A longa viagem de volta para casa


Aeroporto Leonardo da Vinci/Arquivo

 Enquanto nos despedíamos do ar daquele verão romano, saboreamos nossa última refeição na terra de nossos ancestrais

 

 

Olhamos pela última vez o encantado bosque, logo atrás das piscinas de nosso hotel em Roma. Um verde aconchegante acoplado ao azul das águas. Enquanto nos despedíamos do ar daquele verão romano, saboreamos nossa última refeição na terra de nossos ancestrais.

 

 

Minha amiga contando causos de sua vida. Do aprazível bairro onde reside em Buenos Aires. Do Belgrano que tantas vezes, desde criança, eu ouvira contar. Falei-lhe das vezes em que lá estive. De minha madrinha Elfrida Olsen. Que morava exatamente naquele local.

 

 

Disse a ela que as mesmas células de tudo que é ser vivo e mesmo moléculas de minerais, desde o simples terrão, que rolam aos nossos pés, aqui nas margens dos rios que neste planalto norte de Santa Catarina nos cercam, inevitavelmente, através das águas, chegam ao delta do Rio Paraná e ao estuário do Prata onde ela vive. Contei-lhe do caminho destas águas, contei-lhe da madeira e da erva-mate que através destas águas eram transportadas até onde era possível. E onde não, por via férrea seguiam.

 

 

 

Que minha madrinha e sua família, em trem viajavam, desde a minha vila encantada até Buenos Aires. Que na minha mais tenra infância aquela famosa cidade ficava muito próxima daqui. Logo depois do primeiro pontilhão onde o trem fazia a volta. Pois não era de uma rádio chamada El Mundo que muitas notícias e músicas, em nosso possante rádio de ondas curtas, médias e longas, em minha casa, diariamente, ouvíamos?

 

 

E Júlia falava-me de sua família, de seus filhos, de seus netos. Que não era a vez primeira que pisava o solo onde nasceram seus avós. Contou-me que escreve também. Mas que não tem livros publicados. Ainda. Fiquei triste por já não ter comigo mais nenhum exemplar para presenteá-la. Como o fizera aos amigos de São Paulo e ao pessoal do hotel de Verona.

 

 

 

O carro que a levaria ao aeroporto só chegaria às 14 horas. O meu, uma hora mais tarde. Então ficamos no saguão do hotel a trocar figurinhas. Endereços. Telefones. Whatsapp. Quem sabe, algum dia eu retornaria a Buenos Aires? Ou Júlia por nossas bandas aportaria? Quem Sabe. Falei-lhe do romance “Pentimento” no qual a escritora Lilian Helmann conta a incrível história de Júlia. Amizades são assim.

 

 

 

Enquanto, bem acomodadas nas poltronas, continuávamos nossas conversas ouvimos nossos nomes em alto e bom som. Claro que o motorista encarregado de nos levar até Fiumicino, onde se situa o aeroporto Leonardo da Vinci, não tinha interesse em realizar duas viagens. E a mim, tanto me importava ficar esperando no saguão do hotel ou na área de embarque de uma empresa aérea.

 

 

 

Pegamos nossas bagagens e lá fomos nós ouvindo, no decorrer de todo o trajeto, as prosopopeias de um bem humorado e falante motorista romano. Que nós deixamos de ver o principal, o que de melhor em Roma existe. Que há outros mundos além daqueles que nós vimos em apenas dois dias. De nada adiantava explicar que outras vezes, por lá, já andáramos. E que, mesmo que ficássemos por um ano a perambular por Roma, mesmo assim, não conseguiríamos ver e nos aprofundar em toda a sua história, arte e cultura milenar.

 

 

 

Júlia tomaria um avião da Alitália, num voo direto para Buenos Aires. Como eu viajara pela Latam, seguindo de São Paulo diretamente para Milão, teria de me conformar, como acontecera, ainda na parte da manhã, com meus amigos paulistas, com escalas pelos caminhos. Haviam seguido pela Ibéria até Madri. Eu seguiria pela Lufthansa até Frankfurt, para só então pegar um voo até São Paulo. Fizemos um tour defronte aos terminais do imenso aeroporto. E o carro a correr. E o motorista em busca de nosso terminal. Coincidentemente ambas tomaríamos nossos voos no mesmo. Que a meu ver, já tinha ficado para trás. Mas o impetuoso e prolixo motorista romano dizia saber de tudo e que nos deixaria no correto local. Coincidentemente, Júlia e eu desembarcaríamos do carro no mesmo terminal. Deixou-nos no último. Desembarcamos, com nossas malas, sacolas, bolsas e demais bagagens de mão. Entramos no imenso saguão. Despedimo-nos.

 

 

 

Naquela desconhecida e tumultuada parafernália de empresas aéreas eu precisava descobrir em que balcão se situava a Lufthansa. Para surpresa e desespero eu deveria dirigir-me a um distante terminal. Não eram poucos passos para percorrer, empurrando um carrinho, com minhas bagagens, sob causticante sol a se refletir em imensas paredes de aço, em longo caminho sobre escaldante concreto.

 

 

 

Embora viajasse sozinha eu não me encontrava só. Condições especiais e pessoas especiais encontravam-se à minha espera e à minha disposição no decorrer de todo o percurso aéreo e terrestre pelos aeroportos. Foi só chegar ao balcão da Lufthansa e fui conduzida a uma sala VIP. Na hora do embarque, como já havia ocorrido na longa viagem de ida para a Itália, ofereceram-me este serviço especial. Perguntei se o caminho a percorrer até o local do embarque seria longo. Era. Aceitei. E lá fui eu sendo conduzida pelo longo caminho, atravessando todas as lojas, tendas e butiques de um salão sem fim da imensa Duty Free Shop. Ainda bem que me empurravam em razoável velocidade que não me dava muito tempo de ver um mundo que eu gostaria de adquirir. Que não seria possível, porque, como já afirmei, não tenho braços de polvo. E meus euros já se haviam esgotado…

 

 

 

Imaginei, ainda à luz do dia, embasbacar-me com a visão dos Alpes lá do alto. Mas nem bem havíamos sobrevoado os Apeninos, escuras nuvens toldaram o espaço e logo mais salpicos de água faziam soar sons musicais nas janelas da aeronave.

 

 

 

Já perto de meu primeiro destino as nuvens ficaram mais esparsas. Já encontrávamos em uma altitude mais baixa e então, vilas e mais vilas, rios e cascatas, entre montanhas eu puder observar. Já no lusco fusco do anoitecer. Já com as luzes artificiais a brilhar na rota lá no solo distante

 

 

 

Eu me encontrava então, em pleno reino alemão. Refeição a bordo, tipicamente germânica. Comissárias de bordo dirigindo-se a mim em alemão. Afinal eu levo um Dittrich austríaco em meu sobrenome. Ficou difícil, senão impossível, a comunicação. Mas o que elas queriam saber é se eu poderia descer as escadas do avião no momento do desembarque. Para quem já tinha andado até mais de oito quilômetros por dia, desde que na Itália desembarcara, nada significava descer aquela escadaria.

 

 

Mas logo que entrei no saguão do aeroporto colocaram-me num carrinho elétrico. Por mais de meia hora a condutora levava-me, a mim e a outras pessoas com igual dificuldade de ambulação, aos respectivos salões de embarque. Quem já passou por aquele aeroporto sabe dos quilômetros que nele se percorre…

 

 

Eis que, de repente, encontro-me bem à frente de alguém que, em bom português, chamava-nos para o embarque num voo com destino a São Paulo.

 

 

Foi curta a viagem. Parecia-me que mal adormecera após o jantar, a comissária já me acordava para o café da manhã. Mais um pouco de tempo e o desembarque em São Paulo. Novamente a equipe a me conduzir, primeiramente, em busca de minha mala, depois na aduana, e, finalmente, ao salão de embarque, onde tomaria o voo com destino a Curitiba. Contando as horas que faltavam para chegar em casa, pouco li do instigante “Buraco da Agulha”, primeiro livro de Ken Follet, que conta as aventuras de um espião alemão no decorrer da Segunda Grande Guerra Mundial.

 

 

 

Nas proximidades já do aeroporto Afonso Pena, a triste notícia. Sem condições de pouso. Nevoeiro intenso. Estávamos em pleno inverno no sul do Brasil.

 

 

 

Seguimos viagem até Florianópolis. Eu imaginando mil formas para chegar em casa… Enquanto isto, em contato com minha sobrinha Karin avisei do transtorno. O sempre pronto Luiz Cesar em Afonso Pena a esperar por mim. Transtorno geral no território da família Dittrich. Mas eis que o nevoeiro cedeu às nossas preces, e às mandigas de muitos, talvez. Retornamos, via aérea, ao Afonso Pena.

 

 

 

E em poucas horas em minha casa, uma vez mais. Com Maria Lisboa, a secretária do lar, que há mais de um quarto de século aguenta as minhas manias, a me servir um delicioso almoço à nossa moda. Do qual já sentia saudade.

 

 

 

E depois acomodar-me na poltrona e dormir. Estávamos retornando ao nosso meridiano. Com um diferente fuso horário. Com cinco horas de diferença. Mas sem antes já começar a distribuição das pequenas e sutis lembranças que trouxe da terra de meus Nonnos.

 

 

 

É bom vagar pelo mundo. O melhor é o retorno ao lar. Mas continuo a viagem em minha mente. Refaço os caminhos por onde andei e por onde meu pensamento vagou em todos aqueles dias de um verão italiano.





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