Boi de piranha

Olavo de Carvalho é tido como guru intelectual do governo Bolsonaro/Reprodução

A questão é saber se daqui para frente Olavo de Carvalho conseguirá conter seu ressentimento

 

Dr M. Mattedi*

 


Um dos maiores enigmas do Bolsanarismo é a ascendência de Olavo de Carvalho sobre o Governo Bolsonaro. Saído das sombras da internet Olavo do Carvalho converteu-se em guru do conservadorismo brasileiro 2.0. Pensador, astrólogo e ensaísta Olavo de Carvalho é, sem dúvida, a principal referência ideológica do Governo Bolsonaro. Esta influência pode ser medida não somente pelas indicações políticas de áreas sensíveis como, por exemplo, a educação, relações internacionais e comunicação, mas, sobretudo, pelo confronto com a ala militar. Neste sentido, Olavo de Carvalho constitui o principal mentor do Núcleo Ideológico do Governo Bolsonaro.

 

 

O Núcleo Ideológico do Governo Bolsonaro é comandado pelos filhos de Bolsonaro. Foi fundamental durante o processo eleitoral e também no estabelecimento do projeto de governo. A estratégia de ação do Núcleo Ideológico é bastante simples. Manter mobilizada as massas na luta contra a elite política e cultural por meio da pressão popular nas mídias sociais. Para isto, baseia-se na narrativa formulada por Olavo de Carvalho. Neste contexto, o eixo crítico de Olavo de Carvalho tem dois sentidos: a) Alvo Externo: mobilizar as falanges virtuais para batalha cultural; b) Alvo Interno: gerar intrigas para neutralizar a influência da ala militar.

 

 

O AlvoExterno é o combate ao“Marxismo Cultural”. Para o Bolsonarismo o “Marxismo Cultural” diz respeito a hegemonia exercida pelo discurso de esquerda na agenda cultural brasileira. Mais precisamente, a hegemonia exercida pelo construtivismo social e pela correção política. Esta hegemonia teria se estabelecido através da ocupação da universidade e da mídia. Neste sentido, o Marxismo Cultural representaria uma ameaça para as instituições tradicionais como, por exemplo, a família, a religião, etc. Portanto, o objetivo da batalha cultural é reduzir a influência da esquerda na forma como educação e a arte são concebidas no Brasil.

 

 

Já o Alvo Interno é o combate a suposta conspiração liderada por “Mourão”. Este processo atingiu o ápice quando o presidente Jair Bolsonaro compartilhou um vídeo no qual Olavo de Carvalho efetuou duras críticas aos posicionamentos autônomos assumidos pelo vice-presidente Hamilton Mourão. Assim, quando Mourão sugeriu que Olavo de Carvalho se limitasse a astrologia, Olavo respondeu que Mourão era maçon.  Neste sentido, a tensão chegou ao seu limite quando pediu que o deputado Marco Feliciano pedisse seu impeachment. Do ponto de vista de Olavo de Carvalho o que está em disputa é a liderança e a autoridade presidencial de Jair Bolsonaro.

 

 

Na narrativa olavista, a hegemonia do Marxismo Cultural seria um efeito emergente da atuação desastrosa dos militares durante Ditadura Militar. Deste ponto de vista a Ditadura teria destruído a direita brasileira e comprometido o discurso patriótico. Além disso, os militares permitiram que a história fosse contada pelos vencidos e não pelos vencedores. Isto significa que para Olavo de Carvalho, a única forma de moralizar a elite e aprovar tanto as reformas liberais quanto as leis anticrime seria manter a pressão popular. Neste sentido, a narrativa olavista concebe o Bolsonarismo como uma revolução renovadora nacional.



 

 

Porém, o efeito combinado da relação entre a batalha cultural e a intriga política é gerar espuma emocional e preservar o presidente Bolsonaro nos momentos de crise da marcha moralizadora. Assim, por um lado, as intervenções de Olavo de Carvalho encobrem as dificuldades de lançar a economia; e por outro, neutraliza as recorrentes crises políticas. Neste sentido, o principal papel de Olavo de Carvalho neste início de governo é criar uma rede de intrigas e blindar o presidente Jair Bolsonaro. Portanto, a atuação de Olavo de Carvalho não é somente de mentor ideológico, mas também política, de esconder a paralisia do Governo Bolsonaro.

 

 

Parece que Olavo de Carvalho se encaixou perfeitamente na forma de comunicação direta feita pelas mídias sociais do Governo Bolsonaro. Afinal, se na política representativa a estratégia da governabilidade depende do consenso, o populismo aposta na estratégia de conflito constante para manter-se no poder. Esta estratégia não se baseia na entrega de resultados, mas na capacidade constante de produzir espantalhos políticos. O Congresso, a impressa, as universidades… Todos aqueles que questionam a marcha moralizadora são transformados em inimigos. Portanto, questionar a estratégia de poder acaba reforçando a estratégia de poder.

 

 

À medida que a tensão entre o Núcleo Ideológico e o Núcleo Pragmático aumenta o presidente é obrigado a se posicionar. Até agora a arbitragem vinha fortalecendo o Núcleo Ideológico. É por isto que, paradoxalmente, a cada fracasso, como aconteceu na APEX, MEC e Comunicação, o presidente reforça com um novo voto de confiança do Núcleo Ideológico. Este viés parte da constatação de que Jair Bolsonaro jamais seria eleito sem a atuação de Olavo de Carvalho. Porém, no último conflito o presidente repreendeu publicamente suas declarações. Pelo twitter Olavo de Carvalho reclamou ter se transformado em “boi de piranha”.

 

 

Olavo de Carvalho continua ocupando uma posição central na estratégia de poder do Bolsonarismo. Isto acontece porque, por um lado, sua narrativa normaliza a agenda conservadora na cena cultural brasileira; e, por outro, neutraliza as crises geradas pelo círculo interno do presidente. Por isto sua atuação é decisiva, e sua influência não diminui. A questão é saber se daqui para frente Olavo de Carvalho conseguirá conter seu ressentimento, ou vai se transformar numa influência tóxica. Pode transformar a crise de confiança em crise de governabilidade. Afinal, o custo do desentendimento é cada vez maior para o Governo Bolsonaro.

 

 

*Dr M. Mattedi é professor

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