Com desmonte iniciado há um ano, Gersa de Canoinhas luta pela sobrevivência

Placa inaugural de reforma do prédio onde funciona a Gersa tem o nome do mesmo governador que desmontou a estrutura/Edinei Wassoaski/JMais

Dos 19 funcionários que trabalhavam na autarquia, cinco se revezam para manter a Gerência aberta

 

 

Há um ano a Gerência de Saúde de Canoinhas (Gersa) recebeu o veredicto sumário do então governador de Santa Catarina, Eduardo Pinho Moreira (MDB): seria fechada e toda a estrutura que até então funcionava na cidade seria deslocada para Mafra. Moreira ignorou o fato de que a Gersa tinha 19 servidores concursados trabalhando em prédio próprio, prestando serviço de suma importância para a saúde de sete cidades da região.


 

 

A partir dali iniciou-se uma série de protestos. No dia em que a então gerente de Saúde de Mafra, Marlete Arbigaus, esteve com uma equipe para levar computadores e equipamentos da Gerência de Canoinhas para Mafra houve protesto por parte de servidores e vereadores, mesmo assim de nada adiantou.

 

Os vereadores fizeram inúmeros pedidos a deputados e ao próprio governador pela reativação da Gersa. Enquanto isso, apesar das argumentações bastante plausíveis, o Governo se fez de surdo. Um dos argumentos mais contundentes foi demonstrado pelos servidores. Como os 19 funcionários são concursados e o prédio é próprio, a economia anual com o fechamento da estrutura não chegaria a R$ 200 mil por ano. Ademais, se pensarmos que Mafra será também referência para Porto União, o ideal seria manter a estrutura regional em Canoinhas, que tem praticamente a mesma distância das duas cidades.

 

 

Não adiantou. Depois de muita discussão, nove funcionários que se recusaram a ir para Mafra foram cedidos para o Município de Canoinhas, mas continuaram sendo pagos pelo Estado. Outros cinco se recusaram a deixar a Gersa e, até hoje, resistem abrindo a Gersa desmontada todos os dias. Os cinco restantes encaram diariamente a BR-280 para trabalhar na Gerência de Mafra.

 

 

Auditor médico da Gersa, Antonio Vasco Magalhães Teles enche os olhos de lágrimas ao falar sobre o que ele considera uma situação humilhante, não só para os servidores, mas para Canoinhas. Ele se reuniu nesta semana com o diretor de logística da Secretaria de Estado da Saúde, Charles Fabiano Acordi, que ouviu os argumentos dos servidores, mas deu poucas esperanças de reversão do processo. Canoinhas deve mesmo se reportar a Mafra a partir de agora, conforme nova estrutura articulada pelo governador Carlos Moisés da Silva (PSL) anunciada na semana passada. O médico ressalta o prejuízo que a desativação da Gersa traz para a população. “O atendimento ao paciente foi retardado”, afirma citando o exemplo de um paciente de Major Vieira que levou horas para receber soro porque o material teve de vir de Mafra. “Se a Gersa de Canoinhas estivesse funcionando plenamente o paciente teria o soro em meia hora. Prejudicou o paciente aumentando os riscos”, disse.

 

Dr Vasco mostra estrutura desmontada/Edinei Wassoaski/JMais

Vasco lembra que constitucionalmente cabe ao Governo manter as melhorias que beneficiam a população, não desmontá-las.

 

 

Técnica em enfermagem, Andreia Silva e mais uma colega conseguiram que o Estado revogasse as portarias de remoção delas para Mafra. Os demais, não. “Temos questões familiares, uma vida aqui em Canoinhas que nos impede de nos deslocarmos diariamente (para Mafra)”, justifica, lamentando a luta que agora se mostra em vão para montar e manter a Gersa em Canoinhas.

 

 

De modo geral, os servidores entendem que prestaram concurso para a Gersa de Canoinhas, portanto podem reclamar judicialmente da ordem para se deslocarem a Mafra. Essa seria a alternativa em casa de confirmação do fechamento.

 



 

 

DESMONTE

Não é só a estrutura que preocupa os servidores. Há pouco tempo Canoinhas conquistou uma rede de frio e um Laboratório de Entomologia. A rede de frio consiste numa sala equipada com refrigeradores de alta potência para estocar medicamentos e vacinas. Hoje a sala está com os refrigeradores sendo mantidos vazios, esperando pelo destino que o Governo ainda não informou.

Sala com equipamentos da rede de frio/Edinei Wassoaski/JMais

O Laboratório de Entomologia havia sido inaugurado em setembro de 2016 e em menos de dois anos veio o balde de água fria do governo.

 

Cristina Grosskopf, bióloga responsável pelo setor, conta que o laboratório lia as larvas coletadas pelos agentes de endemias dos sete municípios da regional de Canoinhas e de cinco municípios da regional Mafra.

Entrega da chave do laboratório de entomologia, em setembro de 2016/Arquivo

A leitura feita pela técnica identificava se a larva era de Aedes aegypti, Aedes albopictus ou se o espécime coletado era de outro gênero não causador de doenças, como o pernilongo comum, do gênero Culex, ou o mosquito Limatus.

 

 

Mesmo assim, 10% das larvas eram enviadas para o laboratório central para a realização do controle de qualidade.

 

 

Como o fluxo demanda motorista das prefeituras para levar as larvas até Florianópolis, o material chega lá muitas vezes uma semana depois de coletado. Depois do material chegar no laboratório central, tem a demora da identificação pelos técnicos da Capital, que atendem toda a demanda do Estado quanto ao controle de qualidade dos laboratórios regionais e também fazem a identificação das larvas dos municípios que não tenham um laboratório como o que Canoinhas tinha. Esse processo pode levar 10 dias. “Enquanto isso, o mosquito fica se proliferando no município até que tenhamos certeza que é o Aedes aegypti e iniciar com as ações de controle mecânico de controle do foco”, diz Cristina.

 

 

A bióloga conta que “com o laboratório em Canoinhas, a leitura era uma questão de horas para a técnica retornar com o resultado da leitura ao município e já iniciar as ações quando necessário. Sem contar que eu já passava as orientações cabíveis e muitas vezes no dia seguinte já estava no município auxiliando no planejamento das ações. Todo esse trabalho foi prejudicado.”

 

 

VISITA

Nesta quarta-feira, 27, um representante do setor de Recursos Humanos e outro do setor de Patrimônio da Secretaria de Saúde de SC estiveram na Gersa. Os servidores voltaram a argumentar, mas encaram a presença dos dois representantes como o processo final de desmonte da autarquia.

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