A velha casa que era branca…


Lá está ela, a casa que era branca, ao lado do riacho, quase junto às águas do rio que ao seu lado corre

 

Quando a amiga fala na velha casa, com lágrimas inundando sua face, baixinho murmura, que em seus pensares, talvez, ela nunca existiu. Porque curto foi o tempo de vida lá vivido. Uma casa que era branca, encardida pelo tempo que a transformou num amarelo desbotado, mesclado por escuras riscas que por suas paredes escorrem, tornando tudo tão obscuro, como se fantasmas do mal, por lá tivessem passado.

 

 

Lá está ela, a casa que era branca, ao lado do riacho, quase junto às águas do rio que ao seu lado corre. Lá está a casa, que a cada dia, mais triste ficou, desde os tempos em que poemas em suas paredes eram escritos. Desde os tempos em que nela violões solavam serestas.

 

 

Não, a amiga não morava na velha casa que era branca. Mas foram tão cheias de encantamentos as horas nela vividas, que era como se fosse o ninho onde nascera.

 

 

 

Ao o entardecer, depois de terminar seus afazeres era para lá que ela corria a fim de contar de seus amores, de seus dissabores. Era lá que sempre encontrava um abraço amigo e um café quentinho que amenizava todas as agruras passadas.

 

 

 

Porque lá morava uma fada. Não uma fada qualquer. Morava a Fada. Uma Fada que contava histórias. Histórias alegres ou tristes histórias, mas sempre histórias de um mundo que não parecia real.

 

 

 

Uma Fada que escrevia poemas. Uma Fada que contava de vidas passadas entre nuvens e nenúfares da beira de lagoas que só à beira-mar existem.

 

 

 

Ou falava de épicos episódios em que cavaleiros andantes livravam donzelas das mãos de impetuosos ogros que viviam em castelos dos tempos medievais.

 

 

 

 

As noites eram lindas. Eram cheias de encantamentos. Liam poemas que ambas escreviam. Falavam de amores passados e presentes. E dos livros que ainda iriam publicar.

 

 

 

Debulhavam as páginas literárias dos grandes jornais. Sim, confirmou-me a amiga, todos os jornais tinham até suplementos literários, com poesias, com crônicas, com resenha de livros, com críticas de livros, com listas dos livros mais vendidos. Enfim, as conversas eram verdadeiros saraus literários.

 

 

Horas deliciosas a ler poemas e livros de tantos autores. Horas deliciosas a escrever e a ler poemas que elas escreviam. Ouvindo melodias naqueles pequenos gravadores movidos a pilha, os minicassetes. Ouvindo clássicos dos grandes mestres. Ouvindo Bethania e Gal, Chico e Roberto, Simone e Maria Creuza. Ouvindo Joan Baez e Violeta Parra, Mercedes Sosa e os Beatles.

 

 

 

Nas madrugadas geladas jogavam água quente no para-brisa do carro, conta minha amiga. Porque o gelo nele se acumulava. E feliz, ao luar, ela seguia rumo a sua casa que ficava num bairro distante.

 

 

 

Mas não era de fada a vida da moça que vivia na casa que era branca. Ela sorria para o mundo, ela fazia sorrir o mundo, mas quando o mundo a deixava ela sufocava nos dissabores que eram dela. A opressão que a envolvia de todos os lados ela jamais deixava extravasar quando lia suas poesias para os amigos que a rodeavam.

 

 

Num dia qualquer, sentada à escrivaninha em sua sala, minha amiga vê, de relance, folhas de papel sendo passados sob a soleira da porta. Rápida levantou-se e nem sequer a sombra de quem as deixara ela viu.

 

 

Era uma longa carta. Que a Fada escrevera. Na qual, em poemas, mostrou o lado negro em que vivia. A opressão que vinha de todos os lados. A sensação que sentia de se ver enclausurada entre quatro paredes. A tristeza de não poder ir para a praça declamar seus versos. De se sentir esmagada após cada folha de inspiradas frases escritas.

 

 

 

E a amiga entendeu que naquela casa branca, que depois ficou velha, tosca e encardida, com negrumes pelas paredes escorrendo, os amigos não poderiam entrar mais. Para que a Fada não sofresse as consequências por se envolver com amigos de tribos tão diferentes daqueles com quem ela vivia.

 

 

 

Mas amigos não desistem. E a Fada continuou a viver a sua vida imaginária onde, como e quando podia.

 

 

 

Da velha casa branca, que fica ao lado de um riacho e bem perto do rio, a minha amiga disse só conhecer a cozinha e a pequena sala onde faziam os saudosos serões. Parecia uma grande construção. Mas a Fada, e quem com ela vivia, apenas poucos cômodos ocupava. Porque com pouco sobreviviam. Com pouco de material. Porque a Fada habitava outros mundos, cercada por filósofos e sábios, escritores e poetas, dramaturgos e artistas.

 

 

 

Num triste dia cinzento, porque cinzentos sempre são os dias tristes, a Fada precisou deixar a casa que era branca e que fica lá longe à beira do riacho. A Fada Maior, que era a dona do recanto de sonhos, vendeu-o para alguém que tinha um coração de pedra e a Fada teve que procurar outro canto para morar.

 

 

 

E ela, que era só poesia e sonhos, teve que peregrinar pelas ruas da cidade, em busca de um canto onde pudesse repousar seu corpo e cozinhar seu feijão.

 

 

 

E tinha que ficar ouvindo sermões de todos os lados. De todas as famílias que a rodeavam.

 

“Escrever não dá comida a ninguém”.

 

 

“Procure um serviço que traga o pão para casa”

 

 

 

E milhares de palavras assim que a feriam profundamente.

 

 

Queimavam seus poemas, às gargalhadas. Riam-se de seus sonhos e de suas aspirações. Inventavam melodramas jamais vistos e jamais ouvidos para alarmá-la.

 

 

 

E a Fada, que já tinha o seu lado depressivo, profundamente marcado, estourou em laivos de fúria interior inimagináveis.

 

 

Foi então, que começou a escrever, e a enterrar em canos escondidos, nos quintais das pobres casas onde morava, todos os versos que as musas inspiradoras colocavam na ponta de seus dedos, e que para uma imensidão de coloridas e finas folhas de papel ela transferia.

 

 

Coloridas e tênues folhas de papel escritos com canetinhas pretas de ponta fina que os inseparáveis amigos jamais deixaram de, às escondidas, lhe entregar.

 

 

 

Mas a moeda sonante, que é tão necessária para que a vida continue, era o doloroso e concreto motivo para que as andanças continuassem. E para longe, muito longe, a Fada e sua família teve que partir. Em busca do pão material para sobreviver.

 

 

 

Mesmo de longe, das terras dos rodeios dos ventos a Fada continuou a escrever suas cartas-poemas. Mesmo de longe, das serras longínquas, onde tombaram os últimos remanescentes da grande guerra, que há um século, assolou nosso chão, a Fada continuava a escrever seus poemas, inspirada pelo tênue clarão de uma lua que morria, ou de uma Vênus que nascia.

 

 

 

A Fada perambulou por mais algumas estações, de teto em teto, até o dia em que os seus anjos acharam que era tempo de recolhê-la para a Morada Maior onde ela poderia derramar todos as poesias retidas em seu âmago.

 

 

 

E a velha casa, que fora branca, a velha casa que ouviu poemas líricos espalhados pelo chão, a velha casa com paredes impregnadas de poesia, ainda lá está.

 

 

A velha casa com paredes encardidas, com a cor de um quase amarelo desbotado e riscas enegrecidas a escorrer por toda parte, quanto lirismo teria para contar.

 

 

Por isto a minha amiga não gosta de passar por aquela rua, ao lado do riacho, quase às margens das águas do velho rio.

 

 

Porque a saudade que a invade é muito grande e ela não aceita ver um mundo de lirismo relegado apenas aos fantasmas do passado.

 





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