O Bolsonarismo desencantado

Para atender a parte de baixo é preciso contrariar a parte de cima. Até quando poderão ser compatibilizadas é uma questão de tempo para descobrir

 

Dr M. Mattedi

 


Com pouco menos de um mês é muito difícil diferenciar o que é transitório do que é permanente no Governo Bolsonaro. Mais precisamente, se as trapalhadas verificadas até agora são próprias da curva de aprendizado da máquina administrativa, ou se trata de uma característica específica da gestão bolsonarista. Afinal, uma coisa é dizer que irá combater a criminalidade, a irresponsabilidade econômica e a submissão ideológica, e outra completamente diferente é acabar com a impunidade, o gigantismo estatal e o politicamente correto. Porém, independente da perspectiva adotada algumas tendências da gestão começam tomar forma.

 

 

Neste sentido, o processo de organização política e a formação ministerial indicam que o Bolsonarismo está estruturado num tripé governamental. A primeira escora da gestão baseia-se na dimensão Judiciária-Militar-Policial. Esta escora é sustentada publicamente por Moro e está encarregada da diminuição da criminalidade. A segunda a escora diz respeito a dimensão Econômica. Esta escora é sustentada publicamente por Guedes e está encarregada de promover o crescimento e a geração de emprego. A terceira escora compreende a dimensão Ideológica. Esta escora é sustentada publicamente pelo par Damares-Araujo e visa a defesa dos valores tradicionais.

 

 

O eixo de ataque Judiciário-Militar-Policial está dividido em duas agendas principais. A primeira refere-se a Agenda da Segurança que visa diminuir a criminalidade e a sensação cotidiana de insegurança; a segunda diz respeito a Agenda da Corrupção que se refere ao próprio Estado. Enquanto a primeira é enfrentada nas ruas, e baseia-se no aumento da repressão por meio do aparelhamento dos setores do combate ao crime; a segunda se estabelece nos gabinetes e pressupõe o aperfeiçoamento institucional de combate ao crime. O risco aqui é que o combate a violência e a corrupção por meio do endurecimento policial e legal se converta em criminalização do cotidiano.

 

 

O eixo de ataque Econômico visa relançar a economia por meio de uma guinada liberal. Para isto foca os entraves financeiros e burocráticos do ambiente de negócios. Neste sentido, para a equipe econômica o ponto central deste processo constitui a diminuição dos gastos do Estado. Em outras palavras, isto significa que quanto menor o Estado, melhor. Isto envolve, por um lado, desobstruir o processo de privatizações; e, por outro, as garantias trabalhistas e ambientais. Assim, o processo inicia com a Reforma da Previdência, passa pela privatização dos serviços de educação e saúde até chegar a Petrobras. Portanto, trata-se de facilitar a expansão do mercado capitalista.

 

 



O terceiro eixo de ataque do Governo Bolsonaro visa a Esquerda Cultural e as Políticas Identitárias. Esta agenda está relacionada, politicamente, ao moralismo conservador da bancada da bíblia. Este eixo de ataque pode ser dividido em dois sentidos atuação principais. Para dentro desde o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos; para fora é pilotado pelo Ministério das Relações Exteriores. Neste sentido, por um lado, o discurso foca a “ideologia de gênero” e, por outro, o “globalismo”. Portanto, trata-se da luta ideológica que se estabelece, principalmente, nas mídias sociais e serve para manter o apoio dos bolsonaristas indignados e revoltados.

 

 

Mas, como no Brasil existem sempre duas agendas opostas, o Governo Bolsonaro precisa atender tanto a parte de baixo, quanto a parte de cima. Assim, quando olha para baixo o Governo Bolsonaro precisa entregar ordem, emprego e família; e quando olha para cima previsibilidade, reformas e abertura. Mais precisamente, bala para baixo, flexibilização para cima; emprego para baixo, privatização para cima; religião para baixo, liberalismo para cima. Estas agendas são, claro, ambivalentes. Neste sentido, para atender a parte de baixo é preciso contrariar a parte de cima. Até quando poderão ser compatibilizadas é uma questão de tempo para descobrir.

 

 

O vetor estruturante destas três agendas de atuação do Governo Bolsonaro constitui o papel do Estado. Mais precisamente, o Governo Bolsonaro parte do pressuposto que Estado Brasileiro seria ineficiente, caro e paternalista. Por isto, as linhas de ataque iniciais foram aumentar a eficiência do judiciário, reformar a previdência e vigiar professores. Neste sentido, o desafio aqui é saber o quanto a sociedade brasileira está disposta a abrir mão de garantia dos direitos cíveis em nome do fortalecimento policial, a privatização de serviços em nome da diminuição do estado, ou intervir nas universidades em nome da família tradicional.

 

 

Estes são conflitos são muito sérios e que afetam a vida de milhões de pessoas. Dependem da capacidade do governo de apresentar as mudanças para sociedade e capacidade de negociação política no congresso. É que, se, por um lado, o espectro de Queiroz e os ecos da viagem à China indicam que o preço a ser pago por mais lei, mercado e moralismo será alto; por outro, não demorará muito para resistência difusa se organizar política, corporativa e ideologicamente contra a perseguição legal, a perda de direitos sociais e a purificação moral. É que talvez Moro, Guedes e Damares não bastem para garantir a aceitação passiva da agenda.

 

 

Embora cadeia, banco e igreja sejam muita coisa não cabem todos os brasileiros dentro. Assim, apesar deste debate parecer ainda muito abstrato, vai acabar ficando bastante concreto quando a conta política, econômica e social chegar. Neste sentido, é uma questão de tempo para o desencanto, o improviso e a desilusão dissolver aquele amálgama político entre os Bolsonaristas Indignados, Revoltados e Inconformados. Os limites do Governo Bolsonaro serão fixados quando o choque de realidade diluir a autoilusão desinformada criada pelas mídias sociais. Afinal, os problemas brasileiros não podem ser resolvidos somente com bala, crédito e bíblia.

 

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