados da primeira eleição geral realizada após o golpe militar de 1964. Algo ocorrera que não agradara aos comandantes supremos.

 

 



Francisco Negrão de Lima havia sido eleito governador do estado da Guanabara, do qual o Rio de Janeiro era a capital, por um partido de oposição ao governo central. Esta vitória, bem como a de Israel Pinheiro, em Minas Gerais, precipitou a promulgação do Ato Institucional número 2. Negrão de Lima tinha sido ligado a Getúlio Vargas e fazia parte da mesma turma de Juscelino Kubistchek, não sendo, portanto, o preferido da ditadura. Houve até uma tentativa frustrada, por parte de Carlos Lacerda, para depô-lo, mesmo antes de assumir o cargo. Teria sido esta a razão de deixar a Marinha de Guerra em alerta bem naqueles dias da realização de nosso congresso?

 

 

Enfim, em outra barca que fazia a linha do Rio para Paquetá embarcou a nossa enorme comitiva. Foi uma barca especialmente fretada para nos levar. Foi um verdadeiro tour pela Baia da Guanabara. Ao passarmos pela Ilha Fiscal avivaram-nos a mente sobre o famoso último baile da corte lá realizado. Nem se falava ainda em Ponte Rio-Niterói. Deslizamos pelo mar entre inúmeras outras ilhas e ilhotas.

 

 

Algazarra geral. Joaquim, o recém amigo português que eu conhecera na véspera, a meu lado. Aproximava-nos da Ilha de Paquetá, quando, repentinamente, um grito em uníssono irrompe na barca. Um grito suspiroso. Só se ouvia um nome. Cláudia Cardinale! E senti, de súbito, que o barco adernaria. A multidão alucinada correu toda para o mesmo lado da embarcação. Era ela a diva do momento. E lá estava ela. Na ilha. Em carne e osso. Viva e fulgurante.

 

 

Necessária se fez a voz firme do comandante para que a turba alienada retornasse a seus lugares a fim de manter a barca em equilíbrio. Mas teve gente que nem esperou pela atracação. Jogaram-se ao mar na vã tentativa de conseguir uma foto ao lado da grande estrela. Ou um autógrafo, talvez.

 

 

Desembarcamos, por fim. E outra correria. Ao encalço de “La Cardinale” que, pelo braço de Franco Rossi, diretor de cinema, corria para, de alguma forma, livrar-se de tão inusitado e repentino fã clube que invadia, inopinadamente, a ilha, então quase deserta.

 

 

E assim corríamos nós também. Joaquim e eu. O português com sua câmera excepcional a clicar sem parar. Conseguimos ultrapassar Cláudia Cardinale e seu diretor. O amigo português atira-me a sua câmera para que os melhores ângulos eu captasse com ele ao lado da estrela. Depois foi a minha vez de ficar ao lado dela e Joaquim a nos fotografar.

 

 

Enfim, o diretor conseguiu livrar a estrela da turba multa que, incansavelmente, os perseguia.

 

 

Não era chegada ainda a hora do almoço e fomos aproveitar o tempo para apreciar as belas paisagens da romântica ilha. As pedras de beira-mar. Os rochedos mais além. O quebrar das ondas. As palmeiras imperiais.

 

 

Quando nos dirigíamos para o espaço reservado que nos aguardava para o fulgurante almoço à base de frutos do mar chega uma colega em pânico. Ela havia alugado uma bicicleta para percorrer alguns trechos mais distantes da ilha e fora atropelada por um automóvel. Na colisão fraturara os ossos do antebraço. Surpresa geral. Como? Na ilha não circulam veículos a motor. Não, normalmente, não! Mas naquela ocasião única, sim! Era o carro de filmagem da equipe que rodava “Uma Rosa para todos”, cuja estrela principal era a diva atrás de quem o nosso congresso inteiro, como crianças, correu a fim de captar uma foto ou um autógrafo, conseguir um mero sorriso ou um olhar.

 

 

Finalmente nós nos acomodamos no imenso restaurante. E foi então, só então, que o meu amigo Joaquim percebeu que não havia retirado a capa protetora da lente objetiva da sua máquina fotográfica.

 

 

Mas com os fotógrafos oficiais, contratados pela equipe organizadora dos congressos, uma foto eu consegui.

 




Deixe seu comentário: