A lenda de Faustina, a mulher de vida fácil

Houve uma fase, no decorrer de meus estudos no Sagrado Colégio de Canoinhas, em que, repentinamente, eu me tornara uma aluna externa.

 

 

Minha família deixava a nossa vila encantada para vir morar na cidade. Em plena praça Lauro Müller, o centro de tudo.


 

 

 

Dentre as tantas razões encontradas por minha mãe, uma havia que era a realização de um velho sonho há muito acalentado. O sonho de mexer com uma loja de tecidos e de aviamentos para costura. Um local onde ela poderia se envolver em meio a uma fantástica variedade de sedas e chitas, failles e tafetás, organzas e lamês, rendas e crepes, lãs e linhos, cachás e algodão e quantos outros mais e, com eles criar os trajes por ela vislumbrados há tanto em sua imaginação.

 

 

A este sonho ela acrescentava a instalação de um atelier de costura. Um atelier que se transformou, no decorrer do tempo, em uma verdadeira escola de costura. E quantas mestras desta fina arte com ela aprenderam a moldar um vestido com agulha e linha diretamente no corpo de deslumbradas mulheres de nossa sociedade.

 

 

Enquanto ela sonhava aconteceu que uma família de libaneses que era proprietária da Casa Barateira, talvez com intenção de em Canoinhas não mais residir, decidiu desprender-se de seus negócios aqui. E então as fazendas e os armarinhos, as camisas e os adornos, os aviamentos e tudo o que se encontrava naquela loja passou para as mãos de minha mãe. E junto tivemos a alegria de conviver com um rapaz que se casara há algum tempo e que trabalhava com o “turco” da loja da praça, de quem se tornara sócio. E assim o velho libanês Felipe Mansur vendeu sua loja e a casa anexa aonde fomos morar. E o jovem sócio que com ele trabalhava como sócio de minha mãe continuou.

 

 

Casa Barateira era sinônimo de Oscar Pfau, o jovem que sabia lidar com a freguesia, que conhecia todos os tecidos e bugigangas que lá se vendia, e, o mais importante, todas as manhas dos caixeiros viajantes que sempre tentavam empurrar para incautos donos de lojas, fazendas que não encolhiam, fazendas coloridas e estampadas que não desbotavam…

 

 

E era ali, atrás daqueles balcões, que eu, criança ainda, ficava a bisbilhotar. Claro que sempre fora do horário das aulas do ginásio, ou de pintura e ou de piano e com as lições de casa prontas. Era um outro mundo encantado para mim. Remexia nas prateleiras, nas caixas, nas gavetas e descobria mil coisas diferentes que em uma loja poderiam ser adquiridas. Objetos nunca antes, assim tão coloridos e diversificados, vislumbrados por mim. Era um mundo novo.

 

 

E foi numa destas tardes modorrentas de verão que eu a vi pela primeira vez. Uma figura diferente. Uma mulher exuberante. De chamar a atenção. Não, ela não era jovem. Não para aqueles dias, para aquele tempo. Não saberia aquilatar sua idade. Lembro-me que era alta. Ou parecia-me ser alta. É a imagem que à mente me vem. Mais ou menos avantajada de corpo. Não um corpo bem torneado, não. Era o seu corpo. Talvez até com curvas nada proporcionais. Afinal já era uma senhora andada nos anos.

 

 

O que me marcou mesmo foram os seus cabelos. Pretos, muito pretos. Cor de azeviche, como nos versos de uma canção da época. Ou da cor da asa da graúna, como Iracema, a heroína de José de Alencar. Pareciam-me levemente ondulados. E longos. Caiam, em cachos, bem abaixo dos ombros.

 

 

Roupas coloridas, estampadas. Colares, vários colares. Com pedras vermelhas. Correntes de ouro. Pulseiras. Muitas pulseiras. Em ambos os pulsos. Anéis. Vários. Com pedras vermelhas, verdes e azuis. E exuberantes brincos de ouro, com pedrarias também. Enormes brincos que tiniam como sinos quando ela movia a cabeça.

 

 

E ao sorrir punha à mostra faiscantes dentes dourados. E sorria sempre. Era muito simpática. Não aparecia sozinha na cidade. Acompanhavam-na sempre várias moças, vestidas também com exuberantes vestidos rodados, com saias godês ou franzidas, muito coloridas.

 

 

Oscar, com a seriedade que lhe era característica a atendia com a gentileza com que a todos atendia. E então descia das prateleiras peças e mais peças dos mais variados tecidos. Ela era uma freguesa habitual. Ele nos dizia que, às vezes, ela levava várias peças de fazenda. Das mais variadas qualidades. Em geral, daqueles mais simples, como a chita e o cachá.

 

 

Este arsenal todo de fazendas e acessórios que ela levava tinha destinos variados. Algumas das garotas que moravam nas casas que ela dirigia, dentre outras habilidades que garantiam o sustento da confraria, também eram exímias costureiras. E costuravam peças e mais peças de calças de brim, de vestidinhos de chita, de camisas de algodão. E até casaquinhos de lã ou de cachá. Peças que ajudavam a cobrir a nudez e a abrigar do frio um sem número de famílias que nem se sabia em que rincões moravam.

 

 

Há uma tarde especial de que me recordo. Ela cravou os olhos num tecido leve de algodão, super estampado. Lembro-me que tinha fundo azul, enormes flores vermelhas e o verde das folhas tomava o resto da sua largura.

 

 

Ela ficou deslumbrada. E logo comentou, em voz bem alta, para as suas companheiras:



 

 

“Já pensaram que lindo! Todas vocês trajadas com vestidos desta estampa e todas as cortinas das portas e janelas do salão engalanadas com ela também?”

 

 

Oscar apenas foi desenleando a peça inteira e conferindo a metragem.

 

 

Doutra vez ela levou tudo o que tinha na loja em organdi branco e tule para confecção de véus. Aproximava-se o dia da Primeira Eucaristia e ela tinha uma coleção de afilhadinhas, cujas famílias não tinham condições para vesti-las adequadamente.

 

 

Esta criatura, que assim exuberante entrava em nossa loja, em todos os meses, sempre acompanhadas por jovens e belas moças, que vestia uma multidão de pessoas carentes e que era dona de uma casa muito concorrida e frequentada pelos maiores de nossa cidade e arredores era conhecida por Faustina. Faustina Camargo.

 

 

Semanalmente ela ia até a nossa então chamada Rádio Canoinhas, que se localizava em um prédio que o fogo levou, na rua Felipe Schmidt, encomendar músicas no chamado Programa Gentilezas. A maioria das músicas, sempre dedicadas às suas meninas, como ela as chamava. Mas, havia uma em especial, que ela homenageava em todos os dias. A sua colega de estimação de nome Maria, que a cidade conhecia como Maria Guapeca.

 

 

Quem me contou este pedaço da história foi minha amiga de infância, dos tempos de Marcílio Dias, Índia Morena Schramm Pires, que trabalhava na rádio. Dizia-me Índia que, na hora de fazer o pagamento, enfiava a mão entre os seios, por dentro do seu sutiã, e de lá tirava um monte de dinheiro, em suadas notas. Suadas, pelo calor natural do local em que estavam guardadas… Suadas pelo trabalho executado por quem as recebera… E sempre deixava o troco com minha amiga. E minha amiga afirma que seus ganhos das gorjetas vindas de Faustina, ultrapassavam seu salário na rádio.

 

 

Mas não eram apenas músicas que ela mandava tocar na rádio, não era apenas roupa que ela distribuía aos necessitados. Faustina, mensalmente, adentrava os recintos dos moinhos de farinha e de arroz, dos cerealistas da região, dos armazéns de casas de negócios que vendiam os demais alimentos e fazia o rancho de uma plêiade de necessitados que, sem a sua benevolência, de inanição teriam perecido.

 

 

Eu não sei como definir a sua profissão. Porque um dia, quando já era médica aqui em nossa cidade, ao preencher a ficha de uma nova paciente perguntei a sua profissão. E ela assim me respondeu:

 

 

“Eu sou daquelas que chamam de mulher de vida fácil…”

 

 

Estas palavras nunca saíram de minha cabeça.

 

 

Então Faustina era uma dessas mulheres a quem dizem ser de vida fácil… Uma mulher que tornou mais fácil a vida de tantos e de tantas, carentes de tudo, a quem ela abrigou do frio, a quem ela mitigou a fome.

 

 

Numa tarde de domingo Faustina estava sentada na escadaria que ficava em frente de sua casa, ali naquela rua que faz uma curva logo à direita depois da ponte sobre o rio Canoinhas, alegremente conversando com suas colegas de trabalho quando, inopinadamente, um caminhão que por lá manobrava, deu ré e comprimiu seu corpo contra a parede.

 

 

Ela tinha então sessenta e dois anos, segundo o que consta em sua lápide no cemitério municipal de nossa cidade. Muitas lágrimas, daqueles e daquelas a quem ela, sempre, com tanto carinho e abnegação levou o pão e a coberta acompanharam-na até onde seu corpo foi depositado.

 

 

 

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