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agosto

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2022

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A Copista de Kafka

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A arte pela arte

Existe um post que circula nas redes sociais, o qual me entristece muito, que afirma mais ou menos assim: “Já precisei de engenheiro, médico, agricultor, mecânico, professor. Mas nunca precisei de um artista”.  É óbvio que não entra na discussão a suprema importância das profissões mencionados, pois o que me chateia é o fato de que as pessoas que desqualificam os artistas, e, além disso, curtem e compartilham essa ideia, ou são muito ingênuas, ou já se renderam aos ditames da reificação (coisificação).

Será que esses indivíduos que reiteram não precisar de artistas estão levando em consideração todos os tipos de manifestações, uma vez que, podem até não gostar de literatura clássica, música erudita e das telas de Claude Monet, mas talvez esquecem que todos os estilos de música são compostos e cantados por artistas? Que as telenovelas são elaboradas por um escritor (que é um artista), que os jogos eletrônicos são idealizados por artistas? Eu afirmo, sem sombra de dúvida, que, felizmente, todos precisam de artistas, e, para além disso, se valem de suas criações diariamente. Caso contrário, seríamos somente peças da engrenagem monetária. Afortunadamente eles se afastam e, melhor, nos afastam, da realidade atroz.

Essa reflexão me ocorreu porque vi o supramencionado post no dia em que estava lendo A copista de Kafka, de Wilson Bueno, que faz parte do que chamamos de textos complexos. Fiquei pensando em quantas pessoas jamais terão nas mãos um livro desses e que, caso o leiam, dificilmente farão as inferências necessárias para assimilar seus subentendidos e, por isso, talvez propagarão que o escritor é nonsense.

Além de ser uma obra que não se enquadra nos gêneros pré-definidos, isto é, conto, crônica, poema ou romance, é preciso uma bagagem literária, cultural e histórica para acompanhar o fluxo narrativo. No mínimo, o conhecimento dos livros de Franz Kafka, de seu estilo ímpar, e informações básicas de sua biografia. A partir disso, Wilson Bueno se vale dos caminhos mais instigantes da arte, ou seja, ousar a realidade, imbricar novas vertentes semânticas ao já propagado, colocar-se no lugar de outro e dar seguimento a um enredo.

Franz Kafka, escritor tcheco, que viveu entre o fim do século dezenove e início do vinte, escreveu textos nos quais a alienação e a brutalidade psicológica são temas centrais. Ao ler suas obras, somos praticamente forçados a refletir sobre a angustiante conjuntura que nos envolve, sobre os problemas familiares e sobre a falta de empatia a que somos submetidos diariamente. Acerca de sua vida pessoal, sabe-se da vivência complicada com o pai, de vários relacionamentos amorosos e de uma suposta correspondente, com quem trocou missivas durante algum tempo.

 Kafka faz arte que nos leva aos confins do consciente e nos tira da zona de conforto psicológico através de seu estilo intimista e engajado. Wilson Bueno, por sua vez, dialoga com essa possível copista, supondo ser o escritor tcheco que troca cartas com uma de suas pretendentes. Através das lentes da missivista, ele transpõe uma realidade que imaginara para esse romance epistolar, ademais de deixar evidências históricas de uma atmosfera bélica:

20 de outubro de 1916
A guerra toma contornos de catástrofe universal, eu diria. Milhões de mortos, a Europa sacudida por um ódio tão corrosivo quanto generalizado. A vida me parece muito banalizada, como se a morte de milhares de jovens nas frentes de batalha fosse o trocar ou destrocar a lâmpada de um poste. O Estado, onipresente, nos invade a vida e até a conta bancária.
Franz continua a me cumular com suas cartas, onde o brilho da inteligência não se deixa obscurecer pela onipresente mágoa ou invariável ressentimento. O medo, em Franz, adquire às vezes contornos terríveis. É um falcão ensanguentado ali, são os corvos e abutres que voam em bando, carniceiros, ou o grito do empalado vivo no escuro. Nada escapa a Franz, mas penso, o preço do jogo é muito alto para um ser já em si propenso à fragilidade e à melancolia.
Ontem li, de uma enfiada, metade do bestiário de Franz. O livro é às vezes tão engraçado... Que talento este de Franz para arrancar uma gargalhada sem jeito, do acontecimento mais hediondo! É como se a gente risse de lado, um riso envergonhado de nossa sempre parca condição humana (BUENO, 2007, p.76).

Certamente o último parágrafo é a definição mais acurada sobre o estilo de Kafka, isto é, o que demonstra, com humor negro, o desvelamento do, muitas vezes, cruento caráter humano e de seus desdobramentos no meio que nos cerca.  

Agora, convido meus leitores a lerem (ou relerem) os escritos de Franz, sentirem o estranhamento das catarses e, logo, conheceram, através do livro de Wilson Bueno, a misteriosa copista que adiciona uma beleza descoincidente aos fatos literários e biográficos. Depois, se alguém ainda pensava que artistas são desnecessários, se convencerá de que, no mínimo, nos fazem pensar e nos transportam para além de um contexto prático e insosso.

BUENO, Wilson. A copista de Kafka. São Paulo: Planeta do Brasil, 2007.