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“Faz escuro, mas eu canto”

Graciela Márcia Fochi*

Maria Luiza Milani**

O processo e o momento histórico no qual nos encontramos inseridos, reúne e sintetiza toda uma atmosfera de mal-estar, desencantos e temeridades que vínhamos experimentando desde as “revoluções coloridas” de junho de 2013 e que com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, em agosto do ano de 2016, cada vez mais se tornou tangível e reconhecível.

Com a pandemia do Coronavírus, na conjuntura nacional, eis que se instaura uma crise política, sanitária e econômica, o que tem demonstrado e provado reiteradamente a incompetência e a perversidade de um governo, que se apresentava problemático desde o conturbado pleito eleitoral de 2018 que, dentre os fatos mais caros à uma democracia, foi caracterizado pela completa ausência de debate público.

Trata-se de um governo que se declarava e declara liberal na economia e conservador nos costumes, que lançou mão de ampla composição das pastas ministeriais com integrantes oriundos dos quadros do Exército Brasileiro, ou melhor, das ruínas do Exército, aquele mesmo que foi anistiado e perdoado pelos crimes praticados, em especial, no decorrer da ditadura militar de 1964-1985 (que cilada não?!).

Num cenário mais amplo de movimento de ideologias, ideias e imaginários, tem-se observado a atualização de males antigos, tais como movimentos do fascismo, do nazismo, entre outros ismos, bem como posturas anticiência e antivacina.  A tradução e a recepção disto tudo tem sido responsável por promover uma polarização em meio a sociedade, e ao mesmo tempo tornado a população alvo ainda mais vulnerável e de fácil presa à maniqueísmos, charlatanismos e oportunismo diversos. 

Ao mesmo tempo os embustes não param de se renovar: “terra plana”, “negacionismo”, “comunistas”, “cloroquina”, “ivermectina”, “ozônio retal”, “eleições nos Estados Unidos da América”, “eleições municipais no Brasil”, “o vazamento de dados de pessoas físicas”, “cancelamentos”, “privatizações”, “campeonatos de futebol”, “copa américa”, “eurocopa”, “olimpíadas mundiais”… “tecnologia do espírito”, “engenharia do corpo”, “disfunção erétil”… bem, parece que o circo de horrores conta com novos números e o trem fantasma já tem novos personagens.

Mas, esse circo de horrores ainda não havia pregado a peça crucial: a pandemia do coronavírus, que já resultou na perda de mais de 530 mil vidas só no Brasil. Diante da ameaça invisível do coronavírus, aquelas situações ficaram deslocadas e caricaturizadas em cena. O isolamento social, o fechamento dos comércios, de escolas, das ruas, de setores das instituições públicas, a paralização de transportes, a suspensão de atividades e espaços de cultura, de esporte e lazer, seguidos dos agravos no campo da saúde, foi responsável por virar de ponta cabeça a vida das pessoas.

O fenótipo, a fisionomia, a face, os sentimentos, as emoções já não se mostram por inteiro, paira uma saudade, ausência e vazio para com estas experiências. As perdas familiares deixaram um rastro de desolação e desamparo. Nem mesmo com a vacinação lentamente sendo introduzida no sistema nacional de imunização, retira a apreensão que circunda o horizonte de referência das pessoas. Este parque é triste, este circo é desencanto. Tempos sofridos, tempos traumáticos.

Bem, pelo menos os ventos continuam a soprar e até tem trazido boas notícias. Mesmo com o cenário sombrio que ainda se faz presente no cotidiano, de certa forma os vizinhos estão mais próximos e solidários, há aqueles que deixaram de comer carne, outros adotaram animais de estimação, muitos passaram a fazer atividades físicas com mais frequência e regularidade.

Algumas notícias chegam do outro lado do oceano, onde existem jovens que, toda sexta-feira, continuam fazendo atos de protesto contra o desiquilíbrio climático. Na África do Sul a população protesta contra a prisão do seu ex-presidente. Na América, em Cuba a população está na rua contra a tentativa de desestabilização política do governo, nas eleições presidenciais do Peru a vitória foi de um professor e sindicalista, e no Chile a Constituição, ainda dos tempos de Pinochet, está sendo reescrita.

Aqui no Brasil, nos meandros deste conturbado cenário, há quem se pergunte: “que país é este?!” Mas na tênue esperança de resposta se vislumbra em meio à fatos e acontecimentos como os que as carreatas, as motociatas, os discursos do presidente e de sua família estão esvaziando, uma CPI está em curso, a população e os movimentos sociais voltaram às ruas, mostrando que não se tratava de mera apatia política e sim receio diante da ameaça posta pelo vírus. Já ocorreram três atos e outros estão sendo organizados.. …existem artigos e livros têm sido publicados, bem como outros estão sendo escritos neste exato momento “Viva o povo brasileiro”, dizia João Ubaldo Ribeiro…

“Apesar de você”, como canta Chico Buarque, as coisas ainda podem mudar e de forma significativa, no pior dos cenários e se não ocorrerem obstruções ou maiores surpresas, caminhamos para o pleito eleitoral no segundo semestre de 2022, no qual novamente estará sob consulta pública a composição do poder executivo e legislativo em âmbito federal e estadual, o que significa que temos e teremos diante de nós um vasto canteiro e jardim de obras, do qual não poderemos nos isentar ou omitir.

O escritor Thiago de Mello, no poema Madrugada Camponesa, ainda em 1965, proferia:

“Faz escuro mas eu canto!

Faz escuro mas eu canto, por que a manhã vai chegar.

A noite já foi mais noite, a manhã já vai chegar.

Breve há de ser (sinto no ar)

Tempo de trigo maduro, vai ser tempo de ceifar.

Faz escuro (já nem tanto), vale a pena trabalhar.

Faz escuro mas eu canto, porque a manhã vai chegar”.



*Graciela Márcia Fochi é graduada em História e doutoranda em História Global

**Maria Luiza Milani é assistente social, Doutora em Serviço Social, Políticas Sociais e Movimento Sociais