A grande aceleração


A ilusão nossa é que imaginamos que a coisa é logo afetada pelo tempo que a desenvolve e a destrói

 

 

Dr. Wellington Lima Amorim*

 

 

No atual contexto em que o desenvolvimento frenético vinha se desenvolvendo, este fenômeno no mundo pós-pandêmico nos provoca a seguinte indagação: o processo que nos leva a quantidade/qualidade; fabricação/serialização, dado que o tempo e aceleração são características que os dispositivos técnicos provocarão uma grande aceleração em um mundo pós-pandêmico? Os diversos dispositivos técnicos devem ser compreendidos como sendo categorias que expressam a marca dramática da modernidade e pós-modernidade. O projeto moderno tem como a principal característica a aceleração, a velocidade, a linearidade: “de fato, a velocidade, sob suas diversas modulações, foi à marca do drama moderno. O desenvolvimento científico, tecnológico ou econômico é sua consequência mais visível.”[1] No entanto, para Michel Maffesoli, pensador e sociólogo francês, o tempo está se tornando menos veloz, apresentando-se lento, presenteísta, policromático, em contraposição a um tempo linear: “É isto que importa assinalar aqui: assinalar a passagem de um tempo monocromático, linear, seguro, o do projeto, a um tempo policromático, trágico por essência, presenteísta e que escapa ao computo burguês”. [2], “no limiar deste novo milênio, está dando lugar a uma outra concepção de tempo, a da duração, que é por essência, plural e policrômica”. [3].

 

 

 

 

A ilusão nossa é que imaginamos que a coisa é logo afetada pelo tempo que a desenvolve e a destrói.  Maffesoli nos alerta: na modernidade existe uma tensão constante e que permanece, entre o Ser e o Tempo. No entanto, o pensamento técnico e científico constantemente nos remete um a tempo que dura. Respondendo nossa questão, não haverá mais uma constante aceleração, mas o tempo se presentificará. Todavia, temos sociedades que acentuam o passado. Outras, como o projeto moderno, que valorizam o futuro. Mas existem ainda aquelas que acentuam o presente, como por exemplo: a decadência romana e o renascimento. Como exemplo, Maffesoli, procura demonstrar que existem duas compreensões na relação do homem com o tempo, uma ocidental que concebe o tempo linear, e outra oriental que concebe o tempo como duração: “Eis um pequeno apólogo que define bem a tensão que terá, em geral, o ocidente e o futuro. A exterioridade é o fundamento da ação. Tudo é ordem da ex-tensão. A realização, individual ou social, é uma conquista. Inscreve-se em um projeto mensurável, rápido, previsível racionalmente. Recordemos, em contrapartida, que, para o zen, é se concentrando sobre si mesmo que está a certeza de alcançar seu alvo. Aqui não é a ex-tensão o que importa, mas bem mais a “in-tensão”. Algo que está na ordem da morosidade, da meditação, quase da suspensão do movimento. O resultado se dá, então, por acréscimo. A intenção, nesse caso, tem pouca importância para ser que se aprofunda em um presente eterno. Imanenteísmo que se opõe ao transcendentalismo.” [4]

 

 

 

 

Desta forma, em toda a modernidade houve uma ocidentalização do mundo, concebido a partir da linearidade do tempo. Segundo Maffesoli, na contemporaneidade é possível que ocorra o movimento contrário, ou melhor, uma orientalização do mundo, restaurando a ideia de destino, e do tempo que dura, uma presentificação, residindo, mesmo que inconscientemente, um sentimento trágico. Isto se dá, devido ao elemento fundador da modernidade que foi o protestantismo, que com a doutrina da predestinação, submete toda a compreensão da vida ao conceito de necessidade: “Assim como está presente, em doses mais ou menos elevadas, no judaísmo, no islamismo e, é claro, na gnose de todos os tempos, reencontramos o mito do destino na raiz da reforma. Efetivamente, não é simples paradoxo associá-lo ao tema da predestinação. A respeito, é interessante ressaltar que um bom especialista em Lutero, H. Strohl, sublinha tudo o que esse tema deve à herança inconsciente do Schicksalglaube germânico ou Moira dos antigos. A comparação é ousada, mas a análise é pertinente. E é importante notar que o protestantismo, que foi o elemento fundador da modernidade, é perpassado, ainda que inconscientemente, pela necessidade que, ao menos, relativiza a ação do homem, e torna nossas obras o mais precárias possível”. [5]

 

 

 

 

Sendo assim, Maffesoli nos adverte que, para compreender uma determinada sociedade, ou no caso deste artigo, um fenômeno social, como a pandemia que nos assola, é necessário entender qual a concepção de tempo que uma sociedade possui, se ela está assentada sobre um tempo linear (passado e futuro), como, por exemplo, o ocidente, ou um tempo que dura (presente), o oriente. Para Maffesoli, a orientalização do ocidente ocorre quando nasce o sentimento trágico da modernidade; isto se dá através do desencantamento do mundo e quando descobrimos que o progresso científico e técnico é um mito, concebida através do processo linear da história: “Falando de uma pequena cidade alemã, invadida pelo tédio, dominada pelo costume e cercada por obrigações de toda ordem, Nietzsche disse em poucas palavras: “Aqui poderíamos viver, posto que aqui vivemos”. A expressão admirável, que ressalta tudo o que o destino pode doar à existência, todo o dinamismo do amor fati: somos livres dentro de uma necessidade repleta de amor. A vida talvez não valha nada, mas, já sabemos nada vale a vida. Trágico nos obriga a pensar este paradoxo. Paradoxo intransponível, para além das ideologias tranqüilizadoras sobre a perfectibilidade do homem e da sociedade, para além das múltiplas ilusões de todo gênero que formaram o progressismo ocidental, apela a uma lucidez fortificante, incitando a viver a sua morte de todos os dias, o que, depois de tudo, é uma boa maneira de viver a vida que nos tocou. Integrar homeopaticamente a morte é o melhor meio de se proteger ou, ao menos, de se tirar proveito”. [6] .

 

 

 

 

Cabe ressaltar, aqui, o caráter de intemporalidade que o mundo contemporâneo assumiu. O tempo parece parar, permitindo o aproveitamento extremo do que se apresenta. Imobilidade e intensidade, estabilidade e movimento que se entrelaçam, apresentando-se paradoxal. Colocando-nos diante de uma sabedoria prática, técnica, astuta e hedonista. Este hedonismo não é individualista, mas funda uma ética social, um ser-conjunto, que respeita a necessidade e a contingência, o sujeito e sua inscrição na comunidade, surgindo uma representação cíclica do tempo que tem com base o jogo das estações naturais, características estas, que são semelhantes ao Renascimento, onde os humanistas criticavam a instituição de qualquer ordem, lei ou moral estabelecida. Portanto, renasce a magia, a imoralidade, a astrologia, o sincretismo, o culto ao corpo, o nomadismo, new age.

 

 

 

 

Esta intemporalidade é expressa pelo gosto intenso do tempo presente. Renasce um ritmo cíclico, que sintetiza através de uma sinergia, o tempo e o espaço, a estabilidade e o movimento, o real e o irreal. A consequência deste processo nos coloca diante de uma sensação de nostalgia de um paraíso mítico, que segundo Mafessoli, é presente em vários tradições e relatos espalhados pelo mundo, seja no pensamento judaico-cristão, mulçumano, ou em nosso inconsciente coletivo, adotando uma expressão de Carl Jung. O terreno para o nascimento destas utopias se encontra, segundo Maffesoli, no barroco, expressa na arquitetura brasileira. O barroco representa a síntese do sentimento de desamparo, da tristeza, de ironia, de humor, do sentimento elegíaco e da capacidade de resistência da sociedade, que remete ao intemporal, que permite viver neste mundo, sempre em busca de um outro lugar, na verdade um não-lugar, algo paradoxal, uma utopia, nas palavras de Maffesoli, um país do tempo imóvel. Temos como exemplo, o mito fundador da alma lusitana, o sebastianismo, um príncipe sempre presente e ausente, e a esperança de seu retorno, na fundação do quinto império: “Assim é com Portugal, cujo vasto império testemunha o espírito aventuroso. Voltado para o oceano, Portugal sempre foi atraído pelo longínquo. Luís de Camões, o poeta português por excelência, canta em Os Lusíadas a importância da errância no mundo vasto e a função dinâmica da exploração. Afirma, assim, que o gênio do povo nisso encontra sua realização. Sabe-se, igualmente, do papel desempenhado na epopeia nacional pelo sebastianismo: nome de um príncipe desaparecido, Sebastião, cuja volta sempre se espera, incitou as muitas aventuras e expedições nos países longínquos. O sebastianismo animou em profundidade o imaginário coletivo, e o próprio Fernando Pessoa nele achou motivo para inspiração quando celebrou o quinto império, futuro, durante o qual o povo português seria de alguma forma, exaltado. A famosa saudade própria do país e de seus habitantes, acha, talvez, sua origem nesse amor do longínquo. [7]

 

 

 

 

Este não-lugar será levado aos quatro cantos do mundo, que para Maffesoli o fado, mostram a necessidade de peregrinar, ou melhor, de navegar, ao estilo de vida dos movimentos da juventude alemã denominada Wandervogel, confirmando a total imobilidade do tempo, tendo como referência o tempo que dura em Bergson, que desacelera, ou melhor, uma temporalidade instantânea, um retorno à vida, de uma suspensão do tempo linear, de um sentimento trágico. O trágico renasce a partir da aceitação do destino, onde o ser é acontecimento, que provoca um furor de viver. Na modernidade a história se desenvolve, narra, dramatiza, postulando uma síntese dialética. Diferentemente, no trágico tudo estar por construir. Tudo isso reflete as ações inconseqüentes dos jovens, a pluralidade das famílias, a errância sexual, os amores efêmeros e sucessivos, o neopaganismo, a busca desenfreada pelo prazer, a aceitação anárquica das leis na economia etc.

 

 

 

 

Todos esses exemplos só podem ser compreendidos tendo como referência o mundo antigo. São movimentos que se opõem a qualquer forma de propaganda que nos lembre dos campos de concentração nazista que afirmava: o trabalho liberta. Todos estes aspectos estão presentes nas tragédias. É o destino que se impõe impiedoso, que ignora o sujeito obedecendo ao que está escrito, estando tudo predestinado, negando o princípio fundante da civilização ocidental ou assim dizer do projeto moderno, o livre arbítrio, a decisão do indivíduo. Sendo assim, busca-se o equilíbrio, sendo a tragédia o modelo que informa, que serve de matriz, possibilitando novas formas de vida sejam elas individuais ou sociais. Tomando como como ponto de partida a argumentação desenvolvida por Michel Maffesoli pode-se compreender que a crise sanitária aponta para uma crise civilizatória, o fim de um tempo, paradigma, onde modelo quantidade/qualidade; fabricação/serialização pode se tornar obsoleto. Uma pandêmico tem papel extremamente simbólico para a civilização ocidental. Como exemplo, temos a grande peste no início da decadência romana, a peste negra no final da Idade Média, ou a gripe espanhola no final da Grande Guerra, anunciando respectivamente o início do período medieval, Renascimento, ou ainda, os loucos anos 20. Abrindo espaço para o compartilhamento e o estar-com e que poderá quebrar definitivamente com a lógica individualista da Modernidade. Os dispositivos técnicos desencantaram o mundo, mas nos jogam para a mística do Absoluto.

 

 

 

*Dr. Wellington Lima Amorim é filósofo

 

 

 

[1] MICHEL, Maffesoli. O Instante Eterno: o retorno do trágico nas sociedades pós-modernas, 2003, p.8.
[2] MICHEL, Maffesoli. O Instante Eterno: o retorno do trágico nas sociedades pós-modernas, 2003, p. 9.
[3] MICHEL, Maffesoli. O Instante Eterno: o retorno do trágico nas sociedades pós-modernas, 2003, p. 9-10.
[4] MICHEL, Maffesoli. O Instante Eterno: o retorno do trágico nas sociedades pós-modernas, 2003, p. 18.
[5] MICHEL, Maffesoli. O Instante Eterno: o retorno do trágico nas sociedades pós-modernas, 2003, p. 22.
[6] MICHEL, Maffesoli. O Instante Eterno: o retorno do trágico nas sociedades pós-modernas, 2003, p.22.
[7] MAFFESOLI, Michel. Sobre o nomadismo. Rio de Janeiro: Record, 2001, 51-52.

 

 

 

 





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