A regra do jogo


Ao entrar na disputa eleitoral todos os candidatos tinham as regras do jogo ao dispor

 

 

 

Alexandre Douvan*

 

 

Há algumas semanas os brasileiros acompanham com ar de estranheza a apuração das eleições estadunidenses. O sistema de delegados, o “vencedor leva todos” e o voto proporcional de alguns estados provocaram questionamentos sobre aquilo ser de fato uma democracia. Enfim, as eleições de lá passaram e agora estão na recontagem (de praxe) dos votos, e aqui nós fomos às urnas no dia 15 de novembro.

 

 

Os resultados das eleições municipais, que saem no mesmo dia por conta do avançado sistema das urnas eletrônicas, mostram que é mais que necessário darmos um passo atrás para repensar a educação política que recebemos e o próprio sistema que utilizamos.

 

 

Ao entrar na disputa eleitoral todos os candidatos tinham as regras do jogo ao dispor. O modelo de eleição de acordo com o número de votos recebidos por cada partido não foi criado no dia 15 de novembro e todos aqueles que foram para a disputa, inclusive os eleitores, tiveram totais condições de conhecê-lo, seja por meio dos jornais ou por pesquisa própria no sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

 

 

Depois que a eleição passa, não adianta reclamar como ocorre em São Mateus do Sul (PR), onde um candidato a vereador foi o 4º mais votado (nove cadeiras) e não pôde assumir porque seu partido não fez votos suficientes. Com isso algumas pessoas chegaram até a organizar um ato contra o sistema eleitoral.

 

 

Uma coisa é clara: a exigência de que o partido tenha determinado número de votos para que um vereador possa se eleger contraria o preceito básico da democracia, que é a escolha dos cidadãos. O modelo que aplicamos elege, de fato, partidos e a partir desses partidos eleitos os seus candidatos com mais votos assumem.

 

 

Se por um lado falta esclarecimento da população sobre o funcionamento das eleições, também falta à legislação eleitoral se livrar da plutocracia na qual está submersa.

 

 

Quando um candidato faz campanha e apresenta suas propostas e ganha a confiança do eleitor, entende-se por senso comum – e com os pés na realidade – que o eleitor deposita seu voto naquele indivíduo e não em seu partido (que pode mudar a qualquer momento). Mas de nada adianta gritar na rua, estender faixas nas praças ou exigir a renúncia dos adversários, nenhum município do interior tem condições de alterar a Lei Eleitoral.

 

 

Como se não bastassem os problemas com o modelo empregado, alguns gaiatos que aparentam não ter o mínimo conhecimento acusam as urnas eletrônicas de proporcionarem fraudes, e ainda têm a empáfia de dizer que o voto em papel é mais seguro. Como o presidente que não conseguiu se reeleger nos EUA, a “fraude” aqui também não têm provas, nem indícios, nem nada. Tudo não passa de fabulações de mentes mesquinhas, desconexas da realidade e com claras dificuldades de aceitar que perderam: é o típico “só é fraude se eu perdi”.

 

 

Mas o Brasil guarda suas singularidades. Com o modelo eleitoral da Terra Plana, o eleitor se sente cada vez mais distante da política, note-se o volume recorde de abstenções, votos nulos e brancos. Aguardar calado que Congresso se prontifique a fazer mudanças parece ineficaz. O que realmente pode adiantar é começar agora a formular propostas, entrar em contato com os deputados federais e senadores de cada região e pedir para que se trabalhem na reformulação do sistema. Depois da eleição, não adianta espernear.

 

 

*Alexandre Douvan é estudante de Jornalismo





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