As fantasmagorias de minha infância


Todas os contos de Grimm e de tantos outros escritores lá estavam a nos embasbacar a imaginação a um simples folhear de páginas

 

A coleção de livrinhos de histórias infantis que havia nas estantes da escola de minha vila era realmente fabulosa. Todas os contos de Grimm e de tantos outros escritores lá estavam a nos embasbacar a imaginação a um simples folhear de páginas.

 

 

Eu os lia aos borbotões. Não apenas em todos os fins de semana. Quando, por algum motivo de doença ao leito em casa permanecia retida, conseguia divagar por vários em alguns dias.

 

 

Eram pequenos e finos livros. Não recordo se tinham figuras coloridas. Ou se eu as encontrava dentro de minha cabeça a cada linha devorada.

 

 

Minha irmã mais velha, Aline, era nossa professora. E incentivava-nos a ler sempre mais. Uma vez apareceu lá em casa, trazida no bagageiro do grande trem que lá chegava em todas as tardes, uma grande caixa para ela endereçada. Era uma coleção de belos e grandes livros encadernados em azul brilhante com seu nome em letras douradas Foi outro encanto afundar em casa, em todos os dias naquelas páginas de “O tesouro da juventude.”

 

 

Claro que muita coisa que ali havia não estava, ainda, ao alcance do meu entendimento. Mas os contos de fada lá se encontravam. Viajava por aquelas folhas de um papel acetinado, lisinho e macio onde encontrava caminhos para mundos desconhecidos.

 

 

E ainda havia os almanaques infantis. O que nós ganhávamos era o do Tico Tico. Que em suas coloridas páginas me faziam voar. Nelas eu conheci o Saci Pererê e as suas mil artimanhas. Assim como os travessos pirralhos Reco-Reco, Bolão e Azeitona.

 

 

Mas não foi pelas páginas daqueles livrinhos de histórias infantis, nem nas instigantes histórias da grande coleção encadernada em azul e nem mesmo no Almanaque do Tico-Tico que eu fiquei conhecendo as fantasmagóricas personagens que mais de perto a minha infância povoaram.

 

 

Só quem tem ou teve irmãos mais velhos irá entender.

 

 

Porque por intermédio dos meus irmãos mais velhos eu fui apresentada ao Boitatá. E mostravam-me o Boitatá, passando ao largo, em quase todas as noites. Passava muito longe, num horizonte distante para mim. Mas eu o via. E eu o ouvia. Porque muito barulho ele fazia.

 

 

Na quietude das noites de minha vila, da varanda ou das janelas dos quartos que ficavam no pavimento superior de nossa casa eu o via. E encorujava-me de medo. Porque os manos não deixavam por menos. Diziam que em qualquer noite ele poderia chegar mais perto.

 

 

Naquele tempo eu desconhecia as virtudes do Boitatá. Não sabia que o seu passar pelos campos impedia que o fogo destruísse as plantações. Sabia apenas que ele me aterrorizava, influenciada pelas palavras jocosas, que eu considerava sérias, de meus manos mais velhos.

 

 

Mas o Boitatá revezava-se no passar pelas campinas do horizonte distante com outro ser, igualmente fantasmagórico, a Mula sem Cabeça. Mas eu sempre conseguia ver os dois juntos, passando ao longe.

 

 

Então era um facho de luz correndo junto a um pescoço que cuspia fogo. E a criança que vivia em mim escondia-se sob as cobertas e fechava os ouvidos para aquelas histórias não mais ouvir.

 

 

E ainda nos contavam de lobisomens e vampiros que pela minha vila, em noite escuras perambulavam. Eram sombras apressadas a andar nas ruas que recebiam apenas uma fraca iluminação emanada, através das vidraças, do leve clarão de velas ou de lampiões penumbrados.

 

 

Vultos indefinidos a vagar pelas sombras. Vultos cobertos da cabeça aos pés, nas noites invernais, por longos capotes pretos providos de enormes capuzes, acompanhados de luzes que a seu lado corriam. Estes vultos acorriam ao chamado do sino que na estação ferroviária anunciava a chegada ou a saída dos trens. Sino que o guardião da noite deveria sonar a cada meia hora para confirmar que tudo corria bem. Ou mais fortemente as badaladas soavam se algo irregular acontecesse.

 

 

Mas a imaginação popular não tinha fim. E a das crianças mais solta ainda corria. Se um cachorro ganisse longamente, na distância, no exato momento em que uma dessas fantasmagorias aparecesse ao longe, era um correr de pessoas a se esconder, com a maior rapidez, nos cantos mais aconchegantes de seus lares.

 

 

Os vultos da noite eram apenas os ferroviários, com seus longos capotes, que acorriam para atender os cargueiros noturnos, sempre acompanhados com suas lanternas a querosene que o caminho lhes iluminava.

 

 

Havia mais um ser que aparecia no quarto onde, com meu maninho mais novo eu dormia. Entrava de mansinho pela porta depois que as luzes da vila se apagavam. Apenas uma vela na mesa de cabeceira acesa permanecia. Naquele lusco-fusco ele chegava. Com voz rouquenha. Tinha o formato triangular e fofo como uma coberta de pena. E cutucava-nos com aquela ponta macia do triângulo.

 

 

Da primeira vez que ele apareceu foi um susto só. Era um tal de Magão. E a minha irmã Avany, que se encontrava sob a coberta de pena, logo foi se identificando. E a brincadeira passou então a ser a nossa de muitas noites mais.

 

 

Não se passaram muitos anos para que eu descobrisse a origem do nosso Boitatá e da nossa Mula sem Cabeça.

 

 

Era um tempo em que muitos cargueiros ferroviários transitavam pelas linhas do trem. E trem de carga vagava direto noite adentro. E a estrada de ferro fazia um grande contorno desde que saia de Três Barras em direção a Marcílio Dias. Deslocava-se primeiramente como se para a cidade de Canoinhas se dirigisse. Depois fazia uma curva de imenso raio para, finalmente, chegar até a ponte sobre o rio Canoinhas e, curvando-se uma vez mais chegar à nossa estação.

 

 

Mas lá ao longe, o trem percorria uma vasta distância atrás dos pinheirais. O enorme facho de luz emitido pelo grande farol da locomotiva iluminava os caminhos da noite. Era um intermitente raio de luz que cintilava entre os galhos das robustas araucárias. Parecia mesmo um fogo serpenteando no distante horizonte. Era o Boitatá que corria pela campina.

 

 

As enormes chaminés das locomotivas não expeliam apenas fumaça. Por elas fagulhas incandescentes oriundas da grande fornalha iluminavam os céus. Era o fogo que saía de dentro da nossa mula sem cabeça.

 

 

E nas noites silenciosas, quando apenas o pipilar dos grilos e o chirriar das corujas se ouvia, o estrondo das locomotivas deslizando pelos trilhos de ferro ecoava na distância.

 

 

O resfolegar das máquinas a vapor, suas luzes e suas fagulhas eram os reais seres fantasmagóricos que povoaram os meus mais tenros anos.

 





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