segunda-feira, 27

de

setembro

de

2021

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A vingança do índio Sami*

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Chegou o tempo em que um lençol branco ficava estendido pelas campinas e pela mata. As flores começavam a desabrochar

 

 

Abaetê correu, com Avati em seus braços, até onde a multidão se aglomerava. O pajé não achou muito certo o pai ter escolhido o nome do bebê sem antes consultá-lo. Mas dadas as circunstâncias e o muito que ainda restava ser feito, nada falou.

 

 

 

Vasculharam a oca em busca de indícios que o assassino tivesse deixado. Logo um dos rapazes encontrou os cartuchos deflagrados, bem na parte em que a parede da oca encontrava o chão. Estarrecidos todos, sem sequer imaginar a intensidade e o alcance deste drama na vida deles. Em silêncio continuavam quase todos. Os parentes a soar suas cantilenas fúnebres.

 

 

 

Os rastreadores na mata seguindo as pegadas deixadas pelas patas do cavalo. Imaginavam que em algum lugar ele deveria parar. Uma longa distância já haviam percorrido e o cavaleiro, a cada vez, mais distante deles. Muitos quilômetros em linha quase reta, quando, repentinamente, o malfeitor faz uma quebrada e segue em direção ao Rio Negro, cuja margem direita os índios alcançaram quando o sol já se punha. Impossível saber a direção tomada pelo assassino sem a luz do sol. E ali, ouvindo o borbulhar das águas do rio, pernoitaram.

 

 

 

Enquanto isto, reunidos na ocara, os homens do conselho da tribo confabulavam. O pai da jovem assassinada tão torpemente era o cacique. O pajé, usando de seu poder, em altas vozes bradava que aquilo era coisa de branco. Arma de branco, calçado de branco. Que deveriam pegar suas armas e invadir logo a vila dos brancos que ficava a dois dias a pé, pela mata, beirando o rio.

 

 

 

Foi então que Abaeté se levantou e pediu para falar. Era um índio corpulento e muito alto. De um semblante de ferro. Há muitas luas chegara até ali pelo rio. Viera de muito longe, rio acima, em uma piroga. Distanciara-se de sua tribo. Estava à procura de um novo local para estender sua esteira feita de folhas de palmeira e tiras de embira e dormir sossegado, dissera ele, ao desembarcar de sua solitária canoa.

 

 

 

Já havia percorrido dias e noites a pé até o dia em que encontrara aquela pequena piroga perdida e atolada no lamaçal da beira do rio. Enquanto ele contava suas peripécias para o cacique Cauê, viu passar, ao longe, entre as moitas, uma jovem donzela de olhos brilhantes e sedosos cabelos negros que balançavam sobre seu corpo até abaixo da cintura. Nem conseguia mais prestar atenção nas palavras do cacique e dos outros membros da tribo que até ali tinham vindo para recebê-lo, dar-lhe as boas vindas e oferecer-lhe alimento e um bom local para descansar o corpo.

 

 

 

— Minha tribo, minha nação tem agora bem poucas pessoas. Minha gente vivia no alto das serras de onde se enxerga a grande água azul. Havia temporadas em que desciam a serra e ficavam vivendo dos presentes que a Mãe da Água Grande lhes mandava. Mas muitos brancos empacotados em roupas grossas e umas calças de couro que iam até quase na barriga e que tinham armas que cuspiam fogo foram tomando conta dos lugares onde meu povo sempre ia. Agora quase que ficamos no alto da serra, onde o frio é muito forte. E eu resolvi procurar outras matas e outras campinas e saí pelo mundo costeando o rio abaixo.

 

 

 

Pelo sim, pelo não o cacique Cauê fingiu acreditar na história do jovem Abaetê. Que foi ficando por ali. Ajudando a fazer arcos e flechas. Correndo como raio atrás das caças ligeiras. Mas seu olhar sempre em cima da donzela que lá vira logo no instante de sua chegada.

 

 

 

O cacique percebia os olhares de ambos. E os suspiros de sua filha. Falou para Abaetê que sua linda filha, sua Anahi, sua linda flor que veio do céu, estava prometida para o filho do cacique de uma taba não muito distante dali e que ficava na outra margem do rio.

 

 

 

O Sol continuava a aparecer no horizonte em cada amanhecer. Trocava com a lua sua posição no firmamento. As estrelas mudavam de lugar. Os dias quentes findaram. Chegou o tempo em que um lençol branco ficava estendido pelas campinas e pela mata. As flores começavam a desabrochar.

 

 

 

Certa noite, quando a lua mais linda no horizonte surgia, Potira, mãe de Anahi, viu sua filha em prantos.

 

 

 

— Uietê…Uietê… Você me deu a vida e a minha vida irá embora amanhã.

 

 

O dia seguinte era o dia marcado para o filho do cacique da tribo vizinha vir acertar a cerimônia de casamento com o pai de Anahi.

 

 

 

— Eu não quero ir morar com ele. Minha vida agora é Abaetê, minha uietê. Ajude sua Anahi a ver a outra lua com o seu amado e não com aquele moço muito feio de nariz torto e beiço grande que mora lá do outro lado do rio.

 

 

 

A mãe da jovem não sabendo como consolar a filha, chorou junto. Foi quando o cacique chegou e viu a cena. A mulher explicou o drama da filha. Mas não havia o que demovesse Cauê. Já havia fumado o cachimbo da amizade com o pai de Sami, o noivo.

 

 

 

— Uievô, eu já deitei na esteira do Abaetê com ele. Não posso ser de outro homem. Se eu tiver que ir morar com Sami eu me jogo no rio pra nunca mais voltar.

 

 

 

Foi então que o céu desabou sobre o cacique e sua mulher. A lua desaparecera no céu atrás de grossas nuvens e logo as águas desceram do alto, furiosamente. Foi uma noite inteira de aguaceiro interminável com rojões rodeando os horizontes que se enchiam dos clarões que Tupã mandava.

 

 

 

Foi uma tempestade tão inesperada que as pirogas que ficavam nas margens do rio e a deslizar por suas águas turbulentas perderam-se na distância para nunca mais serem encontradas.

 

 

 

No dia seguinte o temporal continuava e as margens do rio foram alargando, alargando. Sami tentou a travessia a nado. Mesmo com toda a sua sagacidade em vencer as águas, foi por elas carregado até encontrar o tronco de uma árvore que o salvou.

 

 

 

O cacique Cauê reuniu o conselho dos anciãos e expôs o problema da filha. Que Tupã estava do lado de Anahi e de Abaetê, enviando aquelas águas todas e impedindo a vinda da comitiva da tribo do outro lado do rio. Todos concordaram com o cacique.

 

 

 

E foi assim que Abaetê veio morar com Anahi na grande Oca do cacique Cauê.

 

 

 

Assim que Sami soube que perdera Anahi para um forasteiro que se aproveitara da acolhida e da amizade do cacique Cauê para roubar-lhe a noiva bradou o mais alto grito de guerra que há muitos anos nem os anciões da tribo se lembravam de ter ouvido.

 

 

 

Planejou com os jovens amigos ataques fulgurantes para dizimar a tribo do outro lado do rio. Seu orgulho ferido não o abandonava. Claro que o cacique, seu pai, também ficara com orgulho ferido, mas tentava contemporizar o jovem e seus amigos.

 

 

 

— Os tempos são outros. Temos que nos preparar é contra os brancos. Que roubam nossas terras. Que nos expulsam de nossos territórios. Mas eles são muitos. Eles têm flechas com canos que cospem fogo. São muitos e a cada lua estão entrando mais em nossas matas.

 

 

 

Sami ouviu em silêncio tudo o que seu pai falava. E começou a arquitetar seus planos. Um certo dia falou para a tribo que iria embora. Que por muitas luas ele iria em busca de outra mulher para dormir na esteira com ele. Que iria conhecer as tabas dos brancos.

 

 

 

E assim fez. Juntou suas coisas. Pediu ao pai as pedras coloridas que juntara nas serras distantes. As patacas que um branco dera a seu pai em troca de um carregamento de milho e de aipim e de muitas armas e instrumentos fabricados pela tribo, como facões de pedra, arcos e flechas, além de cuias feitas de barro.

 

 

 

Com seus pertences partiu para o mundo em uma manhã de sol. Ao passar ao largo da taba do cacique Cauê, levantou suas flechas e seu arco aos céus jurando por Tupã que um dia ali voltaria para se vingar.

 

 

 

Caminhou pela mata, ao longo do Rio Negro, por dois dias inteiros. Pernoitara ao relento encostado em uma árvore. Anoitecia quando chegou a uma vila de brancos. Esgueirou-se pelas sombras até encontrar um lugar para se encostar e dormir. Tinha consigo uma cuia de farinha e outra de água. Pode comer algo antes de pegar no sono. No decorrer de sua caminhada pela mata conseguira se alimentar com todo tipo de frutas silvestres que havia encontrando.

 

 

 

Acordou assustado, na madrugada, com o cantar dos galos, quase em cima de sua cabeça. A primeira coisa que precisava fazer era procurar um local onde vendessem roupas de gente branca. Foi fácil. Ou melhor fácil foi encontrar os panos. Quem fizesse as roupas já foi mais difícil. Mostrando as pedras coloridas que trouxera consigo já naquela tarde estava com os calções, uma camisa e um gibão igual aos demais transeuntes que via pelas ruas. O problema era acostumar-se a andar calçado. Mas para que seus planos dessem certo, precisaria aprender. Ficou a observar como andavam aqueles homens com um enorme cano de couro em cada perna. Tinha tempo. Começou com uma sandália igual à que vira nos pés dos padres franciscanos que por sua taba apareciam.

 

 

 

Muito perspicaz logo percebeu um amontoado de gente acampada na saída do povoado que dava para as bandas do norte. Puxou conversa. Até que se saía bem com seu português meio trôpego ainda, mas o suficiente para se fazer entender com aquela gente rústica que lá encontrou.

 

 

 

Logo descobriu que eram dois grupos distintos. Um deles era composto por tropeiros que tangiam uma manada de gado vinda do sul. O outro, vindo das plagas do norte, era de pessoas que conduziam uma récua de mulas, carregadas com pesados fardos em seus lombos.

 

 

 

Explicou que procurava trabalho e que tinha muita destreza com arco e flecha. Precisava saber como se usa um fuzil. Demonstrou muita habilidade, com seu cavalo, para tanger o gado. Não demorou muito já fazia parte da caravana que se dirigia para o norte. E assim tornou-se exímio em usar armas de fogo de cano comprido. Em montar em um cavalo encilhado e com arreios. Mais algum tempo e as botas de cano longo já pareciam ter nascido em seus membros inferiores.

 

 

 

Calculou o tempo em que a caravana estaria de volta. Eram luas suficientes para executar o seu plano de vingança. Imaginou chegar na oca do cacique Cauê antes que o filho daquele forasteiro nascesse. Para que nem vivo visse a luz do sol.

 

 

E foi assim que naquela noite Avati, o Ser Iluminado, veio ao mundo.

 

 

 

*Trecho de um livro em construção.