Bolsonaro e a democracia

Poucos sabem quais são as caraterísticas do fascismo

 

 

 


Dr. Wellington Lima Amorim*

 

 

Sempre que começo a escrever para a nossa coluna penso no que devo dizer ao nosso público leitor? Afinal, é tanta canalhice e polêmica em seis meses do governo Bolsonaro, que eu realmente fico tonto diante de tanta matéria-prima. Talquei? (expressão idiossincrática que demonstra o grau de analfabetismo funcional que o atual governo está submetido). Mas, hoje, pretendo falar sobre o Fascismo. Afinal, muito se fala sobre este conceito. Mas poucos sabem quais são as caraterísticas do fascismo. Vejamos alguns de seus princípios fundamentais e a relação com o atual governo:

 

 

 

1 – “Pela monopolização da política por parte de um partido único de massa hierarquicamente organizado”; Até o momento são nove ministros militares. O presidente Bolsonaro ampliou a atuação nos segundo e terceiros escalões com a presença de aproximadamente 115 militares. Fica a questão: até quando estes militares respeitarão a ordem constitucional?

 

 

 

2 – “Por uma ideologia fundada no culto do chefe, na exaltação da coletividade nacional, no desprezo dos valores do individualismo liberal”: É importante perceber como a presença do personalismo em terras brasileiras tem um terreno fértil. É preciso analisar o conceito de liderança carismática e compreender a sua ligação com os momentos de crise. Principalmente quando mobilizado por ideologias conspiratórias e por ideias extremistas como aquelas invocadas pelo Rasputin de subúrbio: Olavo de Carvalho tendo por base as ideias de Alexander Dougin, ideólogo do governo Putin, que chega ao absurdo de afirmar: a Polônia é um “erro histórico”, pois são eslavos católicos que não pertencem à igreja cismática russa presidida pelo Patriarca de Moscou. Pelo fato de professarem a fé católica, os poloneses teriam degenerado da raça eslava, não têm lugar em seu oculto universo cósmico e devem ser suprimidos.”

 

 

 

 

3 – “Pela mobilização das massas e pelo seu enquadramento em organizações funcionais ao regime”: Recentemente enquanto presente na troca do Comando Militar do Sudeste, Bolsonaro afirmou: “Povo brasileiro, somente a vocês eu devo lealdade absoluta. A política mudou e eu jurei um dia dar a vida pela minha pátria o que seria um possível sacrifício do mandato pelo bem de todos nós. Queremos juntos colocar o Brasil no local onde ele merece”. O que ele quer dizer quando afirma que somente deve lealdade ao povo? E o congresso nacional? Ele não deve lealdade a CF/88?



 

 

 

 

5 – “Pelo aniquilamento das oposições”: Fica evidente que, por força do combate à corrupção e à exigência de transparência na política, o espaço público ficou ausente de lideranças. Este aniquilamento não foi realizado pelo atual governo, mas este fenômeno aconteceu com a emergência da corrupção avassaladora que tomou conta da nação nos últimos anos devido a operação lava-jato. Então, o espaço público fica aberto para que forças reacionárias que rondam o Brasil desde a primeira república emergissem como um fantasma mal resolvido, ressentido e vingativo.

 

 

 

 

6 – “Por um aparelho de propaganda baseado no controle das informações e dos meios de comunicação de massa”: As ações de massa das redes sociais, na atual emergência das fake news, exerceu um papel importante no aparelho de propaganda do atual governo. A mentira, na eleição de 2018, pode ter sido a responsável pela manipulação da opinião pública. Muitas destas fake news foram impulsionadas por disparos em massa de empresários desonestos. Um destes empresários é Luciano Hang, conforme noticia divulgada pelo periódico Valor Econômico: De acordo com a reportagem, uma das empresas financiadoras da ação é a Havan e os empresários prepararam uma grande operação uma semana antes do segundo turno. (…) Os disparos usam a base de usuários do próprio candidato ou bases vendidas por agências de estratégia digital. Isso também é ilegal”.

 

 

 

Diante de tal cenário, como não se preocupar com o futuro da democracia no Brasil? Se observarmos, estes seis princípios, poderiam ser analisados e refletidos sobre as ações do governo petista/peemedebista e provavelmente teríamos o mesmo resultado. Se afastamos um possível governo fascista de esquerda, agora população brasileira elegeu um proto-fascista que está muito longe de ser um conservador no sentido inglês, ou um liberal no seu sentido mais stricto sensu, movido pelas ideias da Escola de Chicago.  Estamos diante de uma neblina que se recusa a ceder, um espaço cinzento, onde, em minha opinião, estamos cada vez mais próximos do abismo infernal.

 

 

 

*Dr. Wellington Lima Amorim é professor

 




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