Às margens do Trebbia


Paisagem do rio Trebbia/Divulgação

Um sutil encontro que não passou de um leve afago de mãos

 

Ela passava horas a olhar as cristalinas águas do Trebbia que corria, celeremente, entre seixos, atravessando aquele vale coberto de finos pinheiros que pareciam descer das montanhas além.

 

 

Desde menina seu sonho era saber como nasciam e cresciam aquelas altaneiras árvores, incrustadas entre as pedras e que sempre verdes permaneciam não importando as violentas nevascas que de branco a tudo cobriam.

 

 

Desde menina já afirmava para sua ama que um dia iria estudar nas mesmas escolas, em Milão, para onde já tinham ido seus irmãos mais velhos. Contestava todas as explicações que lhe davam dizendo que lá era um local onde somente homens podiam estudar. Mulheres deviam aprender apenas a governar uma casa, no caso, um palácio.

 

 

A condessinha Filomena Fontini estava destinada a se casar com um jovem fidalgo, herdeiro de outra família da mesma estirpe que a sua, proprietária de vasta extensão de terras e de um imenso castelo localizado na outra margem do Trebbia.

 

 

A moça não conseguiu realizar o seu sonho. Não permitiram que fosse estudar em uma escola superior em Milão. Porque onde já se viu. Mulher deve aprender a administrar um lar, cuidar de filhos. Já não bastavam as aulas de música, de línguas, de etiqueta e de trabalhos manuais inerentes ao seu sexo? Aulas que brilhantes professores e professoras vinham diariamente ao palácio para administrar?

 

 

Mas o interesse maior dela era pelos livros, principalmente por aqueles que traziam minuciosas explicações sobre as florestas. Levantava-se sempre muito cedo para aproveitar todas as horas da luminosidade do dia, e, assim, às escondidas, mergulhar no seu mundo de sonhos.

 

 

Fugia dos galanteios do jovem fidalgo vizinho. A contragosto dirigia-lhe algumas palavras quando, para os domínios dele, era levada por seus pais para tomar um chá. Ou quando era obrigada a recebê-lo no grande salão do palácio em que morava.

 

 

 

Em certa manhã estava ela a procura de um compêndio que tratava de assuntos agrários, quando, inopinadamente, entra na biblioteca um elegante e jovem cavalheiro, portando em uma das mãos enorme pasta de couro.

 

 

 

Boquiabertos os dois, com o inusitado encontro ele foi logo querendo se afastar para deixá-la a sós. Mas Filomena não concordou. Fê-lo ali permanecer dizendo-lhe que já iria chamar o pai, pois, gaguejando, o moço explicava, que com ele viera ter a fim de tratar de negócios. Que o mordomo, ao recebê-lo na entrada do castelo, já iria comunicar ao senhor a sua chegada.  E, indicando-lhe a porta da biblioteca, sugeriu-lhe que lá esperasse pelo conde Fontini.

 

 

Filomena rindo, não sabia se o deixava a sós antes que o sisudo pai chegasse ou se ali ficaria com ele a conversar, presa pelos magnéticos olhos castanhos que não paravam de fitá-la.

 

 

Algumas palavras trocadas, curtas palavras, que a cortesia e a discrição mandavam-na proferir para deixá-lo à vontade, pois notara que o moço em rígida estátua se transformara logo que a vislumbrara, debruçada sobre as estantes da enorme biblioteca.

 

 

Apenas um rápido olhar e um sorriso apreensivo foram suficientes para marcar o coração dos dois jovens. Filomena, saltitante, saiu da biblioteca deixando atrás de si um rasto de perfume e um rapaz embasbacado, tonto e magnetizado por sua voz e o todo que era ela.

 

 

Paolo era um jovem advogado, filho de burgueses, não muito abastados, e trabalhava em um escritório, em Piacenza. Um escritório que cuidava da parte burocrática e legal dos bens da família Fontini. Naquela manhã fora ele o encarregado de trazer até o conde diversos documentos que necessitavam por ele ser analisados e depois assinados.

 

 

O rapaz até que tinha permissão de ali permanecer por horas, aguardando que toda aquela papelada fosse lida e analisada pelo importante cliente. Mas… a imaginação correndo célere e solta foi logo encontrando um meio de, no dia seguinte, retornar àquele local.

 

 

— Senhor Conde! Vossa Excelência pode levar o resto do dia para ler todos estes documentos, com a maior calma, analisá-los, decidir se estão conforme os seus desejos, anotar alguma sugestão diferente para ser acrescentada ou retirar alguma cláusula de algum destes contratos e amanhã eu retornarei para pegá-los e levá-los ao nosso escritório.

 

 

 

O conde ficou satisfeito com a sugestão e agradeceu a gentileza do jovem, elogiando-o até.

 

 

Filomena passou o dia com a imagem de Paolo em sua cabeça. Muitas vezes foi até a biblioteca para tentar captar no ar e nas paredes nesgas do perfume que dele, talvez, por lá impregnado tivesse ficado. Mas a cada vez que lá ia, encontrava o pai debruçado sobre pilhas de papéis e de compêndios e retornava para as enfadonhas e maçantes aulas a que era obrigada, por dever de origem e de ofício, a frequentar.

 

 

Cedinho, na manhã seguinte, lá estava ela, novamente, em busca de seus livros prediletos para estudar. A surpresa foi quase um raio fulminante. Paolo já lá se encontrava. Adiantara-se, propositadamente, com a mais pura intenção de vê-la. Conseguira despistar o mordomo, dizendo que não precisaria já chamar o senhor, porque era muito cedo e não precisaria incomodá-lo fora da hora habitual. Que ele iria adiantando o serviço, olhando a papelada, vistoriando o que estivesse pronto.

 

 

E foi assim que Filomena e Paolo se viram a sós. Olharam-se, ainda a alguns passos de distância. Sorriram. E naquele olhar e naquele sorriso toda a ternura do mundo. Todas as promessas que só dois corações unidos desde os primórdios da terra poderiam fazer silenciosamente.

 

 

Tímidos passos, leves passos, passos que apenas pés que pareciam ser movidos por anjos foram levando um em direção ao outro. Olhos nos olhos, mãos estendidas num afago de almas uniu os dois jovens naquela manhã radiosa, no instante mágico em que os primeiros raios do sol atravessavam os grandes janelões da imensa biblioteca do castelo dos Fontini.

 

 

Um sutil encontro que não passou de um leve afago de mãos. Encontros iguais em muitas manhãs de sol esplendente assim se repetiam. Paolo sempre encontrando mais e mais documentos e contratos para que o conde calmamente analisasse e passasse as vistas.

 

 

Uma certa manhã, ao chegar à biblioteca, Filomena foi surpreendida com a visita inesperada de Giovani, o jovem fidalgo a quem fora prometida em casamento desde a sua mais tenra infância.

 

 

Empalideceu primeiro. Depois as faces se transformaram em tons violáceos, quase arroxeando, tão indignada com aquela intrusão matinal em seu sagrado santuário.

 

 

Quando tentava pedir-lhe explicações por uma presença não anunciada, entra na sala o conde Fontini. Que já vinha sorrindo por ver ali o prometido futuro genro.

 

 

Nada restou à condessinha senão sorrir para o pai e, apressadamente, sair do local. Muitas horas mais tarde sua ama lhe contou que Paolo atrasara-se muito, naquela manhã, a fim de buscar os documentos que necessitavam ser, com urgência, registrados em cartório. Que ele não estava bem. Que ouvira qualquer coisa sobre o seu cavalo ter, repentinamente, desatado a correr em alta velocidade. Que não conseguira controlá-lo e caíra em uma ribanceira, às margens pedregosas do Trebbia.

 

 

Raios faiscantes correram entre os neurônios de Filomena. E aquela entrada inusitada, aquela visita matinal, inesperada, de Giovani, todo sorridente e senhor de si, no escritório de seu pai? Seria ele o causador da disparada do cavalo de Paolo? Seria ele o causador da queda de Paolo?

 

 

Trecho de um romance que algum dia virá a lume





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