A lenda da tomada de Três Barras

Vagão de trem durante o período da Guerra do Contestado, em Canoinhas/Arquivo

As notícias eram desencontradas. Ninguém sabia ao certo como o chefe ficara sabendo

 

Havia a Vila e havia o Quadro. No Quadro moravam os empregados da grande serraria. Os empregados que trabalhavam nos escritórios. Os empregados mais graduados. No Quadro ficavam os prédios da administração, o hospital, o almoxarifado, o prédio onde funcionava o cinema, onde se realizavam os bailes, onde se localizava o cassino.

 


 

Na vila ficava a igreja, a escola, a delegacia, os negócios onde tudo que se precisasse comprar era encontrado. Na vila moravam os que na grande serraria não trabalhavam. Na Vila ficava a estação da estrada de ferro também.

 

 

O Quadro com suas ruas estreitas estendia-se logo ao lado da grande serraria e da Vila era separado pela linha do trem. A grande serraria que ficou conhecida para sempre apenas como Lumber, seu nome em inglês.

 

 

Mas os operários que trabalhavam na grande serraria em torno de todo este império viviam. Eram muitos. Que moravam em alojamentos e ou casas ao redor.

 

 

Mais além do Quadro e da Vila e das moradas dos operários estendiam-se os sítios onde porcos, galinhas e vacas eram criados. Onde havia roças de milho, feijão e arroz. Onde muitas hortaliças eram plantadas e colhidas.

 

 

Perto ficavam os rios. O Negro mais distante e o Argentina bem próximo da estação de trem. Onde fácil era chegar correndo pelos trilhos. Onde a gurizada da terra se deleitava na época de calor e pescava em todos os dias do ano. Onde o Zeca e o Toninho passavam as tardes.

 

 

E foi numa tarde assim que os dois sapecas, cansados de nadar e de espantar os peixes, resolveram deitar-se sob uma frondosa árvore que balançava seus galhos na margem logo abaixo da ponte. Não muito longe desconhecidos homens de estranhas feições também pescavam. Zeca e Toninho pouco ouviam das conversas daquelas pessoas de faces tisnadas por muitos sóis. Homens que já tinham uma boa cesta cheia de carpas e lambaris, de bagres e traíras.

 

 

 

Cansados, os meninos cochilaram à sombra da árvore. Cochilaram e dormiram e sonharam. Sonho tumultuado o do Zeca. Com as vozes daqueles homens ressoando em seus ouvidos. Acordou sobressaltado. Mas não tinha certeza do que ouvira. Acordou Toninho que ressonava a seu lado. E meio atordoado, meio assustado, puxou o companheiro para irem embora logo porque ele precisava contar, e depressa, para sua mãe, a conversa que ouvira.

 

 

A mãe trabalhava na casa de um dos guarda-livros da Lumber. Lá no Quadro. E para lá correram os dois. Zeca gaguejava de medo e horror do que ouvira. Nhá Sebastiana, a mãe dele, só gritou um “Deus nos acuda!” e correu a contar a história para a sua patroa. Que pela janela da sala já alardeava para a vizinhança. E o corre-corre começou.

 

 

Quando a notícia chegou ao escritório da Lumber o alarme foi geral. O próprio gerente geral correu até a estação da estrada de ferro e exigiu do agente que solicitasse a vinda urgente de um comboio com vagões de passageiros para acomodar o maior número possível de pessoas. Pois precisavam deixar, de imediato, a cidade. Rumores de que ela seria invadida, saqueada e incendiada naquela mesma noite por uma horda de fanáticos armados até os dentes, corriam pela região toda.

 

 

O trem normal daquela tarde já se encontrava distante, para muito além da estação de Canoinhas, a mais próxima, que era a estação da Colônia São Bernardo. Já deixara Três Barras às cinco horas da tarde em ponto.

 

 

A notícia correu de boca em boca. A noite já se instalara de todo e a estação ferroviária foi se enchendo de gente. Com malas e bagagens. Com tudo o que conseguissem carregar. As notícias eram desencontradas. Ninguém sabia ao certo como o chefe ficara sabendo. O medo a tudo superava.

 

 

Decidiram os dignitários que o melhor destino onde a população pudesse ser protegida era a então estação de Canoinhas, hoje Marcílio Dias, onde um destacamento do exército estava acampado.

 

 

Lá na Colônia São Bernardo as coisas já estavam tranquilas. A noite chegara. Todo mundo recolhendo-se às suas casas. Na estação só ficara o agente que morava lá mesmo e um guardião. No restaurante de minha Nonna Thereza Gobbi, os últimos retoques na limpeza estavam sendo dados. Findava-se até a preparação do cardápio para o almoço do dia seguinte.

 

 

Minha Nonna acabava de apagar a luz do último lampião e de posse de sua pequena lanterna a querosene subiria a escadaria que ficava ao lado do restaurante a fim de dirigir-se a sua casa quando, inopinadamente, entra no grande salão o agente da estação. Esbaforido foi dizendo a ela que logo chegaria um comboio, vindo de Tres Barras, lotado de pessoas que ainda não haviam jantado. Que era para minha Nonna se preparar.

 

 

Do alto da colina, perto da capela São Bernardo alguns notívagos olhando o horizonte estranharam aquele risco iluminado a correr no horizonte além. Uns diziam que devia ser um trem. Outros que não poderia ser porque o grande farol da maria-fumaça não fazia um clarão tão comprido assim. E aquele enorme risco luminoso a clarear a escuridão da mata circundando todo o contorno do Rio Negro, seguindo exatamente o caminho da estrada de ferro… E perguntavam-se, como que um trem assim iluminado avançava tão celeremente noite adentro. Às vezes ficava encoberto pelo denso arvoredo depois reaparecia como imenso boitatá a correr pela campina.

 

 

Então desceram a colina e foram até a estação para se inteirar de onde viria e para onde seguiria tão estranho comboio que avançava, feericamente iluminado, pelas campinas em rumo de nossa vila.



 

 

E o comboio apitou na curva logo após atravessar a ponte sobre o Rio Canoinhas. E em nossa vila parou. De seu interior desesperadas pessoas foram recebidas pelos componentes do destacamento militar.

 

 

Ferroviários de folga foram chamados de suas casas para ajudar nas necessárias manobras e manutenção a que fazem jus todos os trens que em nossa vila aportavam.

 

 

Minha Nonna apressara-se a, rapidamente, preparar uma bela macarronada com um molho que só ela sabia fazer naquele grande fogão. Deu graças de ter o fogo ainda meio que aceso, pois sobre a chapa deixara cozinhando o feijão para o almoço do dia seguinte. Com a ajuda de minha mãe, que muito jovem era ainda, fez montanhas de pastéis. E pode servir a quase uma cidade inteira, embora bem pequena cidade, que naquela noite, de súbito, ali desembarcou.

 

 

As horas passavam. Logo um gaiteiro e um tocador de rabeca improvisaram um baile na plataforma da estação. Porque os ânimos daquele povo que estava prestes a perder todos os seus bens, frutos da luta de uma vida, precisavam de algum estímulo.

 

 

Enquanto isto, lá no outro lado do horizonte, um desolado agente de estação fechara-se na sala do telégrafo, tendo a seu lado uma velha pistola de uma bala só, aguardava pelos fanáticos ou jagunços ou crentes de João Maria ou algo assim que viriam saquear e incendiar a cidade. Que levassem os minguados mil reis que havia no cofre… que levassem tudo… mas que o deixassem com vida era o pensamento que de sua cabeça não saía.

 

 

Chegou a dormir sobre a ensebada mesa onde ficava o aparelho do telégrafo. Uma hora da manhã. Duas horas. E tudo quieto. Às três horas ele resolve ir tomar um ar fresco na plataforma. E apenas a escuridão ele viu. Porque até a Lumber silenciara suas máquinas serradoras.

 

 

Pensou lá com os botões dourados da jaqueta de seu uniforme que tudo não passara de um engodo, de um alarme falso, de alguém que alguma conversa não teria entendido direito.

 

 

E voltou para o seu telégrafo. O mesmo aparelho onde horas antes ele pedira socorro para a estação de Mafra naquele internacional código Morse. Onde, em uma única e grossa tecla, batera, sem cessar a famosa sequência de pedido de socorro.

 

 

Três pontinhos, três tracinhos, três pontinhos batidos ritmicamente, uns após os outros, com um pequeno intervalo entre cada sequência!

 

 

. . .  – – – . . . O tradicional S O S.

 

 

 

Mas desta vez não foi um pedido de socorro. Desta vez foi para avisar ao agente da estação de nossa vila que em Três Barras estava tudo calmo e que o povo poderia retornar, sem susto e sem medo.

 

 

E assim voltaram todos para os vagões de um inusitado trem de passageiros que, inopinadamente, na noite trafegara, para fugir de uma horda de malfeitores, com as luzes todas acesas, dando visíveis sinais aos ocultos inimigos de sua localização. Um luminescente e vivo alvo…

 

 

Mas de onde os sapecas Zeca e Toninho foram buscar imaginação para espalhar toda aquela história? Que a cidade seria incendiada? Que tudo e todos seriam queimados? Bem, eles cochilaram e ouviram as vozes dos estranhos homens que na margem do rio Argentina estavam a pescar. Inquiridos pelas chinelas que Nhá Sebastiana tinha nas mãos, tentaram explicar. Que cochilaram, que dormiram, que sonharam. E misturaram o que ouviram com as coisas que na Vila e no Quadro se comentava. Mas juram que ouviram os homens dizer que a fogueira seria grande e que todos ficariam bem assados.

 

 

Os homens falavam da festa que fariam com a quantidade de peixes que haviam pescado… E que num grande fogo iriam assar…

 

 

E por muitos anos não se podia sequer pensar, que dirá falar, num certo comboio, feericamente iluminado, que no negror da noite partiu para fugir e se esconder de bandidos que o sangue daquele povo queria…

 

 

Esta é mais uma das histórias que minha Nonna contava segurando o riso. Mais uma história do tempo da guerra que naquele tempo era chamada de Guerra dos Fanáticos.

 

 

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