domingo, junho 20, 2021

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Avati encontra a luz de sua vida (Final)

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Contou então para a velha índia toda a história da mulher por quem daria sua vida

 

Desde o trágico dia em que um desconhecido, nunca identificado, tirou a vida de Anahi as duas tribos que habitavam os territórios margeantes do Rio Negro já não se viam mais com os mesmos olhos de antigamente. A ruptura da desejada união entre os filhos dos caciques Cauê e Anori, consagrada desde o dia em que nasceram, causou uma guerra, não disputada, mas que ficou no ar, entre eles.

 

 

 

 

Mesmo depois de Anori ter a certeza de que seu filho, Sami, fora o assassino, guardou este segredo entre as sete chaves de sua memória.

 

 

 

Entre os membros da tribo de Cauê permanecia, como em uma nebulosa, a desconfiança— mesmo que nunca tivessem conseguido encontrar provas concretas—, de que Sami despejara toda a fúria de seu ciúme para a acabar com a vida da jovem, que desde o tempo que nem se lembrava havia sido prometida como sua esposa.

 

 

 

 

Avati e Indaíra, em seu deslumbramento, jamais imaginariam encontrar tantos obstáculos para sacramentar um amor que os uniu desde o instante em que, pela primeira vez, seus olhares se cruzaram.

 

 

 

 

Encontravam-se sempre que ela acompanhava Sami até as barrancas do Rio Negro. A atração que os unia crescia, desmesuradamente, em todas as ocasiões em que conseguiam se ver.

 

 

 

 

Sami, em sua desorientação, temia ver Indaíra, que se tornara sua irmã, unir-se a alguém da tribo da outra margem. Não sabia quem era o jovem que a deixava em êxtase em todos os dias em que se encontravam.,

 

 

 

 

Após a celebração em que os caciques Anori e Kaluanã fizeram cortes em seus punhos, juntaram seu sangue em uma concha, deixaram-no queimar em fogo sagrado, amarraram seus pulsos com a embira ungida pelo Pajé e tornaram-se irmãos, Sami também se tornara irmão de Indaíra.

 

 

 

Se já olhava para ela com olhares de gratidão pelos cuidados e atenção que a menina tinha com ele, maior ainda se tornara a sua responsabilidade em velar pelo futuro dela. Não conseguia imaginá-la vivendo ao lado de um integrante qualquer da tribo que o rejeitara. Nas vezes em que se passava por sua cabeça que o jovem fosse o bastardo filho daquele forasteiro que lhe roubara o encanto e a luz de sua vida tinha ímpetos de proibir que Indaíra continuasse a vê-lo.

 

 

 

 

Em seu desespero procurou seu pai. Desabafou suas angústias. O cacique Anori, em sua sabedoria, pelo tempo que já vivera, pelas agruras por que já passara, levou Sami para o meio da mata na tentativa de aplacar sua alma dorida e fazê-lo entender as mudanças no mundo que os rodeava. Sentaram-se sob frondosa araucária que lançava no espaço, feito flechas, aquelas avermelhadas frutas que saciavam a fome de todos os seres que na floresta viviam.

 

 

 

 

Longe de quaisquer olhos e ouvidos, Anori tentou fazer com que Sami entendesse que os tempos eram outros.

 

 

 

 

— Há muitas e muitas luas uma grande vila de brancos já começou a se instalar rio abaixo. Se você não passou por ela, deve ter passado por outra que fica bem longe das margens de nosso rio. Os brancos dizem que se chama Capão Alto e fica bem em cima de uma grande pedra. Lá tem uma enorme gruta. Já estive por lá, quando bem jovem, atrás de uma boa caça. Mas não dá pra chegar mais por lá. Fomos escorraçados. Agora tem esta outra que está crescendo aqui bem perto de nossa taba. Os tempos são outros, meu filho. Logo nós não teremos mais nem um palmo de terra. Não sei o que pensam o cacique Cauê e os anciões de sua tribo sobre a união destes dois. Eu também demorei muito para aceitar. Porque pode ser que o moço seja mesmo o filho de sua amada Anahi. Mas esqueça, meu filho. Esta perna que lhe falta já foi por causa de outra mulher que você encontrou em sua vida.

 

 

 

A conversa demorou-se por horas. Sami teve de concordar com tudo o que seu pai falara. Esquecer-se de que em sua fúria tinha a intenção de matar apenas o rebento de Anahi. O rebento de Anahi que em futuro próximo seria, talvez, o chefe das tribos que habitavam as duas margens do rio que os brancos chamavam de Negro.

 

 

 

 

Avati sempre retornava das incursões que fazia para a margem oposta do rio sorrindo e com uma alegria intensa a lhe extravasar pelos olhos. A tribo inteira percebera o que se passava com o jovem. Mas ninguém ousava perguntar diretamente a ele. Cauê, o cacique, seu avô, e os anciões apenas confabulavam entre si. Em sua sabedoria ancestral sabiam que intrometer-se na vida de um jovem seria pior que mexer em um vespeiro. Quanto mais o contrariassem mais ele continuaria a fazer as coisas do jeito dele. Aguardavam, silenciosamente, com a certeza de que tudo, em breve, passaria. Que sua paixão pela linda moça da outra margem seria como um fogo de palha.

 

 

 

 

Mas não era um fogo de palha. Avati ficava horas a olhar para a lua, que no céu infinito fazia a sua viagem em meio aos astros. Quantas vezes imaginava-se naquela canoa de luz em enlevo com sua amada. E como eram longas as noites de sua solidão. Queria tanto ter sua mãe a seu lado. Ela o entenderia. Percebia que todos o olhavam de uma maneira diferente. Sentia no ar as flechas invisíveis no olhar e nos gestos dos seus. Não conseguia entender a razão. Nada de errado estava fazendo.

 

 

 

 

Certa noite, quando as névoas que envolviam o rio, devagar aproximavam-se de seu canto solitário, ouviu uns passos trôpegos e lentos, a cada instante mais perto do tronco onde costumava se debruçar em todas as suas noites de solidão. Ouviu a voz que já mal balbuciava seu nome. Um súbito arrepio tomou conta de todo seu corpo.

 

 

 

 

 

— Filho, filho meu. Carreguei você em meus braços para longe do fogo que em breve iria torná-lo um carvão enegrecido. Levei você para longe da grande fogueira que tomou conta de nossa velha oca. Soprei a vida para dentro de sua boca. E agora você está aqui sozinho. Ouço os soluços que saem do mais íntimo de você. Vamos, Avati, vamos logo falar com Cauê, o cacique, meu filho, seu avô. Vamos, Avati, desabafa aqui nos ombros desta velha que em breve estará ao lado de Anahi, no mundo que fica bem além das florestas encantadas.

 

 

 

 

 

Foi então que as lágrimas retidas dentro dele, há tanto tempo afloraram. Abraçou, emocionado, a velha índia Uietê Atipó, sua bisavó e entre soluços amargurados contou de sua paixão pela bela moça que via sempre na outra margem do rio. De sua tristeza em perceber que os seus o olhavam de maneira diferente. Como se o amor que brotara em seu coração, desde o instante em que a vira pela vez primeira, fosse um amor proibido.

 

 

 

 

Uietê Atipó contou-lhe a história da paixão de Sami por Anahi. Da decepção e do ódio que ele deveria ter sentido quando soube que a filha de Cauê não mais seria sua esposa. Que desde então as duas tribos não tinham mais a mesma amizade de outrora.

 

 

 

 

 

— Uietê Atipó, minha mãe que me salvou do fogo e que me devolveu a vida, Indaíra não é filha de sangue do cacique Anori, nem irmã de sangue do aleijado Sami.

 

 

 

Contou então para a velha índia toda a história da mulher por quem daria sua vida.

 

 

 

 

Abraçados os dois entraram na grande oca onde morava toda a família. Cauê estava ao pé do fogo. Ouviu, em silêncio tudo o que sua velha mãe lhe falava. Puxou algumas baforadas do cachimbo que estava fumando. Jogou para o alto uma cortina de fumaça. Pigarreou uma vez. E mais outra. Respirou profundamente. Fez uma solene pausa. Para Avati parecia um silêncio sepulcral. Chamou para perto de si sua mulher e Abaeté que até então, de longe, observavam a cena.

 

 

 

 

— Então Avati, é com esta mulher, que veio de longe, das terras do norte, que você quer viver até os últimos dias de sua vida? Se for do seu agrado nós vamos procurar o cacique Anori e pedir a ele que abençoe esta união.

 

 

 

 

Avati perdeu a fala. Com lágrimas nos olhos abraçou uma vez mais a velha Uietê Atipó e falou, mais para ela que para os demais membros de sua família.

 

 

 

 

— Uietê Atipó, uma vez mais você salvou a minha vida.

 

 

 

Com seus braços fortes, levou para o alto o esmirrado corpo de sua bisavó.

 

 

 

A comitiva da tribo de Cauê foi recebida com alegria no outro lado do rio.

 

 

As celebrações do casamento de Avati e Indaíra duraram dias. A este tempo os padres franciscanos já eram presença constante entre as tribos da região. Presentes em tantas cerimônias das tribos indígenas, abençoaram também esta união.

 

 

 

 

Uietê Atipó esperou exatamente o tempo para ver Avati feliz ao lado de Indaíra para fazer a sua peregrinação pelas campinas encantadas que ficam muito além dos horizontes azuis. Todos os integrantes das duas tribos sabiam o que ela representara para eles durante a centena de anos em que entre eles permaneceu. As solenidades fúnebres foram realizadas nas duas margens do Rio Negro.

 

 

 

 

O território começou a ser povoado por brancos vindos de diferentes partes da Europa que preferiam as regiões do sul do Brasil, com clima mais ameno.

 

 

 

 

Avati tornara-se o cacique das tribos que margeavam os dois lados do Rio Negro. A taba principal situava-se em um trecho — ainda não invadido pelos colonizadores estrangeiros— bem além das margens do rio, mas longe dos aldeamentos recém abertos.

 

 

 

Capão Alto, a vila mais antiga de que os índios tinham ouvido falar já tivera seu nome alterado para Vila Nova do Príncipe.

 

 

 

 

Avati e Indaíra tiveram muitos filhos. Mas a mulher mais linda que habitara, em todos os tempos, aquelas regiões todas era a sua filha mais nova. Quando ela nasceu os padres franciscanos queriam que ela tivesse o nome de Maria Rosa. Mas Indaíra insistiu que sua filha só poderia ter um nome. Um nome símbolo de quem ela seria. Porque se parecia com uma estrela e uma flor. Potira Tainá cresceu cercada com o carinho dos pais e de seus irmãos mais velhos.

 

 

 

 

Aprendera com o avô Abaeté a andar a cavalo pelas pradarias sem fim. Aprendera com o avô Abaeté a atirar com um rifle enquanto cavalgava em alta velocidade. Apesar de muitos integrantes de seu povo já usarem vestimentas iguais às dos brancos, Potira Tainá continuava se cobrir com as penas e as vestes tradicionais das tribos de que descendia.

 

 

Foi assim, montada sobre um corcel negro que ela, ao lado de seus pais e de seus irmãos estava a desfilar toda a sua majestade sobre as pedras que calçavam uma rua na Vila Nova do Príncipe.

 

 

 

Seu olhar foi atraído pelo olhar penetrante e magnético de um jovem branco muito alto que estava bem a seu lado. Tinha os cabelos ruivos e uns olhos muito azuis com os quais quase a fulminava.

 

 

 

 

O jovem, rapidamente, montou em seu cavalo e seguiu a comitiva indígena.

 

 

 

Diariamente visitava a tribo de Avati. Fez amizade com todos. Tomava o mate amargo por eles servido.

 

 

 

Sabia que Potira Tainá não tirava os olhos dele. A atração fora fulminante desde o momento em que seus olhos se encontraram em uma rua no centro da Vila Nova do Príncipe.

 

 

 

 

 

Não houve aquele cerimonial indígena costumeiro. O jovem, irlandês, de origem católica, também pouco valor dava para uniões religiosas. E um dia levou Potira Tainá para morar com ele em uma propriedade que ficava na antiga estrada que ligava a cidade da Lapa a Rio Negro.

 

 

E assim, em um Dia de Todos os Santos, nasceu Luiza dos Santos, minha avó.

 

 

 

Filha de um irlandês que se tornou herói lapeano e de uma índia Xokleng que cavalgava com uma velocidade mais rápida que o raio.

 

 

 

Mais um trecho de um livro em elaboração

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