A polêmica da escola sem partido

Sessão que sepultou o projeto nesta legislatura/Alex Ferreira/Câmara dos Deputados

Não é de hoje que se queixam pais, alunos, professores e a imprensa sobre o engajamento gramsciano de alguns professores

 

 

 


Walter Marcos Knaesel Birkner*

 

O projeto Escola sem partido, que proíbe posicionamentos ideológicos e a menção ao conceito de gênero nas escolas, foi arquivado pela comissão homônima na Câmara dos Deputados. Fico imaginando o que, por trás daquela barba cinza, deve ter pensado disso o meu Big Brother Oscar. Dá pra vê-lo daqui balançando a cabeça, dizendo naquele canoinhês genuíno: Por favor, me poupe! Mas é assim mesmo, Conceição: de um lado ou de outro, a patuleia está sempre no poder e é preciso ter discernimento e estômago, por duas razões: primeiro porque a ideia, por ingênua e irascível que seja, não veio do nada. Segundo, porque é inviável, anacrônica e ausente de empatia. E se o Olavo de Carvalho a rejeita, a tigrada perdeu o apoio de que precisava.

 

 

Antes de rechaçar o projeto e ridicularizar a ideia, creio que certa generosidade seja útil para compreender a iniciativa. Não é de hoje que se queixam pais, alunos, professores e a imprensa sobre o engajamento gramsciano de alguns professores de história, de sociologia e filosofia nas salas de aula. Acontece no ensino médio e nas universidades, há décadas. Pra quem não sabe, nem tem a obrigação de saber, esse engajamento é o produto orientado do desígnio geral do filósofo italiano Antonio Gramsci, da primeira metade do século XX. Seu pressuposto é o de que a revolução socialista não se daria mais pelas armas, e sim pelo campo da cultura, por meio da disseminação de narrativas e do método de análise crítica da realidade.

 

 

Pois bem, então, era só estudar a teoria crítica da Escola de Frankfurt (sempre esses alemães, ora reacionários, ora libertários e associados a esses italianos, ora fascistas, ora anarquistas) e partir para as ações culturais, sendo as salas de aulas o terreno mais fértil e ponto de partida para a transformação do sistema social. E se dariam por meio do engajamento dos “intelectuais orgânicos”, denominação de Gramsci, pra designar os agentes da revolução cultural, significando aqueles que compreenderiam o organismo por dentro e de dentro o mudariam, por meio das ideias. Qualquer associação com o engajamento religioso por meio da disseminação das ideias de Cristo não é mera coincidência. Trata-se da convicção de que é preciso purificar e salvar a humanidade.

 

 

Por traz de tudo isso, diria o amigo Bazzanella, está o fundo judaico-cristão na tentativa de dar ordem ao caos e encontrar uma grande solução regeneradora a salvar os homens do pecado original. Da direita à esquerda, há sempre uma inquietação pulsante, descontente com as imperfeições e as injustiças do mundo. Da escravidão dos povos à subserviência dos súditos, das desigualdades do mercado às loucuras de governos corruptos e insanos, sempre haverá paladinos da justiça. Estamos sempre e saudavelmente descontentes, como sugeriu o gênio eslavo Dostoievski: que quando a humanidade tiver resolvido todos os seus problemas, alguém meterá o pé no fundo da mesa, cadeiras voarão e tudo começará de novo: eterna insatisfação humana.

 

 

É possível compreender os que simpatizam com a Escola sem partido. Homens e mulheres, ordeiros e crentes nas palavras do Senhor, sempre enfrentaram os problemas da vida com certo realismo conformista. O mundo é assim mesmo e não há muito a fazer senão seguir as orientações dos textos sagrados. Estes são carregados de mensagens de autoajuda e responsabilização própria sobre os problemas da vida e da busca da felicidade. É coincidente com o espirito pequeno-burguês que trouxe paz e prosperidade ao mundo. Toda vez que pessoas assim ouvem invocações “revolucionárias” de caráter coletivo, desconfiam delas. Para eles, a solução está em cada um, na relação com Deus e não na política. Por isso Marx dizia que a religião é o ópio do povo.

 

 

Mas não se preocupem os pais conservadores, a quem devemos todo o respeito. As escolas estão dominadas por demandas atomizadas de indivíduos cada vez mais portadores de seus direitos e protegidos pelo Estado. Eles não querem revoluções e professores engajados não tem esse poder. Pais deveriam mesmo é se preocupar em devolver aos professores a autoridade e a autonomia perdidas pelo paradoxal egoísmo expresso nas atitudes de adolescentes por eles mimados. As revoluções estão vindo das redes sociais. Apenas alguns alunos são influenciados por professores engajados, da mesma maneira que seriam por pseudoprofetas religiosos. Esses jovens estão apenas em busca de algo e não é a escola que lhes mostrará o mal caminho, ao contrário.

 

 



Agora voltemos à sala de aula. Lá está o professor, desde o conservador, o criacionista  ultraconservador, o religioso, o nacionalista, o globalista, o liberal democrata, o evolucionista, o neoliberal, o reacionário, o progressista, o esquerdista radical e o new left (designação à esquerda liberal identitária). De modo geral, todos proselitistas, seja em nome da ciência, seja em nome de valores correspondentes à sua formação familiar e educacional. Todos, sem exceção, dotados de subjetividade, visão de mundo e convicções de toda a ordem. Tente-se, por um momento, imaginar que se lhes possa retirar o que de mais humano possuem: suas opiniões. Imagine o sábio leitor que seja possível falar de religião, de política, de economia, de música e de cultura, sem manifestar suas subjetividades.

 

 

Fazê-lo de maneira mais ou menos explícita é só uma questão de elegância e habilidade. Explicar conteúdos sem lançar mão de suas opiniões é quase impensável. Mesmo o mais discreto dos professores o fará, de maneira sutil, até mesmo inintencionalmente e formará opiniões, porque os alunos querem saber o que ele pensa. E quando há discordância, ah! Aí está o momento mais incômodo, mas também entre os mais criativos do aprendizado. Acreditar que a educação mais conveniente é aquela que impedirá o professor engajado de vociferar contra o capitalismo ou insinuar a inexistência de Deus é desconhecer o processo educacional. Tal crença revela no fundo quem são os verdadeiros adeptos da doutrinação: os que não suportam o contraditório. E isso, numa sociedade diversa e liberal-democrática é autoritário e anacrônico.

 

 

Nosso valores e crenças mais sagrados precisam ser questionados. Família, gênero, raça, economia, política, costumes e concepções de mundo, tudo deve ser objeto de crítica. Me lembro de um amigo de trabalho, hoje pastor, que estudava teologia em São Leopoldo (RS). Disse-me ele que o professor que mais o marcou foi um teólogo que, no primeiro dia de aula, afirmou com todas as letras: desacreditem em tudo que lhes disseram até agora. Ao que perguntou o jovem estudante, Deus inclusive? “A começar por Ele”, teria dito o mestre. Se Giordano Bruno, Galileu, Copérnico, Machiavel e Luthero, como tantos outros, não tivessem questionado nossas mais sagradas crenças, nem a Terra seria redonda, nem a diversidade religiosa seria respeitada. O que pensa disso o pastor e sociólogo Rodnei Câmara?

 

 

Lembro-me de outro provérbio, clássico entre os liberais, ora atribuído ao francês Georges Clemenceau, ora ao inglês Winston Churchill. Para os efeitos desta crônica, interessa a primeira parte e diz mais ou menos assim, que “Quem não é socialista aos vinte anos é porque não tem coração”. Pessoalmente, não sou socialista porque não acredito na pureza das ideias, mas o socialismo me ajudou a sonhar e é de sonhos que vivem os jovens. Sei o quanto um professor pode ser insuportavelmente  provocativo, o que me fez lembrar de mestres como Tadeu Mikovski, Sálvio Miller e Valdir Floriani, que me irritavam com seu antissocialismo – Eu tinha vinte e poucos. Lembro do que dizia o Gal. Golbery do Couto e Silva, que “a provocação e a crítica são o sal da vida”.

 

 

Aliás, o “satânico Doutor Gô”, “mago da ditadura militar”, era um estrategista e também um teórico anticomunista exemplar. Justificou teoricamente a necessidade da intervenção de 1964 para livrar o País dos comunistas e do populismo. Baseava-se na filosofia da história do Ocidente e na visão antropológica sobre o povo brasileiro, que aprendeu de Oliveira Vianna e Alberto Torres. Pois não é que foi acusado de comunista, juntamente com o ex-presidente Ernesto Geisel! E por quem? Pelo filósofo Olavo de Carvalho, o “guru” da new right. Quem quiser entender isso precisa ler o livro de Flávio Gordon, intitulado “A corrupção da inteligência”. Ou então assistir ao filósofo criticando os dois generais gaúchos pelo Youtube.

 

 

Carvalho também é acusado de doutrinador da new right. Professores e alunos “progressistas” o execram e arrepiam-se imaginando os estragos na formação de alunos, com a sua “doutrinação de direita”. Mas a esquerda de verdade (e ela existe, mesmo entre os eleitores da esquerda de mentira) tem uma vantagem em relação à direita de mentira (essa também existe, infiltrada na direita de verdade que comporá o próximo governo): ela suporta o debate das ideias contrárias, e nisso se aproxima da direita de verdade, por mais que isso irrite maniqueístas de ambos os lados. No mesmo Youtube podemos encontrar o referido filósofo descendo o sarrafo no recém sepultado projeto. Ali, o Professor Olavo lembra que já defende, há anos, a Escola sem censura, lema discretamente propalado pelos progressistas, enterrando de vez e pra sempre a Escola sem partido.

 

 

Liberdade sempre.

 

 

*Walter Marcos Knaesel Birkner é sociólogo e professor

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