A crise da Venezuela dispensa explicações maniqueístas

Venezuelanos retiram restos de comida do lixo/Divulgação

Na política, o que importa é o resultado

 

 

Walter Marcos Knaesel Birkner*


 

Críticos da ajuda humanitária aos venezuelanos tratam a crise do País vizinho por um viés maniqueísta segundo o qual, o inimigo do meu inimigo é meu amigo. Isso tem consequências morais comprometedoras e destrutivas ao bom senso. Para além das mentiras de um governo que se perdeu na tirania, está a inaptidão administrativa, a corrupção incontrolável, somada ao crime e à maldição do extrativismo. Por extensão, vale a lembrança elementar: na política, o que importa é o resultado. A velha crítica do (país) opressor contra o (país) oprimido revela um dogmatismo tão insensível às necessidades reais das vítimas quantoo cinismo dos intervencionistas que, contudo, apresentam a única saída.

 

 

Os mencionados críticos da ajuda à Venezuela afirmam que os EUA só estão interessados no petróleo e que pouco importa a falta de democracia e as dificuldades do povo venezuelano. Vamos admitir que as relações internacionais realmente se resumam à essa lógica econômica. Certo, então é preciso admitir igualmente que os EUA são tão interesseiros quanto a China e a Rússia, coniventes com o desgoverno de Maduro por interesses que também não têm a ver com a democracia ou o bem-estar das pessoas. Nesse cenário, por mais interesseiros, o que o Grupo de Lima e os EUA propõe responde de modo propositivo a esses dois problemas, enquanto o apoio de China e Rússia à soberania de Maduro só prolongam a agonia dos venezuelanos.

 

 

Ou vamos supor que a China o fizesse em nome da revolução permanente e a Rússia ex-revolucionária apenas por vingança, motivos ambos que agradariam muita gente altruísta pelo mundo afora e no Brasil. Afinal, o confronto com quem antipatizo me causa inconfessada satisfação. Ainda assim, nem os EUA nem Maduro são fatalmente afetados, mas tão somente os milhões de venezuelanos lutando por uma vida digna. Entretanto, insistamos: os yankees ardilosos se interessam pela Venezuela porque é rica e estratégica no cenário internacional. Sim, e do lado do bem, a China e a Rússia também. A pergunta é: como um país tão rico e importante pode ser tão miseravelmente governado e gerar a miséria a milhões de seus cidadãos?

 

 

Para perguntas assim, alguns têm respostas na ponta da língua e a origem está no maniqueísmo, eterna luta entre o bem e o mal. Sou incapaz de compreendê-lo desde a origem. Dizem que é judaico-cristã. Mas lembro que, no passado recente, os EUA apoiaram as ditaduras de direita na América Latina em favor da propriedade privada e da democracia cristã, ante o comunismo ateu e totalitário. No Brasil, desde os anos 1920 uma convergência tem unido comunistas e socialistas (internacionalistas) e nacionalistas anti-imperialistas. A eles se aliavam trabalhistas e populistas em favor dos pobres e da democracia, contra os “entreguistas” de direita, pró-americanos e capitalistas que, afinal, promoveram ou apoiaram a ditadura de 1964.

 

 

Ao menos, havia coerência nesse posicionamento de esquerda. Afinal, durante o regime militar de 1964 a 1984, a defesa dos excluídos e despossuídos vinha acompanhada da bandeira da democracia. Convencionou-se desde a modernidade que este conceito está associado à liberdade, à inclusão e ao respeito às leis e à vida humana. E como já diziam os liberais democratas oitocentistas, o Estado, antes mesmo de ser democrático, não é legítimo se não garantir a vida de seus cidadãos ou atentar contra ela, como faz Maduro. Já não importa, a coisa se inverteu. O que importa é que a ditadura venezuelana seja o inimigo “democrático” do inimigo “fascista” que instiga meu complexo de inferioridade, como demonstrou Otávio Paz, em “Labirintos da solidão”.

 

 

Então, sempre que houver um líder “anti-imperialista” satanizando os EUA, ele contará com a simpatia dos que sempre estarão a favor das camadas populares (sic), da democracia e da justiça social (sic). Estarão com ele pela soberania nacional e em defesa dos oprimidos, a quem governos populistas, ainda que tiranos, oferecem a socialização das migalhas em troca de votos. Seja na Venezuela, na Nicarágua, no Irã, na Síria, na China, na Rússia ou no Zimbabwe (todos exemplos de democracia e justiça social!), o que importa é que, no fim das contas, por mais contraditório que pareça, eles estão do lado do bem. E no dia do juízo final, os EUA pagarão o preço da sua arrogância e a justiça será feita. É a redenção das almas, cântico dos justos.

 

 



Mas há outras respostas possíveis a explicar como um país tão rico chegou à situação de miserabilidade em que se encontra. Há uma resposta vulgarmente política e duas econômicas, uma igualmente vulgar e outra menos conhecida. A resposta vulgarmente política me obriga a afirmar que Nicolás Maduro é um líder intelectualmente estúpido que, para manter-se no poder, não teve outra alternativa do que entregar as riquezas do País. No plano externo, China e Rússia são seus maiores credores e beneficiados. No plano interno, o governo é refém do narcotráfico, de militares corruptos e de grupos extrativistas armados que roubam ouro e diamantes em terras indígenas e lhe pagam pedágio.

 

 

Do ponto de vista econômico, a resposta vulgar é o anti-liberalismo econômico. É difícil saber até aonde vai a ignorância econômica e onde começa a insanidade de quem, em algum momento, percebe que aquilo não vai dar certo, mas decide não retroceder. O processo de nacionalização e estatizaçãoda economia foi o ponto de inflexão do chavismo e Maduro era só um coadjuvante. Indenizar o capital estrangeiro e substituir funcionários altamente qualificados por amigos foi o princípio de tudo, algo cujos efeitos já conhecemos. Quando Chávez assumiu, em 1999, a Venezuela tinha cerca de 12.700 indústrias. Em 2017 estava com 4 mil (dados do INE – Instituto Nacional de Estatística da Venezuela).

 

 

A resposta menos vulgar tem a ver com as economias extrativistas. Via de regra, os governos dessas nações não implementam políticas de longo prazo para combater as desigualdades, mas políticas de curto prazo para aniquilar as oposições. De direita, como no passado, ou de esquerda, como agora, o extrativismo reproduz a o patrimonialismo em favor de oligarquias privadas e corporativistas estatais. Conduz à concentração das atividades econômicas e à dependência externa. Não obstante, o extrativismo e sua expropriação fiscal permite criar um vantajoso e populista sistema de políticas distributivas. Enquanto as commodities estão em alta, parte dos dividendos são utilizados para o benefício dos mais pobres. Quem há de se opor?

 

 

Mas, quando os preços das commodities caem, a arrecadação despenca e falta dinheiro, seja para pagar os salários dos que foram empregados na esfera governamental, seja para pagar os credores pelos empréstimos realizados, seja para importar os produtos necessários à população, os insumos à produção, ou garantir as justas políticas sociais. Faltam produtos nas prateleiras porque, como me explica, da fronteira, o amigo Chapo Moreno: faltam insumos. Faltam insumos   porque faltam dólares para a importação dos insumos para produzir as mercadorias que faltam nas prateleiras vazias que a televisão estatal filma, atribuindo o desguarnecimento ao boicote dos malditos empresários que ainda restam. É um subcapítulo da farsa.

 

 

Dona de 20% das reservas petrolíferas mundiais, a Venezuela é integrante da OPEP – Organização dos Países Exportadores de Petróleo, fundada pelo venezuelano Juan Pablo Pérez Alfonzo. A OPEP controla os preços desse valioso “excremento do Diabo”, capaz de gerar riquezas só comparáveis ao gás natural, ao ouro, aos diamantes e ao narcotráfico. Tudo isso a Venezuela tem. Apesar disso, milhões de venezuelanos famintos fogem desse paraíso, porque falta quase tudo o mais. Só não faltam a mentira, o roubo e a violência, além da resposta na ponta da língua de Maduro: É culpa de Satã, ainda que Satã compre 40% desse petróleo exportado. Por aqui, falta vergonha na cara de quem apoie um governo desses.

 

 

Até agora, as sanções não incluíam essa substancial venda de petróleo, nem a importação de produtos norte-americanos. Negócios são negócios. A rigor, são os títulos da dívida e a elite governamental bolivariana que tem sofrido sanções. Então, culpar os EUA não passa de um prelúdio a essa farsa. Diga-se o que tem de ser dito dos EUA, mas eles têm um Congresso repleto de interesses de capitalistas que controlam seus presidentes e não querem perder negócios com a Venezuela. Então, não importa que estejamos falando de capitalistas avarentos. O que importa é que a equação que propõe é a que a maioria dos venezuelanos deseja, ou seja, retirar Maduro do poder através de eleições limpas, a fim de reorganizar o País e colocar comida na mesa.

 

 

Qualquer crítica a qualquer intervencionismo, norte-americano ou não, deve ser considerada e pode ajudar no entendimento das relações internacionais, onde a economia e a política são a guerra por outros meios. A intenção de manter acesa a chama da resistência e da esperança de que um outro mundo é possível faz bem à política. Mas na política sabemos que o efeito das ações vale mais que as boas intenções. Se tudo que a intelectualidade anti-imperialista tem a dizer é defender um facínora no poder em nome dos seus dogmas, então ela se rendeu à insensatez. Perdeu o que tinha de mais genuíno, isto é, a compaixão pelos pobres, o compromisso com as liberdades civis e a defesa dos direitos humanos. Enquanto isso, Satã esfrega as mãos.

 

 

*Walter Marcos Knaesel Birkner é Dr. em Ciências Sociais

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