A nova política e a velha política ou do envelhecimento precoce da nova política


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A educação é o bem mais precioso que uma sociedade possui. Desconsiderá-la é o caminho mais curto para a mediocridade

 

 

 

Dr. Sandro Luiz Bazzanella

 

 

Vivemos tempos sombrios, confusos. Há um mal-estar (Freud) que paira entre nós. Algo deu errado. Erramos novamente.As expectativas de país emergente se esboroaram. A atual condição é periclitante. Submergente. Frustração generalizada. É preciso encontrar o bode. Ele tem que expiar a culpa. A turba ensandecida na praça do mercado vaticina: “Sim, a culpa é das esquerdas”. D’outro lado gritam “é dos comunistas”. “É da balbúrdia das universidades públicas”. “Do excesso de pesquisas”. “A culpa é das ciências humanas”. Outros ainda acham que a culpa é do excesso de lombadas eletrônicas nas rodovias. Mas, há também aqueles que acham que a culpa é das cadeirinhas de segurança para transporte de crianças afixadas no banco de trás dos automóveis. Os mais afeitos às letras e aos números dirão que a culpa é da precariedade do ensino fundamental brasileiro… e, pois, segue …. É um momento de catarse coletiva. Precisamos nos depurar. Livrarmo-nos dos demônios que impedem nosso desenvolvimento. E realmente eles não são poucos.

 

 

 

Crises são oportunidades. Estamos diante de mais uma oportunidade (muitas outras já se apresentaram) de reconhecermos traços constitutivos de nossa conformação social. Somos uma sociedade marcada em suas origens pela desigualdade social, pelo preconceito, pela violência e agressividade nas relações individuais, sociais e institucionais. Cultivamos o jeitinho, que se caracteriza pela prática do disfarce, da “enrolação”. O jeitinho é a forma prática de fazer as coisas de qualquer jeito. Somos uma sociedade da desconfiança generalizada e institucionalizada. Das relações pessoais às comunitárias, aos órgãos de governo cultivamos o apreço por assinaturas, carimbos, departamentos, subdepartamentos e avalizações cartorárias. A burocratização, o ato de dificultar tudo o que pode ser simplificado é uma de nossas características mais exuberantes. Falta-nos de longa data o apreço pelo raciocínio reto e pela ação honesta. Falta-nos o apreço necessário pela educação. Enquanto Brasília é uma obra prima da arquitetura moderna e, o poder judiciário constrói palácios (Fóruns) nos mais ermos e pobres rincões deste país, escolas não possuem em pleno século XXI uma biblioteca. No solo desta pátria “mãe gentil” (?) jogadores de futebol e alguns segmentos do funcionalismo público (legislativo e judiciário) possuem salários escandalosos. Porém, massas de professores convivem diariamente com o desrespeito, senão a indiferença com o seu fazer profissional. A afronta à sua dedicação profissional se expressa em sua miserabilidade salarial.

 

 

 

 

A crise que estamos atravessando é a oportunidade de nos reconhecermos profundamente. Somos assim mesmo. Sociedade de memória curta e de baixa capacidade de consenso em relação aos interesses públicos. Desconhecemos – porque não tivemos apreço pelos estudos – de que nossa dinâmica de desenvolvimento político, econômico e social é cíclica. Similar ao voo das galinhas: “de curta duração e de baixa intensidade”.  Em períodos que variam de 20 a 30 anos, aproximadamente conseguimos nos meter em profundos atoleiros. Comprometemos as expectativas de vida e de desenvolvimento dos jovens no esforço de reconstrução, que fatalmente sofrerá uma solução de continuidade logo ali na frente. Este diagnóstico já foi fartamente pesquisado, analisado e refletido pelas ciências humanas e sociais ao longo do século XVIII, XIX, XX e XXI. Mas, antes que reconhecer tal condição prefere-se perseguir estas áreas do conhecimento. Cortar seus míseros recursos. Difamá-la. Agimos como as avestruzes que diante do perigo colocam a cabeça debaixo d’areia como estratégia de proteção.

 

 

 

Nossos limites, ou até mesmo da má vontade de compreensão de nossa forma de ser como sociedade brasileira projeta-se no “Capitão” (na forma do Messias), no Super Ministro, no Paladino da Justiça, as correções de curto prazo de nossas mazelas seculares.  Ao modo do jeitinho encontramos a saída, senão a salvação nas supostas boas intenções daqueles que foram eleitos para tal fim, mas que supostamente são impedidos de fazê-lo a contendo, por conta de corporações e forças obscuras impeditivas do desenvolvimento do país.

 

 

 

Porém, o problema é complexo. Transcende a condição tupiniquim.  Temos dificuldade em compreender suficientemente o que está acontecendo conosco. Nestas circunstâncias, diante dos limites de entendimento da natureza das contradições que nos assiste, reagimos. A reação se caracteriza pela imediatez das explicações, pelos radicalismos das posições e, não menos intenso pela intolerância e manifestações de ódio. O filósofo francês Alan Badiou em sua obra “O século” argumenta que o século XX caracterizou-se pela materialização e vivência dos conceitos gestados nos séculos XIX. Porém, a intensidade dos acontecimentos nas primeiras décadas século XX, como a primeira e segunda guerras mundiais, a divisão das áreas de influência entre o bloco capitalista e socialista (guerra fria até sua derrocada com a queda do Muro de Berlim 1989), bem como  o conjunto de conflitos em diversas partes do mundo, dificultaram o século XX a forjar conceitos e categorias analíticas compreensivas do século. Também ficou comprometida a gestação das categorias e conceitos para a entrada no século XXI.

 

 

 

No conjunto destes eventos, em fins dos anos 1960 do século XX intensificam-se mudanças no regime de acumulação do capital. O velho capitalismo industrial dos séculos XVIII e XIX impulsionado pela produção massificada para fins militares na segunda guerra mundial começa a ceder espaço em função dos avanços científicos e tecnológicos ao capital financeiro. O regime de acumulação pautado na produção de mercadoria gerando capital reinvestido na produção de novas mercadorias cede espaço para capital que remunera novamente o capital. Some-se a esta condição o avanço dos meios de comunicação que transformaram o mundo numa aldeia global. Romperam-se os limites para a circulação do capital, que viaja a velocidade da luz por meio das bolsas de valores em busca dos melhores juros.  O crédito se tornou um absoluto na vida de povos e nações.

 

 

 

Neste contexto, alguns dos principais conceitos que balizavam interpretações e formas de ação desmoronaram. A soberania nacional  foi substituída pela soberania da economia financeirizada.  Projetos de desenvolvimento nacional foram substituídos por projetos de desenvolvimento local, regional, entre outras variáveis. Os Estados foram reduzidos a agências emissoras de títulos de crédito exigidos no regime de acumulação do capital financeiro.  O Estado-nação penhora o recurso humano (população) como garantia para obter acesso a crédito. Partidos tornaram-se agremiações. A democracia representativa representa a si mesma. A mentira torna-se verdade instantaneamente (fake news) substituída por outra mentira/verdade. E assim caminha a humanidade…

 

 

 

 

O paradoxo desta condição, é que a sociedade brasileira parece passar ao longo do século XX alheia a estas transformações. Envolta em  sua lógica cíclica de golpes e contragolpes em intervalos aproximados de 20 ou trinta anos não logrou constituir um projeto estratégico de desenvolvimento num mundo financeirizado e globalizado. De forma retardatária o golpe de 1964 foi justificado como política e juridicamente como contenção do comunismo em solo tupiniquim. No entanto, os governos militares, sobretudo o governo do General Ernesto Geisel (1974 a 1979), foram mais estatizantes do que muitos regimes comunistas mundo a fora.  Com o esgotamento dos governos  militares e o retorno dos governos civis a partir de 1984 mergulhamos numa profunda crise econômica que caracterizou os anos 80 como a década perdida. Com a promulgação da Constituição de 1988 entramos num ciclo marcado pelos esforços de construção de um parco estado de bem estar social. Fenômeno político e econômico que chega nestas terras com quase meio século de atraso em relação às nações desenvolvidas.  Aos trancos e barrancos o ano de 2014 representa o fechamento de mais um ciclo político e econômico iniciado em 1984.

 

 

 

Desgraçadamente nos encontramos perdidos. Abre-se a temporada de caça às bruxas. Desprovidos de um projeto de desenvolvimento estratégico pactuado entre os diversos segmentos da sociedade brasileira (realmente uma miragem numa sociedade cuja tessitura história é mercada pela violência e pela desconfiança), estamos à mercê da liderança do capitão, que conforme os fatos demonstram de forma inequívoca desde o período eleitoral encontra-se desprovido de uma concepção suficiente de estado e, de uma proposta de desenvolvimento suficiente.

 

 

 

É sob tais perspectivas, que presenciamos cotidianamente anúncios de medidas provisórias e decretos que flertam com práticas populistas que demarcam em certos aspectos retrocessos sociais. Ou ainda, com a imposição de uma necessária, mas obscura (corporações não foram incluídas no texto reforma, o que indica a manutenção de privilégios) reforma da previdência em que os mais diversos setores da sociedade brasileira foram alijados do debate em torno da mesma.  Mas, a pedra de toque de toda esta avassaladora avalanche (ou gambiarra) política, econômica e jurídica em curso se apresenta no sintagma: “Nova Política” em contraponto a velha política. Assim, a Nova Política reúne sob seu espectro tendência liberal na economia e conservadora nos costumes. É avessa a negociação com os diversos segmentos políticos na conformação das relações de poder. No entanto, governa sob os pressupostos do presidencialismo de coalizão.  E, tudo indica que a Nova Política esta desprovida de uma política de afirmação de um projeto estratégico de desenvolvimento do Estado brasileiro, seja no contexto latino americano, seja no contexto mundial.  Ainda nesta direção, tem-se a percepção de que a Nova Política se apresenta submissa aos imperativos da economia de crédito global.  Talvez seja por este motivo é que assistimos cotidianamente a uma espécie de encenação trágico-cômica da cena política nacional.

 

 

 

 

Enfim, a Nova Política ao desconsiderar que a natureza da política, desde tempos imemoriais – desde que Deus criou o mundo, ou desde o momento em que nossos ancestrais desceram das árvores, como cada um achar melhor-  apresenta-se muito próxima de práticas totalitárias de exercício do poder. Política é  produção e negociação das relações de poder constitutivas de uma sociedade. Sociedades desenvolvidas se caracterizam pelo equilibro, pelo bom senso, pela capacidade de estabelecer consensos nas relações de poder entre os diversos grupos e segmentos que a compõem.  Ou seja, desenvolvimento requer confiança, capacidade de diálogo, respeito à coisa pública como valor inegociável, intransferível.  Talvez se possa afirmar com certa propriedade que nossas contradições residem na ausência – desde os primeiros momentos deste território de conformação continental-,de uma educação de qualidade. Assim, é possível supor que se a sociedade brasileira tivesse desde suas origens acesso, cuidado, e zelo em relação ao conhecimento da trajetória política, social, econômica e, cultural de outros povos desenvolvidos teríamos a algum tempo encontrado nosso próprio caminho, com soberania e altivez.

 

 

 

A educação é o bem mais precioso que uma sociedade possui. Desconsiderá-la é o caminho mais curto para a mediocridade. Desvalorizar, ameaçar, chantagear professores é  receita infalível para o embrutecimento social, político, bem como a inércia econômica. Difamar os parcos investimentos em pesquisa e formulação de conhecimentos que ampliam a visão de mundo e intensificam a capacidade de ação é a receita para a barbárie. A importância desta crise se constituirá se conseguirmos “aprender” a nos reconhecer em nossas fragilidades societárias. Porém, aprender requer atenção, paciência, respeito pelo diálogo e, sobretudo a abertura para o debate e apresentação de novas ideias, sobretudo em relação às ideias que confrontam nossas simplórias, cômodas e apaixonadas percepções de mundo.

 

 

 

*Dr. Sandro Luiz Bazzanella é professor de Filosofia

 





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