A banalidade do espírito brasileiro

Incêndio no CT do Flamengo matou 10 pessoas/Arquivo

Prof. Dr. Wellington Lima Amorim

 

 

Nestes últimos dias de verão estou me envolvendo nas leituras de Goethe, Lima Barreto e Mary Shelley. Essa tríade não é muito saudável para os espíritos melancólicos, críticos e que têm surtos psicóticos, mesclados com desejos suicidas. Esta tarefa de veraneio me fez refletir sobre a condição de Ser brasileiro. Tudo no Brasil é líquido; fugidio e contingente, expressão de abandono e negligência, ou melhor, tudo que é líquido se desmancha no ar, seja em Brumadinho, nas inundações, na falta de policiamento, no CT do Flamengo ou no trágico acidente que vitimou um dos maiores jornalista de nossa era. Ser brasileiro é Ser decadente, é Ser banal, é assim que nos representamos. Os romances de Lima Barreto nos fazem refletir a esse respeito: Porque o Brasil não dá certo? É uma pergunta feita por Lima Barreto e que nos fazemos ainda hoje sendo de uma atualidade que chega a ser monstruosa. Não há solução possível? Sou cético em relação ao nosso progresso e desenvolvimento, como Mary Shelley nos lembraria, não há solução possível para o gênero humano. Todo e qualquer projeto político no Brasil se torna utópico ou defeituoso quando tentamos aplicá-lo a realidade. Mas existe uma realidade? Como a representamos? “O mundo é minha representação” nas palavras de Arthur Schopenhauer.


 

 



Para isso, é preciso observar que desde nossa Independência não há uma representatividade real do povo brasileiro e na Velha República não foi diferente. Existiam na época três correntes de pensamento político: a) Jacobinismo de influência francesa, extremamente romântico, que através da leitura de Rousseau vai definitivamente através da obra “A origem da desigualdade entre os homens”, proporcionar infelizmente, a entrada do pensamento marxista no século XX aqui no Brasil: extremamente utópico e irreal; b) O liberalismo norte-americano, na sua versão mais pragmática republicana e utilitarista superficializante; c) O positivismo, com seu lema de ordem e progresso. Como sabemos o positivismo ganhou esta disputa, devido a nossa herança católica e tomista, que retorna com força no início do século XXI com o atual governo, influenciado pela debilidade de alguns gurus e pastores neopentecostais. Isto se deu por que se enquadra perfeitamente na estrutura hierárquica de Augusto Comte: “Não por acaso, Comte dizia ter-se inspirado nas tradições cristãs da Idade Média” (José Murilo de Carvalho).

 

 

Eis a primeira grande diferença significativa entre o pensamento religioso brasileiro de fundo tomista, que despreza o mundo em favor de outro mundo, e o pensamento de origem luterana-calvinista, que possui nas palavras de Max Weber o espírito do capitalismo. Aqui no Brasil, sempre tivemos um capitalismo predatório e de consumo, sem a ética protestante, igrejas neopentecostais que o digam. E por que é diferente? Pela nossa formação. Todo processo formativo é uma representação, e nós simplesmente adoramos nos representar como indolentes, vontade frouxa, abandonada a própria sorte, decadentes, é assim que nos representamos, seja na Literatura ou na vida cotidiana.

 

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