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agosto

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2022

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Cinco Estações

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Belezas desveladas

As lembranças das viagens que fazemos são aquelas que queremos guardar num local específico e peculiar para que não se desvaneçam e não se misturem às outras, de outros episódios, as quais talvez não sejam tão agradáveis. Assim, quando queremos revivê-las, estarão intactas e suculentas, esperando para voltar à tona e nos motivar.

Se o viajante tiver sensibilidade e domínio da escrita literária, pode transformar seus itinerários em belos e atraentes textos. É isso que a escritora canoinhense Adair Dittrich faz em sua obra “Cinco Estações”, descrevendo suas viagens por diversos rincões do mundo, abordando suas aventuras pelo Paraguai, Uruguai, Argentina, Peru, Bolívia, Cuba, Estados Unidos, Canadá e Itália.

Além de apreciar muito o estilo de Adair, que compreende uma escrita coesa, misteriosa e agradável, também sou apaixonada por viagens. Assim, a leitura dessa obra ampliou minha vontade de conhecer os lugares descritos e revisitar os já percorridos.

Um importante aspecto a ser pontuado acerca dessa narrativa é constatar que, afortunadamente, as palavras podem mudar paradigmas negativos. Pensando assim, seus textos contribuem para romper estereótipos latinos, uma vez que, ao lê-los, é impossível não se envolver com as belezas desse continente. Seguramente, mesmo os mais avessos à Cuba, por exemplo, terão vontade de conhecê-la ao se deparar, entre outras, com a seguinte descrição do mar caribenho:  

Foi então que o vi. Através de uma cortina de palmeiras. Corri entre elas e fui embevecer-me em águas plácidas, cor de esmeralda. Ondas calmas. Águas translúcidas. Límpidas. Areias brancas ao fundo. Fui andando, dentro da água, por muitos e muitos metros. Até poder estender os braços e nadar. Ao longe vislumbrava-se, ainda, a água a chegar apenas na cintura das pessoas. Não era em vão que aquele paraíso era o chamariz de tantos aventureiros em um passado, não muito distante (DITTRICH, 2020, p. 204-205).

E o que é belo se torna ainda mais formoso sob a ótica literária de Adair, como é o caso do Delta do Rio Paraná, a partir do qual a escritora nos enriquece com valiosas informações geográficas. Eu, que sou professora, em todas as minhas leituras e interações, fico imaginando o que pode ser aproveitado para os planos de ensino. Então, ocorreu-me a ideia de que sua obra pode ser usada nas aulas de Geografia, pois seria altamente produtivo apresentar aos alunos as Ilhas do Rio Paraná usando o excerto abaixo:

Descrevê-lo? Como? Imagens de tantas águas e ilhas, emaranhadas ressoam em minha mente, como em circunvoluções de músicas e danças de fadas, num redemoinho quase fastasmagórico, na tentativa de situar-me naquele místico espaço. Mas ele existe. E por suas águas e em torno destas ilhas eu naveguei. Da vez primeira, nessa nossa viagem de fim de curso. Uma infinidade de ilhas, de todos os formatos e tamanhos, e em contínua metamorfose. Enquanto algumas surgem, outras desaparecem. Porque o Delta é vida em moto perpétuo. Uma infinidade de ilhas espalhadas em um espaço de mais de dezessete mil e quinhentos quilômetros quadrados de água. Em algumas ilhas, alguns ranchos semeados. De pescadores, talvez. Ou de nativos que lá vivem e cujos antepassados por ali aportaram há milhares de anos. Talvez. Algumas mansões incrustradas entre soberbos e místicos arvoredos, cheios de sombra. Com píeres estendidos pelas margens onde barcos dançam ao sabor das ondulações que outros barcos fazem ao deslizar pelo rio (DITTRICH, 2020, p.49).

Outro fato digno de menção é a ênfase em mostrar ao leitor a importância de se conhecer as bibliotecas das cidades visitadas, na medida que esse é o lugar mais propício para apreender a atmosfera cultural e encantatória das mesmas. É o que constatamos no relato sobre Nova York “[…] sentir o especial aroma que emana daquelas estantes onde a alma de tantos está derramada em milhares de caracteres, em milhares de palavras, em milhares de sonhos, em milhares de lamentos… Só de olhar para aquelas paredes repletas de livros desloquei-me para além de páramos inimagináveis” (DITTRICH, 2020, p.133).

Geralmente finalizo minhas análises literárias instigando o leitor a pensar sobre questões sociais. Não obstante Adair Dittrich ser detentora de um vasto conhecimento conjuntural, e ser uma cidadã engajada, nessa obra mencionada ela nos mostra as belezas do mundo, não os seus problemas. Diverte-nos, planta a ternura em nossos corações, e nos convida a nos espelharmos em seu ímpeto de vida e desbravarmos as incontáveis maravilhas de nosso planeta!

(DITTRICH, Adair. Cinco Estações. Canoinhas: JMais Publicações, 2020).